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Escritora e roteirista, tem 11 livros publicados. Autora de "Macha".

Descrição de chapéu

A claque

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Essas pessoas que ficam na saída do Palácio da Alvorada, lado a lado com os jornalistas, esperando por você-sabe-quem. Qual vampiros no espelho, nunca são reveladas pelas câmeras. Delas conhecemos somente vozes, risadas, aplausos e, é claro, as vaias. Essas pessoas todas, quem são? De onde vêm? Do que se alimentam? Como se reproduzem? Alô, alô, Globo Repórter, temos uma pauta aí.

Serão moradoras de Brasília e arredores? Se forem, estarão desempregadas como tantos outros milhões, o tempo miseravelmente livre para gastar no aguardo de algumas palavras cuspidas —ou só das cuspidas? É que a dicção daquele-que-não-deve-ser-nomeado não é das melhores, dá a impressão de que as palavras, atropeladas, saem também molhadas. Comovente é a disposição com que as tais pessoas riem do que não é engraçado, hahaha, cara de homossexual terrível. De repente é o desespero para conseguir um cargo de confiança no serviço público federal. Não está fácil para ninguém, nem para quem votou na criatura.

Serão turistas incautos? Catedral, a praça dos Três Poderes, a ponte, as quadras intermináveis. Olhos cheios de grandiosidades da arquitetura, embarcam no ônibus do city tour para o que imaginam ser o talk show com um imitador. Quando ele desce do carro, sempre meio descomposto, a turistada já começa a rir. Quando fala “isso daí”, leva a excursão à loucura. As câmeras e os gravadores dos jornalistas captam tudo e fica parecendo uma reunião de apoiadores. A tese é meio fantasiosa, mas ajuda a explicar: quem são essas pessoas?

Há quem diga que a assessoria daquele-cujo-nome-é-melhor-não-pronunciar sai recrutando na hora. Você com a camisa da seleção, pode vir. Tu com o livro do Olavo, te aprochega. A senhora com a camiseta de Jesus armado (pobre Jesus), tem lugar aqui na frente. Se servem um suquinho de ariticum ou um empadão de jaca, daí não sei.

Ilustração de Cynthia Bonacossa para coluna de Claudia Tajes de 6.jan.2020 - Claudia Tajes

Uma vez acomodado, o pessoal fica o tempo que for preciso, como a claque nos programas de TV, trocando receitas, orações e esperando o momento certo para rir ou vaiar. Pergunta pra tua mãe o comprovante que ela deu pro teu pai: hahaha. O senhor tem falado com o seu filho sobre o caso? Uuuuuuuuuuu.

Só um conselho. Seja qual for o motivo para uma pessoa integrar a claque, é recomendável jamais puxar aquele-que-não-se-deve-denominar pelo braço. Se o Papa, que é um santo, esquentou a mão de uma fiel a tapa, imagina o que pode acontecer à sombra do Alvorada. Abaixa que vem pipoco.

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