Descrição de chapéu The New York Times

Fósseis revelam marcas do dia em que meteorito pode ter matado dinossauros

Plantas e bichos fossilizados oferecem um vislumbre vívido do apocalipse 66 milhões de anos atrás

A tangled mass of articulated fish fossils uncovered in North Dakota. The site appears to date to the day 66 million years ago when a meteor hit Earth, killing nearly all life on the planet

Mistura de fósseis de peixes descobertos nos EUA e que datam de 66 milhões de anos atrás Robert DePalma/University of Kansas

William J. Broad e Kenneth Chang
Nova York | The New York Times

Há 66 milhões de anos, um meteorito gigantesco se chocou com a Terra, ao largo da costa do que hoje é o México. Tempestades de fogo incineraram a paisagem por muitos quilômetros, em torno da área de impacto. Até mesmo criaturas que viviam a milhares de quilômetros de distância foram condenadas naquele dia fatídico, se não por fogo e enxofre, então por megaterremotos e ondas de tamanho inimaginável.

Agora, cientistas localizaram uma coleção notável de fósseis que parecem datados do exato dia do impacto. O local em que estão enterrados consiste de mais de 1,20 metro de sedimentos e restos orgânicos, despejados de modo quase instantâneo no estado americano de Dakota do Norte e transformados em pedras, ao longo das eras geológicas. E o sítio captura de modo evidente, e em detalhes sem paralelo, as repercussões do impacto da gigantesca rocha que abriu caminho para a evolução dos mamíferos, entre os quais os primatas conhecidos como seres humanos.

Em um artigo publicado na revista acadêmica Proceedings of the National Academy of Sciences, uma equipe internacional de 12 cientistas descreve uma escavação perto de Bowman, Dakota do Norte, que encapsula a extinção repentina de um lago do passado remoto e seus habitantes.

Quando o meteorito se chocou com águas próximas ao que hoje é a península do Yucatán, no México, deixou uma cratera gigantesca chamada Chicxulub e causou distúrbios a milhares de quilômetros de distância, inclusive naquilo que hoje é o Dakota do Norte. Horas, ou talvez apenas minutos, depois dessa colisão, criaturas marinhas foram varridas para a terra por tsunamis e terremotos e terminaram empilhadas e depositadas em companhia de uma amostra diversa de vida terrestre, que incluía árvores, flores e espécies desaparecidas de peixes de água doce.

Esse mix de espécimes terminou soterrada rapidamente e por isso foi preservada em detalhe. Permeando o depósito, há pequenas esferas de argila e vidro, conhecidas como tectitos, que se formaram da rocha derretida, ejetada pelo impacto e caíram do céu em forma de chuva.

No estudo, os pesquisadores argumentam que o leito fóssil captura as ramificações imediatas do impacto em Chicxulub sobre a vida na Terra. O achado parece representar o melhor retrato daquele dia, e leva adiante a compreensão científica quanto "à natureza e extensão plena das perturbações que ocorreram", escrevem os autores.

O pesquisador chefe, Robert DePalma, 37, é curador de paleontologia no Museu de História Natural de Palm Beach, Flórida, e estudante de pós-graduação na Universidade do Kansas. Ele teve acesso ao rico leito fóssil com autorização de um pecuarista local, em 2012, e o escavou secretamente por anos. 

DePalma gradualmente começou a compartilhar suas descobertas com cientistas importantes, alguns dos quais se tornaram seus coautores no estudo. Entre eles estão Walter Alvarez, geólogo da Universidade da Califórnia em Berkeley que décadas atrás se tornou um dos pioneiros da ideia de que a extinção dos dinossauros era resultado de um impacto cósmico.

As rochas contêm uma mistura de árvores, galhos, peixes e outros animais fossilizados. "Só um cego não teria percebido a presença das carcaças", disse DePalma em entrevista. "É impossível não detectá-las, quando você vê o afloramento".

O estudo descreve como os tectitos, chovendo sobre a água, entupiram as guelras dos peixes, que em seguida foram mortos por ondas violentas. A água pode ter viajado do Golfo do México por um mar interno que cortava a América do Norte na época. Mas os pesquisadores defendem outra explicação, mais provável: as ondas cataclísmicas do impacto — que produziram o equivalente a um terremoto de magnitude 10 ou 11 — fizeram com que a água de lagos e mares distantes se arremessasse pelos rios e canais a eles conectados.

"Basicamente, a água foi agitada como se estivesse em uma máquina de lavar", disse Phillip Manning, paleontologista da Universidade de Manchester, na Inglaterra, e um dos autores do estudo. "Quando uma onda de choque como essa se dissipa, ela derruba aquilo que carregava instantaneamente no corpo aquático abaixo".  

O conteúdo, ele disse, formou o depósito que DePalma, ele e os demais colegas descrevem em seu estudo.

DePalma disse que inicialmente ficou decepcionado com sua descoberta. Esperava que o sítio revelasse mudanças sazonais rítmicas ao longo de um período de anos. Em lugar disso, o material havia sido depositado em uma só grande onda. "Minha ideia de depósitos sedimentares formados ao longo de anos teve de ser abandonada", ele disse.

No depósito, a equipe descobriu um antigo lago de água doce cujos ocupantes haviam sido rapidamente sedimentados, em massa, por ondas de sedimentos e destroços. Os fósseis incluíam esturjões e poliodontídeos de cerca de dois metros de comprimento, com as escamas intactas mas os corpos dilacerados e esmagados, moluscos marinhos, folhas e ramos de árvores e troncos queimados. As carcaças de peixes não estavam inchadas, decompostas ou semidevoradas, o que sugere que foram enterradas rapidamente— e que poucos animais restaram vivos, depois do cataclismo, para escavar o local em busca de comida.

O depósito fóssil também está repleto de tectitos, pequenas contas de vidro que são indicadoras de impactos em escala planetária. Cinquenta por cento dos peixes encontrados tinham tectitos nas guelras, como se tivessem inalado o material. Também foram recuperados tectitos envoltos em âmbar. Sua composição química não se alterou em 66 milhões de anos, e é estreitamente comparável à assinatura química única de outros tectitos associados ao impacto em Chicxulub.

A camada superior do leito fóssil tem presença forte de irídio, um metal raro que Alvarez identificou originalmente em outros sítios como originário do objeto gigantesco que colidiu com a Terra. O irídio, um material precioso pertencente ao grupo de elementos que inclui a platina, é mais abundante em meteoritos do que em rochas terrestres.

"Bastaria a ideia de peixes com as guelras obstruídas por partículas do impacto, 66 milhões de anos atrás, e de árvores com âmbar e partículas de impacto. É algo tão extraordinário que você certamente se surpreende", disse Matthew Lamanna, paleontologista cuja especialidade são os vertebrados e que trabalha no Museu Carnegie de História Natural em Pittsburgh. Ele não participou da pesquisa e diz que "com a ressalva de que aquilo que eles estão tentando provar é muito, muito difícil de provar, creio que fizeram um excelente trabalho ao apresentar seu caso".

O impacto em Chicxulub e o desastre mundial que ele causou são descritos por alguns como a causa da extinção dos dinossauros. Mas muitos cientistas argumentam que diversos outros fatores, entre os quais erupções vulcânicas e perturbações climáticas, contribuíram para o fim dos répteis gigantescos.

Um artigo publicado na revista New Yorker descreve informações sobre o sítio da descoberta que vão bem além do que o relatório científico expõe. O artigo afirma que DePalma identificou também diversos fósseis de dinossauros no depósito, o que implica que o sítio do Dakota do Norte pode ser o primeiro no planeta a associar claramente o choque cósmico ao final da era dos dinossauros.

DePalma localizou "dentes e ossos quebrados, entre os quais restos de filhotes, de quase todos os grupos de dinossauros", de acordo com o artigo, escrito por Douglas Preston. Um ovo de dinossauro continha um embrião e outros restos, o que "sugere que os dinossauros e grandes répteis provavelmente não estavam cambaleando para a extinção, naquele dia fatídico".

Em entrevista, Steve Brusatte, paleontologista especializado em vertebrados e biólogo evolutivo na Universidade de Edimburgo, classifica o retrato da New Yorker quanto aos fósseis encontrados como "uma história notável", na qual ele gostaria de acreditar. "Mas é decepcionante que os dinossauros não sejam mencionados no estudo publicado pela revista acadêmica", ele disse. "E, porque não o são, simplesmente não existem provas que eu possa avaliar".

Por enquanto, disse Brusatte, "fico com mais perguntas do que respostas, com relação ao lado dos dinossauros nessa história".

DePalma disse que o propósito do primeiro estudo era estabelecer a geologia e o timing do que aconteceu naquele dia catastrófico. Estudos subsequentes tratarão de modo mais detalhado dos residentes, incluindo dinossauros, que morreram, segundo ele. "O estudo não é sobre dinossauros. É uma exposição básica sobre o sítio e a maneira pela qual ele foi encontrado".

Tradução de Paulo Migliacci

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