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Jornalista e roteirista, é autora do livro "Almanaque da TV". Escreve para a Rede Globo.

Ante executivos mal-encarados, uso tiradas de diferentes calibres

Em reuniões de trabalho, até tênis coloridão é autodefesa

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Se alguém ali tivesse sacado uma AK-47, uma Uzi, um fuzil AR-15, a chacina seria completa. Contudo, em meio a tão ameaçadora reunião de cúpula, cercada por executivos mal-encarados e planilhas de PowerPoint, reparar no pé do capo dei capi foi o que me deu munição.

Apontado para mim, mais colorido do que permite o código tiozão da máfia dos CEOs, aquele All Star deixava claro que o oponente não iria me derrubar. Se tem pessoa capaz de se defender de um calçado cheguei, sou eu. E não estou me referindo a uma sapatada.

"Ô Bia, aquilo sobre roubar o traficante..." Assaltar o assaltante. "Isso, conta de novo pra gente." É quase um TED Talk para amigos inseguros como eu.

Sou a deslocada nas festas da firma, tenho pavor a entregas de prêmio, em geral saio para retocar o batom e nunca mais volto às mesas de happy hour. Ou seja: confronto e sociabilidade não são meu forte no trabalho. Medo de chefe, porém, nunca tive. E se atingi o nirvana laboral, a culpa é dessa filosofia que adotei para a vida.

Certa noite, sozinha pelo centro, fui atravessada por um temor comum. "E se me assaltarem agora?" Olhando para os lados, avistei uma idosa com uma sacola. Então me ocorreu que seria moleza roubá-la. O que me impedia? Nada. Um tranco rápido, um "perdeu, vovó!" e pronto, serviço feito. Tal como uma Walter White de calcinhas na "Breaking Bad" de meu deserto moral, eu não precisava ter medo do perigo. Eu era o perigo.

Ilustração de Marcelo Martinez para coluna de Bia Braune de 23 de abril de 2023 - Marcelo Martinez

Metaforicamente, passei a assaltar meus assaltantes. Ação pré-coação. Sobretudo no ambiente onde funcionária mulher corre mais risco de ser abordada por facínoras: a área em que trabalha.

Uso tiradas de calibres diferentes. Num almoço de negócios com um esnobe que dava canetadas e assassinava projetos jamais lidos, sugeri a ele, todo foodie, que experimentasse o after de um novo bar. "Sua cara." Ele foi. Era um pé-sujo com barata e ovo cor-de-rosa.

No estacionamento do elenco, já dei tchauzinho e me agachei atrás de um carro, deixando o diretor blasé perdido na retribuição vazia do aceno. Sempre que encaro poderosos, me imagino arrancando seus óculos, bagunçando seus cabelos e espirrando água que sai de uma flor, quando são uns palhaços.

A adaptação mais recente da tática, mirando um figurão temido no meio, mas que admiro, foi puxar assunto na antessala do zoom. "Quando menino, você via ‘Caverna do Dragão’?". Sorrisos se abriram, a reunião fluiu em paz. Assaltei mais um assaltante. Dessa vez, com bala de borracha.

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