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Descrição de chapéu É Coisa Fina

Autora punk acreditava que apropriação era busca de identidade

Revolução, liberdade e antiautoritarismo são temas bem-vindos e urgentes para o Brasil

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Tem uma coisa que eu nunca gostei, bicho. E essa coisa é você estar puto da vida e alguém te mandar deixar a postura ereta, o coração tranquilo e a mente... a minha se nega a lembrar até a frase inteira e correta.

Foi quando eu descobri livros e músicas que consideravam a ira e o pessimismo super bacaninhas. Apesar do movimento punk ter acontecido na década de 70, foi só bem mais tarde, já adulta, que eu me tornei admiradora. Não que eu vá usar aquelas roupas e cabelos, por Deus, mas alguns livros e letras de músicas são tão depressivos e raivosos que fazem por mim mais do que sentimentos de gratidão.

E por que vamos falar de punk, mais precisamente de uma autora punk?

Porque revolução, liberdade e antiautoritarismo são temas bem-vindos e urgentes para o Brasil.

Foi em 1973 que a americana Kathy Acker lançou seu primeiro romance "Tarântula Negra por Tarântula Negra". E esta é a primeira vez que a reconhecida percursora dos movimentos queer e punk feminista é traduzida no Brasil, pela Crocodilo edições.

Este livro não é para quem busca, no quentinho da cama, ser guiado pela clareza de uma protagonista. A narrativa de Kathy Acker é tão livre e sexual quanto temerosa e neurótica. Ela tem tanto medo da sua mente suja quanto está eufórica para mergulhar o mais fundo que puder nela (e te levar junto).

Ainda que o texto seja tão original e autoral, Kathy Acker cria um alterego adolescente que muda toda hora de personalidade e gênero e mistura recortes "revisitados" de outros escritores, como Marquês de Sade, William Butler Yeats e Alexander Trocchi com seus próprios pensamentos:

"Nada pode parar minha escrita finalmente estou sozinha uso minha escrita para me livrar de todos os sentimentos de identidade que não sejam a minha sexualidade só preciso existir quanto alguém tenta me tocar ou quando me toco" (é assim mesmo, sem vírgulas).

Apesar do texto fluído e sedutor, você precisa estar aberto para abraçar a dinâmica caótica de suas colagens. Um estilo que provavelmente nasceu sob influência do escritor, pintor e exotérico William S. Burroughs, que talvez você lembre apenas como "amigo do Kerouac", mas foi quem popularizou o "cut-up", método no qual vários textos são sobrepostos para formar um outro texto.

A socióloga Flá Lucchesi, especialista em movimento queer (para quem não lembra: o termo nasce de forma pejorativa, tentando classificar as pessoas LGBTs como "estranhas, esquisitas, peculiares", mas seus ativistas reconquistam a palavra, que vira símbolo de poder e provocação), dá um show no prefácio do livro, nos ensinando sobre as Riot grrrl, movimento que combinava feminismo com punk e política.

Ela conta como artistas como Kathy Acker tiveram que enfrentar feministas de outros grupos, insinuando "que ela corroborava com a submissão feminina" e, por ser tão pornográfica, era um desserviço e contribuía para a objetificação das mulheres.

No Instagram da Crocodilo, que passei a seguir assim que me deparei com esse livro supermaluco e delicioso, leio assim: "um selo editorial avesso às narrativas oficiais".

Eu gostei muito e ficarei bem atenta aos próximos lançamentos tanto de Kathy Acker quanto da editora.

A vida infantil da Tarântula Negra por Tarântula Negra

Avaliação:
  • Preço: R$ 59,90 (112 págs.)
  • Autor: Kathy Acker
  • Editora: Crocodilo
  • Tradução: Livia L.O.S Drummond

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