Ser gay é natural? Jornalista e biólogo usam polêmicas para explicar Darwin

Recém-lançado, 'Darwin sem Frescura' foi escrito por Reinaldo José Lopes e Pirula

Rafael Garcia
São Paulo

Em um mercado editorial já saturado de livros introdutórios sobre a teoria da evolução, o que motivaria um autor a colocar uma obra a mais em meio à salada de títulos disponíveis? No caso de Reinaldo José Lopes, jornalista e colunista da Folha, e de Pirula, biólogo e youtuber, há uma inspiração nítida: as tretas.

Os dois coautores de "Darwin Sem Frescura" (Editora Harper Collins) não foram muito detalhistas ao declararem seus motivos para escrever o livro. Uma intenção expressa foi a de abrasileirar os exemplos usados para explicar as ideias do naturalista inglês. Praticamente todos os casos que os dois usam para apresentar genética e evolução ao leitor, porém, são também gatilhos para controvérsias acadêmicas, tabus comportamentais e conflitos envolvendo pseudociência.

Questões como a genética da homossexualidade, a natureza da moralidade, a hereditariedade da inteligência e outros assuntos espinhosos são aquilo que pontua o livro. E toda a escolha de exemplo acaba, por fim, servindo ao propósito da obra de explicar para o leitor como funciona a evolução. O livro desfia todos os conceitos básicos do darwinismo moderno —como seleção natural, a árvore da vida, o código genético e o papel da aleatoriedade na evolução —, só que empacotados com o rótulo de "polêmica".

Seria estranho, na verdade, esperar um livro tímido ou frio surgindo da mente dos dois coautores, que juntos possuem longo currículo de bate-boca de internet. E ambos têm vasta coleção de mensagens de ódio, sobretudo originadas do movimento criacionista, para quem a biologia é um atentado contra a crença em Deus.

Dito isso, a perspectiva que os dois adotam — a de contemplar uma teoria a partir dos seus pontos de conflito— não é nova. Ainda na década de 1980, Richard Dawkins se tornou celebridade justamente por encarnar o antagonismo aos criacionistas. Lopes e Pirula, porém, não antagonizam apenas os criacionistas, e reeditam com sucesso essa abordagem dialética ao trazê-la para o contexto de muitos leitores jovens, aqueles que vivem no mundo das tretas da web.

O uso do termo "sem frescura" no título pode passar uma ideia equivocada de que os dois foram desrespeitosos ao tratar de questões potencialmente ofensivas, ou que foram descuidados com as referências dos trabalhos científicos mencionados. Há, na verdade, fartas citações de obras acadêmicas ao fim de cada capítulo e muita cautela adotada quando os assuntos são delicados.

O que talvez irrite leitores mais formais são as constantes menções a preferências pessoais dos autores, a pontuação de raciocínios com trocadilhos infames e o linguajar coloquial pretensamente jovem. (Curiosamente, o repertório de piadas num livro mirando um público abaixo dos 30 anos requer conhecimento de cultura pop dos anos 1980.) O "sem frescura" talvez esteja nessa informalidade, por vezes construída até meio à força.

Pirula e Reinaldo conseguem, de qualquer forma, adequar a forma ao conteúdo que apresentam. Todas as questões mais contenciosas da área estão lá: "ser gay é natural?", "raça influencia inteligência?", "bandido nasce bandido?"...

E partir de polêmicas pontuais para explicar a estrutura geral da teoria da evolução é uma estratégia que, no fim, dá certo. O resultado, em algumas circunstâncias, até ajuda a aliviar a tensão de alguns debates, como quando ambos mostram que as explicações da genética evolutiva para a homossexualidade podem ser tão técnicas e triviais quanto mecanismos que influenciam preferências de paladar. Há diversos pontos no livro com menções a equívocos da genética de visão eugenista, que se baseia em conceitos errados, moral e tecnicamente.

A dinâmica "morde e assopra" do livro, que levanta um debate e propõe visões conciliadoras, às vezes parece emergir da formação cultural dos dois autores. Pirula (que fora de sua persona "digital influencer" adota a alcunha de Paulo Pedrosa) é um ateu paulistano com formação em biologia, herpetólogo, doutorado em zoologia. Lopes é jornalista crescido no interior paulista, católico apostólico romano praticante, versado em literatura grega e especialista na obra de J.R. Tolkien.

O combate ao avanço criacionista no Brasil é um ponto de contato entre os autores. Construído para acomodar as diferenças de visão de mundo dos dois, "Darwin sem frescura" é um forte argumento de que a crença em Deus não é impeditivo para compreender e aceitar as implicações mais profundas da teoria da evolução. Ou pelo menos não o é no caso de Lopes.

A escolha de pontos polêmicos para criar tensão narrativa (e o discurso de paz e amor entre ateus e religiosos) poderia ser apenas uma estratégia barata para atrair atenção. Pirula, um comunicador que sabe explorar controvérsias para ganhar audiência em seu canal de Youtube, tem know-how para isso. É justo dizer que a personalidade exibida pelos autores no livro, porém, é sincera. Quem quer aprender um pouco do genética evolutiva para tretar na internet tem em "Darwin sem frescura" uma boa ferramenta.

Algumas questões espinhosas para geneticistas

"Ser gay é natural?"
A homossexualidade é um traço absolutamente natural, encontrado em uma porcentagem razoável de indivíduos entre muitas espécies. Há indícios de que alguns possíveis componente genéticos e outros componentes inatos (e não genéticos) influenciam a preferência sexual de pessoas e animais.

"Bandido nasce bandido?"
Existem indícios de que a genética pode influenciar a moralidade de grupos de indivíduos (gente ou bicho). Diferentes ambientes favorecem diferentes comportamentos. É impossível, porém, prever o caráter de um humano a partir de seu DNA, e a influência do ambiente na formação da moral é avassaladora.

"Raça influencia inteligência?"
O livro aborda a questão da inteligência dos judeus asquenazes. Alguns sugerem de que o nicho cultural ocupado por esse grupo na história da Europa (sobretudo o comércio) tenha favorecido genes ligados à inteligência analítica e matemática, mas é uma hipótese muito difícil de ser testada.

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