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Jornalista e roteirista, é autora do livro "Almanaque da TV". Escreve para a Rede Globo.

Tinder a manivela leva a matches adoravelmente equivocados e literários

Nesse Dia dos Namorados, não despreze o valor dos matches analógicos

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Estava ali, num guardanapo dobrado ao meio: meu número. Escrito no tom de azul das canetas solitárias, que vivem largadas por aí. Na caligrafia de um amigo em comum que, naquela noite, resolveu fazer cosplay de cupido e unir duas criaturas a esmo.

Durante o delivery da flecha, lembro de tê-lo perguntado sobre o critério. "Sei lá, você e ele são altos." Aleatório, não? Pois resultou num namoro de três anos, igualzinho ao de quase todo mundo. Primeiro deu certo, depois deu errado, até que não deu mais.

Ilustração de Marcelo Martinez para coluna de Bia Braune de 11 de junho de 2023 - Marcelo Martinez

De minha parte, restou o fascínio por esse nicho da loteria dos afetos que ignora aplicativos e segue praticado pelos analógicos convictos. Gente petulante e audaciosa, que se atreve a confiar no networking romântico do acaso, sem trocar emojis de foguinho com avatares saradões anônimos.

Claro que dá para filtrar crushes por orientação sexual ou política, porém onde ticar o quadradinho da "mão bonita", da "risada engraçada" e da "pipoca perfeita"? Tem como localizar no raio de dois quilômetros alguém que cante Ronnie Von no banho? Ou que, numa gentileza espontânea, colocaria a etiqueta da sua camiseta para dentro, sabendo que você tem TOC?

Impossível buscar algo que não percebemos desejar. Talvez por isso o Tinder a manivela leve a matches adoravelmente equivocados, quando não literários.

Feito uma conhecida que foi ao cemitério e descolou um contatinho (sem ghosting, nem nada) enquanto procurava o túmulo do Nelson Rodrigues.

A vida não virtual como ela é. Ou quando resolvi juntar um vizinho e uma colega do curso de italiano, só porque estava lendo Calvino e imaginava o casal de protagonistas com a cara dos dois.

Se o date rolou? O livro era uma obra-prima, então azar o deles. Incapaz de rivalizar com os zeros e uns do algoritmo, já errei em outro matchmaking —com louvor. Afinal, ele via o mundo com olhos tristes, mas ela tinha colírio e usava óculos cor-de-rosa.

Após uma noitada louca e única, por motivos diferentes, até hoje um entra no modo sonhador quando falamos do outro. Às vezes o swipe para a esquerda será pedir licença para ir ao banheiro. Fingir que a carona chegou ou ter de levar vovó ao muay thai, que pena, deixemos para a próxima.

Numa caixa de sapato contendo nossos bilhetes, fotos e mágoas, o guardanapo lá do início me foi reencaminhado no dia do fim. Sem unfollows, sem blocks. A tinta da caneta ainda tão azul quanto dois tracinhos de WhatsApp, porque coração não fica offline nunca.

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