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Física trans brasileira recebe prêmio de diversidade nos EUA

Pesquisadora que colabora com a Nasa ganhou o Leona Woods Award

Everton Lopes Batista
São Paulo

Quando criança, Vivian Miranda colecionava reportagens sobre astronomia de jornais e revistas. “Meu sonho era trabalhar na Nasa.”

Aos 33, a física teve esse sonhado realizado. Colabora com a famosa agência espacial americana no projeto do telescópio espacial WFIRST, tido como prioridade da pesquisa decenal da Nasa em 2010, e é pesquisadora da Universidade do Arizona, nos EUA.

Como se não bastasse, o destaque de sua pesquisa em cosmologia fez com que Vivian se tornasse a primeira brasileira a receber um prêmio que reconhece o sucesso de cientistas mulheres, de grupos sub-representados e LGBTQ na área da física, o Leona Woods Award. Concedido duas vezes por ano desde 2017 pelo Departamento de Física do Laboratório Nacional Brookhaven (BLN, na sigla em inglês), localizado em Nova York, ele tem o objetivo de fomentar a diversidade na instituição.

A física e mulher trans brasileira Vivian Miranda, 33, que recebeu o Leona Woods Award, ao lado de uma lousa
A física e mulher trans brasileira Vivian Miranda, 33, que recebeu o Leona Woods Award - Arquivo pessoal

O prêmio, que teve o resultado anunciado no final de abril, inclui uma gratificação em dinheiro no valor de US$ 1.000 (R$ 3.970) e a oportunidade de apresentar duas conferências para os membros do BLN.

Cientistas que trabalham com cosmologia estudam características básicas do Universo, como a sua idade, composição, tamanho e formação, explica Vivian. 

“Foi por meio da astronomia que me interessei pela física. O sonho de fazer astronomia e o sonho de ajustar meu gênero nasceram mais ou menos na mesma época, ainda na infância”, afirma. “No entanto, enquanto eu sentia orgulho de um desses sonhos, a astronomia, eu sentia vergonha do outro. Sofri muito com meu próprio preconceito e só consegui superá-lo quando eu conheci exemplos maravilhosos de pessoas transexuais na academia americana pela internet.”

Com medo de prejudicar a própria carreira e ficar na marginalidade, a física só iniciou a transição de gênero em 2017, após concluir o doutorado em cosmologia na Universidade de Chicago. 

“Eu queria primeiro mostrar à comunidade que eu era uma excelente cientista”, diz ela, que fez a graduação em física pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Vivian relata que nos Estados Unidos há um esforço das universidades para integrar as pessoas transexuais. No entanto, nem todo mundo na academia brasileira foi receptivo. “Fui acusada por algumas pessoas de ter sido muito radical”, afirma.

“O prêmio Leona Woods é uma prova de que essas pessoas estavam equivocadas. Eu posso, sim, ser uma excelente cientista e mulher transexual ao mesmo tempo”, completa.

Leona Woods (1919-1989), que dá nome ao prêmio, é uma das poucas cientistas mulheres que trabalharam no Projeto Manhattan, responsável pela criação da bomba atômica nos Estados Unidos entre 1939 e 1946. Entre 1958 e 1962, Leona foi visitante no Laboratório Nacional Brookhaven, que concede o prêmio.

Como é o caso de tantos adolescentes brasileiros, a física nem sempre foi atraente para Vivian. Ela diz que chegou a dormir durante aulas no primeiro ano do ensino médio, cursado no tradicional Colégio Pedro 2º, no Rio, por causa do tédio que sentia.

“Foi então que o meu professor de física percebeu meu desinteresse e me deu uma coleção de livros didáticos com exercícios avançados”, diz. A estratégia funcionou e fez com que Vivian tivesse o apetite pela matéria reavivado.

Na mesma época, ela começou a participar da Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA), competição que visa fomentar o interesse de estudantes pela área. “A OBA me permitiu ir a congressos de astronomia para conversar com profissionais e me incentivou a passar diversas tardes no planetário do Rio” conta.

“Isso mostra que é importante os professores de exatas terem uma excelente formação para ajudar os alunos que queiram ir além e, ao mesmo tempo, a didática para dar suporte aos alunos que precisam de mais apoio. Deveríamos pagar excelentes salários e recrutar as melhores mentes do país para serem professores”, afirma.

Mas, segundo Vivian, o descaso com que a ciência brasileira tem sido tratada pelo governo, com cortes sucessivos, tem provocado, na verdade, uma fuga dos profissionais mais qualificados em ciência para outros países.

No final de março, o governo federal anunciou o contingenciamento de 42% das despesas de investimento do MCTIC (Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações).

“Estamos jogando no lixo todo o esforço feito por gerações para criar um ambiente científico de ponta no Brasil”, afirma Vivian, que diz ter vontade de voltar a trabalhar no país, desde que os investimentos em pesquisa cresçam substancialmente.

“Quantas mentes ultraqualificadas iremos perder para sempre se o governo federal congelar os concursos para as universidades e continuar sucateando a pesquisa? Não é possível que não tenhamos estratégia de longo prazo”, conclui a cientista.

A cosmóloga visitará o Brasil no final de maio para ministrar um curso na 4ª Escola  Internacional de Astrofísica do Observatório do Valongo, da UFRJ. Em junho, estará em São Paulo para trabalhar em colaboração com o físico Rogério Rosenfeld no Instituto Sul-Americano para Pesquisa Fundamental (ICTP-SAIFR).

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