ONU pede a países planos e menos discurso

Cúpula do clima da ONU quer aumentar ambição das metas nacionais já firmadas no Acordo de Paris, em 2015

Ana Carolina Amaral
Nova York

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, recebe nesta segunda-feira (23) chefes de Estados de cerca de cem países para a cúpula do clima, que deve contar com discursos de 63 deles.

O evento acontece na sede da ONU em Nova York e aproveita a chegada dos líderes na véspera da Assembleia-Geral da ONU, que será aberta na terça (24). 

O secretário-geral decidiu não oferecer espaço no palco para países que não tenham anunciado de antemão planos para aumentar suas metas climáticas. O critério veta discursos de países como o Brasil, Estados Unidos, Austrália e Japão. 

Segundo o porta-voz da secretaria-geral da ONU, Stephane Dujarric, os países haviam recebido uma carta em que Guterres pedia que chegassem à cúpula do clima “com planos, não com discursos”. 

À imprensa, o secretário-geral enfatizou que não está bloqueando nenhum país de participar do evento, mas que apenas “aqueles com as propostas mais corajosas ganharão o palco”. 

Apesar da ausência do governo do país no palco, uma jovem brasileira deve discursar na abertura da cúpula. Paloma Costa Oliveira é coordenadora de clima da ONG Engajamundo, formada exclusivamente por jovens de até 29 anos e voltada à capacitação para o ativismo climático. 

Ela foi convidada pela ONU para compor a mesa de abertura junto a Guterres e à adolescente sueca Greta Thunberg, que criou as greves estudantis pedindo ação dos líderes mundiais para conter as mudanças climáticas.

A ativista Greta Thunberg discursa ao lado do secretário-geral da ONU, António Guterres, em cúpula sobre o clima, em NY
A ativista Greta Thunberg discursa ao lado do secretário-geral da ONU, António Guterres, em cúpula sobre o clima, em NY - Stephanie Kieth - 21.set.19/Getty/AFP

As metas apresentadas pelos países na assinatura do Acordo de Paris, em 2015, não são suficientes para conter os cenários mais desastrosos do aquecimento global. Segundo relatório divulgado neste domingo (22) pela agência de meteorologia da ONU, a temperatura média mundial entre 2015 a 2019 deve ser a mais alta da história, em comparação com qualquer período de cinco anos já registrado. 

O Itamaraty havia afirmado em nota que entregou à ONU um plano para cumprir as metas atuais, que já seriam muito ambiciosas. 

Uma das razões apresentadas pelo governo para explicar a ausência na lista de oradores foi o fato de o país não estar representado por um chefe de Estado na cúpula do clima. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, representará o governo brasileiro no evento.  “Se me deixarem, eu falo”, afirmou. 

No entanto, o porta-voz da secretaria-geral confirmou à Folha que a decisão da ONU foi baseada no comprometimento demonstrado pelos países em aumentar suas metas climáticas. “A decisão não é sobre quem entrega o discurso, mas sobre qual o conteúdo dele”. afirmou Dujarric.  

Pelo calendário das negociações das COPs do Clima, as das metas devem acontecer entre 2020 e 2023. Entre diplomatas do Itamaraty, a avaliação é de que a ação do secretário-geral atropela as negociações que acontecem na agência de mudanças climáticas. 

No entanto, entre diretores da agência de mudanças climáticas da ONU (UNFCCC) a decisão de Guterres de vetar do palco países que não anunciaram compromissos mais ambiciosos foi bem recebida. 

Três oficiais ouvidos pela Folha afirmaram que o secretário toma uma atitude ousada e eleva o nível de exigência ao impor condições para que os países discursem na cúpula do clima. Segundo eles, a decisão é possível por se tratar de um evento organizado pelo secretário-geral, que não segue, portanto, o protocolo da Assembleia-Geral (onde todos os países devem discursar). 

O espaço de fala do governo brasileiro também está reduzido do lado de fora do plenário da ONU. Em um fim de semana preenchido por eventos que debatem a situação da Amazônia —voltadas a setores brasileiros e também ao público internacional— as discussões não se dedicaram ao papel do poder público. 

Neste domingo, Salles pediu para participar de um evento convocado pelo cofundador da Natura, Guilherme Leal, para discutir compromissos que o setor privado brasileiro poderia assumir para a conservação da Amazônia. 

O ministro ficou na plateia e tomou notas durante o evento, que teve o palco dividido por representantes do agronegócio, da academia, da sociedade civil, e de empresas do Sistema B, rede internacional de negócios com compromisso socioambiental. 

Convidado a falar ao final do evento, o ministro subiu à beirada do palco e se limitou a fazer referência às falas dos participantes, sem anunciar compromissos do ministério. 

Sob o título “Amazônia possível”, Guilherme Leal busca reunir o setor privado em torno de compromissos que possam ser apresentados na COP-25 do Clima, que acontece no Chile em dezembro. O momento foi escolhido, segundo ele, por chamar a atenção da comunidade internacional para o compromisso brasileiro com a Amazônia. 

A jornalista viajou a convite da Anistia Internacional e do Instituto Clima e Sociedade (ICS)

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