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Procuro alguém pra trocar figurinhas da Copa com um pai regredido

E se eu perder de um menino de seis anos no bafo? Ainda existe bafo?

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Comprei o álbum da Copa pra minha filha de quatro anos, como se ela tivesse me pedido. No início até que ela ficou empolgada. Até que começou a abrir os pacotes de figurinha e se deparar com um monte de homens uniformizados.

"Por que todas as figurinhas são iguais?" Só então percebi que seu único álbum tinha sido o da patrulha canina. Estava acostumada com imagens brilhantes de cachorros voadores salvando o mundo e não achou a menor graça em colecionar fotos três por quatro de adultos sorridentes.

"Repetida, repetida, repetida", ela diz, abrindo os pacotes. "Não, filha, esse homem é diferente desse, que é diferente desse." "Não são, não. Os três têm barba e camisa verde." "Sim, são todos da Arábia Saudita, mas são pessoas diferentes."

Ilustração de Catarina Bessell para a coluna de Gregorio Duvivier - Catarina Bessell

Só consigo ver o entusiasmo no seu rosto quando encontra uma figurinha brilhante, mesmo que repetida. Então ela não me deixa colar no álbum, pra que o escudo cintilante não se misture ao rol de uniformizados. Ainda não consegui colar nenhuma brilhante no álbum, mas seu quarto está coberto de figurinhas purpurinadas por todo lado. Quando abri um pacote e encontrei o Neymar, achei que ela fosse ficar empolgada, por saber quem ele é. "Eca", disse. "O que foi?" "Ele é bolsonarista." Lembrei que ela escuta tudo o que a gente fala.

Desisti de compartilhar o álbum. Mas segui tentando completá-lo, dessa vez sozinho. Por um mês inteiro fui à banca de jornal e fingi que continuava comprando figurinhas por causa da prole. "Seu Chico, vê dez pacotes aí pra garota."

Cheguei àquele estágio em que já não faz mais sentido comprar figurinhas, só vem repetida. Tenho uma pilha grande de repetidas que precisava trocar, mas meus amigos que têm filhos todos já completaram o álbum há um século. No clube do Fluminense tem um polo de troca de figurinhas, mas nunca vi um adulto por lá. Tenho vergonha de me sentar no chão com meninos de seis anos e negociar cromos como um adulto regredido. E se algum deles me desafiar pro bafo? E se eu perder de um menino de seis anos no bafo? Ainda existe bafo?

Na mesa da sala tem uma pilha gigante de adesivos de campanha política. Ao longo dos últimos meses fui acumulando material de campanha que entregavam na rua. Não conseguia dar uma volta sem voltar munido de centenas de santinhos autocolantes. Descobri que os candidatos cabem direitinho no lugar do cromo. Não tem nenhum cachorro voador, mas pelo menos não tem nenhum bolsonarista.

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