Neurocientista quer recuperar a importância dos sonhos para a mente humana

Sidarta Ribeiro, pesquisador da UFRN, combina conhecimento ancestral e biologia do século 21

Reinaldo José Lopes
São Carlos (SP)

Todas as noites, bilhões de indivíduos passam horas plugados no mais potente simulador de realidade virtual do Universo. Com ele, podem realizar desejos insuspeitos, explorar os limites da própria personalidade ou descortinar cenários e criaturas surreais. Não se trata de cenário de ficção científica —basta fechar os olhos e sonhar, diz o neurocientista Sidarta Ribeiro.

Em seu novo livro, batizado de “O Oráculo da Noite”, o pesquisador do Instituto do Cérebro da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) propõe uma combinação surpreendente de sabedoria ancestral e biologia do século 21 como caminho para recuperar a importância —e talvez mesmo a centralidade— dos sonhos para a mente humana.

Em vez de serem apenas ativações aleatórias dos neurônios durante a “faxina” noturna do cérebro, como cientistas proeminentes defenderam por muito tempo, os sonhos funcionam principalmente como “simulações probabilísticas de eventos passados e expectativas futuras”, argumenta Ribeiro.

O neurocientista Sidarta Ribeiro, professor e diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
O neurocientista Sidarta Ribeiro, professor e diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte - Jardiel Carvalho/Folhapress

Eles reverberam, em infinitas recombinações e variações, as memórias, o aprendizado e os desafios do mundo desperto, sendo, portanto, fundamentais para a criatividade. Circuitos de neurônios similares aos que são ativados durante uma atividade em vigília, mas que não correspondem a uma simples reprodução dela, é o que vemos funcionando nos sonhos.

“O livro tem uma série de teses. Uma delas é que parte dos problemas da civilização moderna, mais ou menos nos últimos 500 anos, é termos deixado de levar os sonhos em conta”, declarou o pesquisador à plateia que lotava o auditório da livraria Martins Fontes, em São Paulo, onde lançou a obra no dia 27 de junho.

Para o neurocientista, os sonhos podem se revelar a mais importante via de acesso ao inconsciente humano e ao potencial criativo da mente. Ao se negar a explorar essa via, a humanidade moderna está deixando de lado uma fonte quase inesgotável de possibilidades para enfrentar os novos desafios, aparentemente insolúveis, que surgiram nos últimos séculos. Reaprender a interpretar os sonhos com as ferramentas científicas seria quase questão de sobrevivência. 

Outro pilar do trabalho é o resgate do que disseram sobre o tema os pioneiros da psicanálise, em especial o austríaco Sigmund Freud (1856-1939). Na essência, diz o neurocientista, está correta a visão freudiana sobre os sonhos como “restos diurnos”, refletindo imperfeitamente o universo que o sonhador experimenta durante o dia, e também aspectos dos desejos e das buscas do indivíduo.

Com efeito, o fato de serem tão comuns os sonhos em que estamos procurando desesperadamente algo, ou fugindo de alguém ou alguma coisa, com análogos até em animais (como revelaram alguns experimentos seminais com gatos), reforça a ideia. E bate com evidências laboratoriais da importância do mensageiro químico dopamina tanto para os sonhos quanto para o chamado sistema de recompensa do cérebro —justamente o que faz humanos e demais animais sentirem a “fissura” de desejar algo.

“Freud estava certo em tudo? Não, óbvio que não. Mas só mito acerta sempre”, brinca o autor. 

O trajeto que conduz o livro a essas conclusões é tão fascinante e tortuoso quanto os sonhos com ares de superprodução capazes de marcar uma pessoa pelo resto da vida. A narrativa de Ribeiro tem a ambição de amarrar, de um lado, a história evolutiva do sono e dos sonhos —do aparecimento dos primeiros seres vivos sensíveis à alternância de claridade e escuridão à misteriosa capacidade de dormir com apenas um hemisfério do cérebro dos golfinhos— e, de outro, sua história humana, que parece ter começado com o xamanismo da Idade do Gelo e inclui as premonições dos heróis de Homero (século 8º a.C.) e as especulações teológicas de Santo Agostinho (século 5º d.C.) sobre a possibilidade de pecar em sonho.

Vasculhar a história das percepções culturais acerca do sonho serve a um propósito duplo no livro. Além de revelar o que se perdeu na cultura moderna com a relegação do fenômeno a um plano desimportante, de mera curiosidade ou superstição, o propósito do pesquisador também é prático. Sociedades pré-modernas, em todas as partes do mundo, desenvolveram “disciplinas do sonhar”, técnicas destinadas a aproveitar a transformação da consciência possibilitada pelo sonho ou de reproduzir, em vigília, estados similares a ele.

Algumas dessas técnicas são tão simples quanto iniciar um sonhário —um diário de sonhos— enquanto outras envolvem os mais diferentes tipos de preparados psicodélicos, como a ayahuasca amazônica, objeto de estudos do próprio Ribeiro e de seus colaboradores.

“Os paralelos entre o efeito dos psicodélicos e o sonho existem, ‘pero no mucho’”, brinca ele. “É muito difícil, ainda que não impossível, você barrar todas as influências sensoriais do mundo da vigília durante o uso dessas substâncias —esse mundo externo acaba se impondo, o que já não acontece durante o sonho.”

Mesmo assim, o pesquisador defende de modo enfático o potencial terapêutico dessas drogas, bem como um debate menos preconceituoso sobre seu uso. “A dicotomia que existe entre drogas lícitas e ilícitas é um absurdo. Não faz sentido que qualquer droga que não seja o álcool e o tabaco seja considerada, por definição, coisa do Capeta, enquanto qualquer criança pode ver comerciais de cerveja estrelados por gente famosa na TV.”

Com a ascensão de inteligências artificiais cada vez mais complexas num horizonte talvez não tão distante, seria possível ensinar computadores a sonhar como maneira de lhes conferir alguma forma de consciência similar à nossa?

“Sim, tem gente trabalhando nisso, e sim, não vejo porque seria impossível”, arrisca Ribeiro. “O ponto-chave provavelmente é criar mecanismos que envolvam intencionalidade e busca por um objetivo, como no nosso caso.”

O Oráculo da Noite: A História e a Ciência do Sonho
Autor Sidarta Ribeiro
Editora Companhia das Letras
Quanto R$ 39,90 (ebook); 488 págs.

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