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Eleições EUA 2020

Decisões de Trump na economia não influenciaram de modo visível melhorias de renda

Crescimento foi ligeiro, embora tenha revertido tendência de aumento forte da desigualdade do segundo mandato de Obama

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São Paulo

Nos anos de Donald Trump, até a pandemia, o rendimento dos trabalhadores menos ricos aumentou mais do que no segundo mandato de Barack Obama (2013-2016); cresceu mais do que a renda de quem está no topo da pirâmide. São dados da Pesquisa das Finanças do Consumidor do Banco Central dos Estados Unidos, o Fed, publicada no mês passado. O patrimônio dos menos ricos também cresceu mais.

Quanto ao PIB, o crescimento de 2016 a 2019, sob Trump, foi de 7,7%, ligeiramente maior do que nos anos finais de Obama, de 7,5% (entre 2013 e 2016). Em relação à União Europeia, os EUA cresceram mais nos dois períodos, diferença também diminuta: 1,3 vez mais com Obama, 1,4 vez com o republicano.

O presidente dos EUA, Donald Trump, durante comício em Omaha, no estado de Nebraska - Brendan Smialowski - 27.out.20/AFP

O PIB americano pode ter sido ligeiramente acelerado pelo aumento do gasto público nos anos Trump. O déficit primário no ano final de Obama fora de 2,4% do PIB (déficit primário: despesas maiores do que receitas, afora gastos com juros). Sob Trump, cresceu progressivamente até os 4,1% de 2019. Excluem-se os dados de PIB e déficit de 2020, pois o ano não terminou e é historicamente excepcional.

O autoelogio hiperbólico de Trump não tem respaldo nos fatos do emprego, embora o ritmo de criação de postos de trabalho durante seu governo tenha sido muito bom e, provavelmente, difícil de acelerar, pois a economia já crescia havia oito anos quando ele assumiu. De 2016 até 2019, o número de pessoas empregadas cresceu 4%. Nos anos equivalentes de Obama, 4,9%.

A taxa de desemprego chegou a 3,5% (2019), a menor em 50 anos. A escassez relativa de mão de obra levou empregadores a elevar salários e benefícios para manter empregados treinados e a contratar pessoas menos qualificadas ou mais discriminadas (negros, mulheres pobres e mesmo ex-presidiários).

No entanto, a melhoria foi ligeira, embora tenha revertido a tendência de aumento forte da desigualdade vista no segundo mandato de Obama. De resto, quanto à renda média, trabalhadores no quinto mais pobre da população tiveram ganhos menores, assim como aqueles que não completaram o ensino médio.

Mas as perdas relativas maiores ocorreram entre os 10% mais ricos, entre os brancos não hispânicos e os que fizeram faculdade. Na renda mediana, houve ganhos para quase todo mundo.

O aumento do preço dos imóveis e das ações contribuiu para elevar o valor do patrimônio dos menos ricos. Cerca de 65% dos americanos são proprietários de imóveis; o outro ativo relevante de sua riqueza é ação de empresa (o peso desses ativos no patrimônio dos 10% mais ricos é relativamente menor).

A pesquisa do Fed é trienal, com dados entre 2013 e 2016 (para Obama) e de 2016 a 2019. Dados do mercado de trabalho para 2019 indicam que continuava a tendência registrada pelo levantamento.

As políticas de Trump, de modo intencional ou impremeditado, acabaram por promover essa ligeira redução na desigualdade? Provavelmente não. Governos têm poder limitado de acelerar o crescimento econômico no curto prazo e de promover mudanças estáveis e relevantes nas medidas de igualdade —são mais capazes de causar destruição.

No mais, as principais decisões de Trump na economia não influenciaram de modo visível as melhorias de renda, fracassaram em seus objetivos ou pioraram a situação das contas públicas. Trata-se aqui da redução de impostos para empresas, de alguma desregulamentação, do abandono e a revisão de tratados comerciais, do protecionismo e do aumento de taxas de importação, em especial de produtos chineses.

A redução de impostos não esteve associada a um aumento da taxa de investimento (em instalações produtivas, equipamentos, programas de computador) além do registrado no início do governo. Em 2019, havia sinais de que a despesa de capital das empresas diminuía.

O protecionismo e a guerra comercial tiveram efeito contrário ao desejado. O déficit comercial americano (diferença entre exportações e importações de bens) aumentou ainda mais, para os maiores valores em um quarto de século, pelo menos. O nível de abertura comercial dos EUA ficou estagnado. Na União Europeia e na média dos países da OCDE, o comércio aumentou em relação ao PIB.

Em si mesmo, o fato de o país ter déficit ou superávit comercial não é em si sinal de piora ou melhora econômica. Mas Trump não conseguiu nem diminuir o déficit comercial, e as medidas protecionistas não contribuíram para a melhoria das condições de vida em regiões decadentes devido à desindustrialização.

A participação dos empregos industriais no total de empregos subiu um pouco até 2018 (o que não poderia ter sido efeito de políticas de Trump) e cai desde então. Vários desses indicadores estão em um artigo de Paul Krugman (“Why Did Trump’s Trade War Fail? Notes toward a proper paper”), de outubro.

É razoável especular que seria muito difícil que o protecionismo pudesse atenuar de modo relevante o declínio industrial. Dados sobre a economia regional dos Estados Unidos indicam que o crescimento é mais acelerado nos estados da Costa Oeste (polos tecnológicos), no Texas, na Flórida e em pequenos estados do Centro-Oeste e do Sul com mão de obra mais barata.

É mais razoável acreditar que, no curto prazo, um governo possa prejudicar o crescimento do que acelerá-lo. Embora a guerra comercial de Trump começasse a causar algum dano, antes da epidemia (incerteza, desaceleração de investimento etc.), o PIB americano resistiu até chegar a calamidade da Covid.​

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