Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Cientistas comparam desastre em Brumadinho a tragédia na Roma Antiga

Pesquisadores relembram de vítimas de erupção vulcânica em Pompeia, mas dizem que, em MG, violência do impacto e acidez dos rejeitos podem dificultar preservação dos corpos

Reinaldo José Lopes
São Carlos

A velocidade com que os rejeitos de mineração soterraram mais de 200 hectares da zona rural de Brumadinho (MG), bem como a profundidade de vários metros da camada de lama em certos pontos, faz com que a tragédia brasileira se assemelhe, em certos aspectos, à erupção vulcânica que devastou a cidade romana de Pompeia no ano 79 d.C.

É o que dizem especialistas ouvidos pela Folha, que apontam que as características do desastre podem tanto facilitar quanto dificultar a preservação dos corpos e dos pertences das vítimas que ainda não foram encontrados — por enquanto, calcula-se que ainda há mais de 200 pessoas desaparecidas.

“Para mim é até difícil falar sobre isso. Fico muito sensibilizado porque conheço Pompeia e vi de perto como foi terrível”, diz o geólogo e paleontólogo Tito Aureliano Neto, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Em vez do fluxo de detritos vulcânicos, que enterrou a antiga cidade em camadas de vários metros no curso de poucas horas, ocorreu um processo similar com os rejeitos da barragem da mineradora Vale.

“O tipo de desastre é diferente, mas pegou as pessoas da mesma forma, totalmente desprevenidas. Todos seguiam suas vidas e foram capturados no tempo”, acrescenta a paleontóloga Aline Ghilardi, da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos). 

De fato, a rapidez com que Pompeia e cidades vizinhas foram engolidas pelos detritos do vulcão Vesúvio fez com que quase todo o cotidiano do local fosse preservado. As cinzas vulcânicas preservaram até impressões dos corpos de pessoas e animais, como se fossem negativos de um filme fotográfico.  

No entanto, apesar do soterramento quase imediato em Brumadinho, é preciso considerar a violência do fluxo da lama, além da acidez dos rejeitos e os componentes tóxicos presentes neles. Tudo isso pode operar no sentido oposto, dificultando a preservação de corpos e objetos engolfados pelo desastre.

“É possível ter uma ideia da violência observando os danos nas edificações e automóveis”, explica a antropóloga forense Mariana Inglez dos Reis, doutoranda do Instituto de Biociências da USP. De certa maneira, o processo também poderia ser comparado aos efeitos de um tsunami, de acordo com ela.

“Receber o impacto direto da lama com destroços já poderia levar à morte imediata e a destruição de parte dos corpos. Nesse sentido, outro fator a ser considerado é o local em que a vítima estava quando foi atingida. As que estavam em locais fechados podem ter tido seus corpos mais preservados”, afirma Reis. 

Objetos feitos com materiais mais duradouros, como plástico rígido, metal e madeira, podem ser fragmentados, mas tendem a resistir por bastante tempo mesmo nessas condições.  

No caso das vítimas que acabaram sendo surpreendidas pelo rompimento da barragem em lugares abertos, a força da enxurrada tende a provocar fraturas características. “Elas acabam sendo carregadas pela enxurrada e são depositadas onde a ‘correnteza’ ficou mais fraca”, diz a arqueóloga Gabriela Mingatos, que faz doutorado no Museu Nacional da UFRJ.

Outra variável é a profundidade e a quantidade de oxigênio presentes no entorno das vítimas. A lama normalmente é pouco oxigenada, e isso se intensifica em camadas mais profundas. A falta de oxigênio costuma favorecer a preservação da matéria orgânica e de pertences mais frágeis, como o tecido das roupas, que podem ajudar equipes de resgate e familiares a identificar as pessoas vitimadas pelo desastre.

Entretanto, ainda não existem estudos suficientes para estimar, com razoável grau de certeza, quais seriam os efeitos da composição química da lama de rejeitos (que inclui minério de ferro, amônia, sílica e metais pesados) sobre o corpo das vítimas.

“É um contexto muito específico e pouco conhecido, mas a acidez esperada para essa composição não contribui para a preservação”, diz Reis. Há também a questão dos minerais presentes no solo, e de como cada componente vai reagir entre si. “Já estudei um sítio histórico de São Paulo, do século 19, em que havia ossos de animais com barras de ferro incrustadas neles, e isso só influenciou a coloração dos ossos, sem afetar sua integridade”, conta Mingatos.

Outro ponto a se considerar é a presença ou ausência de umidade —em sedimentos úmidos, a parte não mineral dos ossos se perde, enquanto a parte mineral tende a endurecer e resistir por mais tempo.

Seja como for, a tendência é que, quando encobertos pelos detritos, ossos e dentes das vítimas sejam preservados durante meses e anos, ou até mais tempo. Isso permitiria a aplicação de uma das técnicas mais importantes da antropologia forense em desastres como o de Brumadinho, na qual se compara a dentição das vítimas com os registros odontológicos de pessoas desaparecidas — em geral, com bom grau de sucesso.

Com a tecnologia atual, amostras pequenas de matéria orgânica —retiradas do interior de dentes ou de ossos, por exemplo — já seriam suficientes para análises de DNA capazes de identificar os mortos.

Mesmo se for necessário remover a lama sem o nível de cuidado comum numa escavação arqueológica, o que danificaria ainda mais os corpos, tais análises genéticas ajudariam as famílias a não continuar na dúvida a respeito do destino de seus entes queridos.


Como o rompimento da barragem pode levar à morte

Traumas pelo impacto da lama
O impacto direto da lama com destroços já pode levar à morte imediata e a destruição de partes do corpo. Pode haver lesões de órgãos internos por fraturas ou lesões vasculares que causam sangramento e resultam na morte. Traumas múltiplos podem ser causados também pelo desabamento de edificações 

Asfixia traumática
Pela pressão externa da lama no tórax, a pessoa não consegue respirar. Ou seja, a morte não necessariamente é causada pela ingestão de lama

Perda de consciência
Nos dois casos é comum a perda relativamente rápida da consciência, em cerca de um minuto. No caso da asfixia, há mais chances de resgate com vida

Fontes: Edino Parolo, médico intensivista, coordenador do curso de manejo de desastres da Associação de Medicina Intensiva Brasileira, e Christian Morinaga, coordenador do pronto atendimento do Hospital Sírio-Libanês

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