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Como a Evergrande criou a montadora mais valiosa da China sem vender um único carro

Valor de mercado da Evergrande Auto chegou a R$ 462 bilhões

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Caixin

O Evergrande Group da China, incorporadora hoje à beira da falência, fez muitos esforços ao longo dos anos para ramificar seus negócios além dos imóveis, mas o mais impressionante é como ela conseguiu manipular os mercados de capital com as histórias que criou.

Uma dessas histórias é a Evergrande como fabricante de carros de novas energias. O valor de mercado do China Evergrande New Energy Vehicle Group (Evergrande Auto), que ainda não vendeu um único carro, chegou a 674,1 bilhões de dólares de Hong Kong (US$ 86,6 bilhões, cerca de R$ 462 bilhões), tornando-a não apenas a mais valiosa empresa listada em Bolsa na China, como também duas vezes mais valiosa que sua matriz, a Evergrande —apesar de a Evergrande ter vendido trilhões de iuanes em imóveis residenciais nos últimos 20 anos.

Mas os tempos mudaram. A Evergrande Auto está avaliada hoje em 30 bilhões de dólares de Hong Kong (HK$), cerca de 4% de seu pico. Na terça-feira (21), a companhia concedeu 323,72 milhões de opções de ações no valor de HK$ 1,26 bilhão (R$ 870 milhões) para três diretores e cerca de 3.180 funcionários da companhia, segundo um documento enviado à Bolsa de Valores de Hong Kong.

As pessoas que mais lucraram com as histórias da Evergrande são seu fundador, Hui Ka Yan, e seus amigos. Por exemplo, uma pessoa do círculo de Hui comprou 80 milhões de ações do Evergrande Health Industry Group —antecessor da Evergrande Auto antes que ela fosse rebatizada para servir a seu novo propósito— por HK$ 0,3 cada, antes de vendê-las todas por HK$ 50 a ação, segundo a agência de notícias Caixin. O negócio rendeu para o investidor mais de HK$ 4 bilhões.

Encorajado por esse sucesso disparado, o amigo de Hui também participou de colocação privada da Evergrande Auto, mas descobriu que sua sorte tinha mudado, segundo a Caixin. Ele continuou comprando ações enquanto o preço caía, mas acabou sendo forçado a vendê-las com prejuízo.

O objetivo principal da Evergrande Auto era levantar capital para o grupo Evergrande. A matriz alegou que tinha investido 47,4 bilhões de iuanes (R$ 39,34 bilhões) em seu negócio de automóveis, mas alguns analistas acreditam que o grosso desse investimento veio do mercado, e não da própria Evergrande.

"A Evergrande Auto tinha levantado 30 bilhões de iuanes em duas rodadas. O que significa que a companhia usou principalmente dinheiro de investidores —em vez de seu próprio capital— para investir, e conseguiu ganhar um alto valor de mercado (para a companhia de carros). Consequentemente, com suas ações (da companhia de carros) a um preço elevado, ela poderia usá-las como garantia para levantar ainda mais dinheiro", disse um analista.

Conforme a história da Evergrande Auto se desdobrou, a trama focou em fusões e aquisições, não na fabricação de carros. Em setembro de 2018, a Evergrande comprou uma grande participação no Xinjiang Guanghui Industry Investment Group por 14,5 bilhões de iuanes (R$ 12 bilhões), tornando-se a segunda maior acionista da empresa. Esse negócio trouxe as vendas de carros para o noticiário porque o Guanghui Industry Investment é um acionista do China Grand Automotive Services Group, uma das maiores revendedoras de automóveis do país. Essa narrativa nunca chegou a lugar nenhum, entretanto. Em 2019, a Evergrande, sem caixa, vendeu sua participação no Guanghui Industry Investment para a gigante de energia estatal Shenergy Group por 14,85 bilhões de iuanes (R$ 12,267).

Em janeiro de 2019, a antecessora da Evergrande Auto, Evergrande Health, do setor de saúde, adquiriu 51% da National Electric Vehicle Sweden (Nevs) por US$ 930 milhões (R$ 4,969 bilhões). Hui, cujo nome em Mandarim é Xu Jiayin, fechou o negócio rapidamente, talvez porque precisasse reforçar as credenciais de montadora da Evergrande depois que sua decisão de colaborar com o empresário cercado de polêmicas Jia Yueting no projeto de carro elétrico Faraday Future (FF) deu errado. Sem o FF, Xu precisava de algo para dar alguma substância à identidade da Evergrande como fabricante de carros, e a Nevs era bem apropriada. Deu certo. Depois que comprou uma parte da Nevs, o preço da Evergrande Health disparou.

O aumento dessas ações se deve em parte ao fato de elas estarem concentradas nas mãos de relativamente poucos acionistas. Em 9 de agosto de 2020, a companhia recebeu uma advertência da Comissão de Securities e Futuros de Hong Kong sobre alta concentração em sua propriedade. A conclusão da comissão sugeria que em 5 de agosto de 2020 um grupo de 18 acionistas detinha 19,83% das ações emitidas pela companhia. Junto com as 74,99% de ações emitidas em posse da companhia, essa participação representava 94,82% do total de ações da empresa. Só 5,18% das ações emitidas pela Evergrande estavam em posse de outros acionistas da companhia.

O acordo para assumir uma participação majoritária no Fangchebao Group oferece mais evidências das técnicas financeiras da Evergrande. Ela adquiriu uma participação de 51% nas mais de 40 mil lojas físicas da Fangchebao por meio de uma troca de ações. Dessa maneira, a Evergrande não teve de pagar dinheiro pelo negócio, para o qual atraiu a Fangchebao prometendo uma oportunidade de abrir o capital. Em consequência, a Evergrande adquiriu ativos valiosos com um investimento aproximado de 1 bilhão de iuanes (R$ 826,1 milhões) para cobrir a reforma das lojas e custos de integração do sistema. No final de 2020, os ativos totais e líquidos da Fangchebao chegavam a 4,7 bilhões e 3,1 bilhões de iuanes, respectivamente (R$ 3,9 bilhões e R$ 2,57 bilhões).

Em 29 de março de 2021, a Fangchebao trouxe 17 investidores estratégicos e levantou um total de HK$ 16,35 bilhões (R$ 11,28 bilhões). Esses investidores teriam uma participação de 10% na companhia ao concluir o negócio, elevando a avaliação pré-financiamento da Fangchebao para HK$ 163,5 bilhões. Esse negócio teria uma parte dos fundos levantada por meio da venda de ações existentes, com o restante levantado pela emissão de novas ações. A Fangchebao emitiu 651 milhões de novas ações para investidores, enquanto a Evergrande pretendia vender 651 milhões de ações existentes aos investidores.

Dessa maneira, a Evergrande conseguiu aumentar o valor de mercado da Fangchebao para HK$ 163,5 bilhões (R$ 112,21 bilhões) em um ano e embolsar HK$ 8,175 bilhões (R$ 5,610 bilhões) com a venda de suas ações da companhia.

Uma pergunta agora é como a Evergrande conseguiu fazer os investidores entrarem no negócio da Fangchebao?

Um investidor institucional que participou do negócio disse que o segredo foi a promessa de recompra pela Evergrande. "O que nós valorizamos foi seu mecanismo de ajuste da avaliação", disse o investidor. "Se a Fangchebao não abrisse o capital em um ano, a Evergrande compraria de volta nossas ações com um prêmio de 15% em relação ao preço de mercado predominante. Pelo menos, através desse mecanismo, nós poderíamos recuperar nosso dinheiro."

O investidor também indicou que outra companhia sob o guarda-chuva da Evergrande, a Evergrande Property Services Group, conseguiu entrar na Bolsa muito rapidamente, o que deu aos investidores confiança de que tinham uma saída potencial do negócio que não era muito distante.

Alguns outros investidores também acreditavam que a Evergrande poderia forçar a avaliação da Fangchebao, mas queriam que a companhia continuasse privada. "A Fangchebao, que vendia carros e casas, era apenas uma história. Mas nós acreditamos que a Evergrande não entraria em grandes problemas em um ano (e conseguiria restituir o dinheiro). Foi por isso que investimos. No entanto, a Fangchebao era uma empresa de qualidade relativamente baixa, muito pior que a Evergrande Property Services. No caso da Fangchebao, era melhor não abrir o capital. Seria mais problemático depois da abertura, porque seu mau desempenho seria de conhecimento público", disse um investidor.

Muitas instituições compraram ações da Fangchebao porque acreditaram que a Evergrande era "grande demais para falir" —pelo menos não por mais um ano.

"No ano passado, quando a Evergrande transformou um investimento estratégico em ações ordinárias, o preço de seus títulos despencaram", disse um investidor institucional. "Naquela época, especulamos que ela não iria à falência, por isso compramos mais e acabamos ganhando muito dinheiro. Em comparação, um tempo atrás, os preços dos títulos da China Fortune Land Development (outra grande empresa imobiliária) também caíram de forma significativa, mas nós não compramos nada porque sentimos que Ping An (um grande acionista da China Fortune Land) não viria socorrer."

A história da Evergrande é sobre crescer com as tendências, ou é na verdade sobre pegar dinheiro para sustentar sua unidade imobiliária cheia de dívidas, o Evergrande Real Estate Group?

"Essencialmente, a Evergrande reduziu a proporção de dívida em seu balanço em duas áreas: sua filial de automóveis e a Fangchebao. Com a alta valorização desses ativos, ela conseguiu levantar uma grande quantia", explicou um veterano do setor. "A intenção final da Evergrande era conseguir mais terrenos sob o disfarce de fabricar carros, e então usar a terra para ganhar dinheiro."

Parafraseando Warren Buffet: só quando a maré baixa você descobre quem estava nadando nu. Com o declínio dos preços da habitação e a implementação da política de três linhas vermelhas —que estipula um teto de 70% para a proporção dívidas-ativos de uma empreiteira, um teto de 100% para sua proporção de dívida líquida-ações e dinheiro para cobrir empréstimos de curto prazo—, as "técnicas financeiras" surpreendentes não são mais a panaceia para os crescentes custos operacionais da Evergrande. A antiga gigante imobiliária da China está afogada em dívidas.

Os ativos pessoais de Xu também vêm mudando silenciosamente. Há pouco tempo, a mansão num morro onde ele mora em Hong Kong foi transferida para novo proprietário.

A Evergrande parecia ser generosa com seus investidores. De 2011 a 2020, pagou dividendos todos os anos. A quantia total desembolsada supera 114,2 bilhões de iuanes (R$ 94,79 bilhões), com a proporção de pagamento de dividendos mantida em 50%, muito mais alta que a de outras gigantes imobiliárias chinesas.

Mas para quem eram pagos esses dividendos generosos? Em junho de 2021, Hui, sua mulher, Ding Yumei e parentes detinham 76,7% dos 13,248 bilhões de ações negociadas publicamente da Evergrande. Em outras palavras, 53 bilhões de iuanes dos 69 bilhões que a Evergrande pagou em dividendos desde que abriu o capital acabaram nos bolsos de Hui e sua família.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

Wang Jing , Chen Bo , Yu Ning , Zhu Liangtao , Wang Juanjuan e Zhou Wenmin

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