Descrição de chapéu desmatamento

Puxadas por desmate, emissões do Brasil crescem 10% no primeiro ano sob Bolsonaro

Tendência de emissões de gases-estufa aponta que país não deve cumprir suas metas de redução

São Paulo

No primeiro ano do governo Jair Bolsonaro (sem partido), as emissões de gases estufa do Brasil aumentaram 9,6%. O principal motor do aumento foi o desmatamento, que cresce acentuadamente e sem sinal de interrupção sob o atual governo.

Ao todo, em 2019, o Brasil emitiu 2,17 bilhões de tCO2e (leia toneladas de CO2 equivalente, com o "equivalente" sendo uma forma de converter a medida de outros tipos de gases-estufa para facilitar a leitura do dado).

Os dados fazem parte da mais recente estimativa do Seeg (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa), uma iniciativa do Observatório do Clima, rede com mais de 50 ONGs.

A metodologia utilizada no Seeg para mensuração de emissões segue diretrizes do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) e foi publicada, em 2018, na revista Scientific Data, do grupo Nature, um dos mais respeitados no mundo.

O Seeg analisa diferentes setores responsáveis pelas emissões. São eles: mudança de uso da terra (é aqui que entra a conta do desmate), agropecuária, energia, processos industriais e resíduos.

E foi exatamente na categoria uso da terra que as emissões aumentaram 23% em 2019, saltando para 968 milhões de tCO2e. Em 2018, esse categoria emitiu 788 milhões de de tCO2e.

No ano passado, a mudança de uso da terra foi responsável por 44% das emissões de gases. A agropecuária é a segunda maior geradora de emissões brasileiras, sendo responsável por 28% delas. O setor teve um leve aumento de 1,1% em emissões em relação ao ano anterior.

Com isso, o agronegócio foi responsável direta ou indiretamente por 72% das emissões brasileiras em 2019.

A terceira colocação das emissões brasileiras fica com a energia, responsável por 19% dos gases liberados. Houve um leve aumento de 1,1% no setor entre 2018 e 2019. Segundo os dados do Seeg, o crescimento das emissões corresponde a um maior gasto energético que levou ao acionamento de termelétricas a gás pelo país, além do aumento do uso de diesel para transporte de cargas.

Em seguida, com 5% das emissões nacionais, aparece o setor de processos industriais e uso de produtos, único que apresentou queda (2%) de emissões, devido à crise na indústria, principalmente considerando a desaceleração na atividade siderúrgica.

Por fim, estão os resíduos, responsável por 4% das emissões brasileiras. O setor teve leve crescimento 1,3% em suas emissões entre 2018 e 2019.

Mesmo considerando as emissões líquidas de gases do efeito estufa (ou seja, subtraindo das emissões o carbono capturado por florestas em pé, por exemplo), a situação de 2019 representa um crescimento significativo de 13% em relação ao ano anterior. A emissão líquida em 2019 ficou na casa dos 1,57 GtCO2e (leia gigatoneladas de CO2 equivalente).

O ano de 2020 marca os dez anos da regulamentação da PNMC (Política Nacional sobre Mudança do Clima) e a data na qual o Brasil deveria estar atingindo alguns compromissos assumidos.

Segundo a análise dos dados do Seeg, porém, as metas não serão atingidas e o principal responsável por isso é o aumento do desmatamento (mesmo com crescimentos de emissões em outros setores).

O país está atrelado a duas metas de redução de emissões. Uma delas relacionada à PNMC e ao ano atual e outra associada à chamada NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada) e ao Acordo de Paris, visando 2025.

Segundo a PNMC, o país deveria chegar em 2020 com emissões na casa de 2,068 bilhões de toneladas CO2e (valor referente à meta menos ambiciosa considerada). Para isso acontecer, um dos pontos centrais seria a redução de 80% do desmatamento na Amazônia legal em relação à média entre 1996 e 2005, o que daria cerca de 3.925 km² de desmatamento.

Com níveis de destruição da Amazônia acima dos 10 mil km² em 2019 e com novo crescimento do desmate em 2020 (ano que deve ficar consideravelmente acima da marca anterior), é implausível imaginar a redução de 80%.

Além disso, projeções feitas pelo Seeg para 2020, com base nos cenários dos últimos cinco anos, apontam emissões na casa 2,2 GtCO2e.

O relatório do Seeg aponta ainda que a meta da PNMC era distante da realidade. A redução proposta pela política (de 36,1% a 38,9%) foi calculada em cima de um cenário em que nada fosse feito para diminuir as emissões. Contudo, o cálculo de baseou em crescimento anual expressivo do PIB, o que ficou distante de se concretizar, e sobre um aumento do consumo de combustíveis fósseis no setor energético do Brasil (país com matriz energética majoritariamente mais limpa, baseada em hidrelétricas).

Dessa forma, o cenário usado como parâmetro em que nada teria sido feito para cortar emissões acabou “artificialmente inflado”, afirma a relatório. “As premissas da PNMC eram irreais e, mesmo assim, o Brasil foi na contramão da política, aumentando suas emissões em quase um terço desde 2010”, aponta o documento.

Quanto à NDC, o país precisa reduzir em 17% as emissões até 2025, em comparação ao dado de 2019, o que é considerado factível pelo Seeg. Alguns pontos, porém, dificultam a concretização do quadro.

Para começar, o Brasil deveria, ainda em 2020, apresentar uma nova NDC, mais ambiciosa do que a anterior, proposta em 2015. Isso ainda não foi feito. Além disso, desde 2010 o país apresenta um quadro de aumento de emissões.

Por fim, as políticas ambientais do governo Bolsonaro apontam para um caminho contrário à redução de emissões, principalmente ao se considerar a falta de planos governamentais concretos contra o desmatamento.

A administração Bolsonaro, por exemplo, extinguiu os planos de prevenção e controle do
desmatamento na Amazônia e no cerrado. Havia também paralisado o Fundo do Clima e bloqueou, sem maior explicações, o Fundo Amazônia, que beneficiava ações de preservação e combate a desmate.

O governo ainda mantém um discurso que nega os problemas relacionados a desmatamento e queimadas, além de afirmar, de tempos em tempos, planos de rever regramentos ou reduzir áreas que são protegidas, como terras indígenas e unidades de conservação.

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