Descrição de chapéu Queda do Muro, 30

Cientistas se unem em Berlim e dizem querer derrubar novos muros

Conferência defendeu a liberdade de expressão e a ciência livre, com pesquisas sem amarras

Berlim

No dia em que se completam 30 anos da queda do Muro de Berlim, cientistas de diversos países usaram um antigo prédio em Berlim, na Alemanha, às margens do rio Spree para falar sobre liberdade de expressão e de pesquisa e sobre os próximos muros que, segundo eles, devem cair.

A conferência científica Falling Walls (algo como “os muros que caem”, em tradução livre), que ocorreu neste sábado (9), buscou apresentar de forma simples, direta e em inglês, num estilo que lembra o dos TED talks, avanços científicos significativos que podem ajudar a mudar o mundo como o conhecemos hoje. 

O discurso de um dos fundadores apontou que o caminho para a mudança passa pela liberdade. “Gostaríamos de usar essa conferência para advogar em nome do discurso e da ciência livres”, disse Sebastian Turner, no início da conferência.

Enquanto discursava, Turner pediu para a plateia vestir os gorros vermelhos que estavam em suas cadeiras e fez o mesmo. O gorro trazia a frase: “Protecting Free Thinking [protegendo o pensamento livre, em tradução livre], Falling Walls Berlin”.

Sebastian Turner, um dos fundadores da conferência científica Falling Walls, discursa no sábado (9)
Sebastian Turner, um dos fundadores da conferência científica Falling Walls, discursa no sábado (9), em Berlim - Phillippe Watanabe/Folhapress

Representantes da conferência, membros da principal agência de fomento à ciência da Alemanha (DFG) e integrantes do Instituto Max Planck e do Instituto Leibniz, duas das principais entidades científicas alemãs, defenderam, em encontros ao longo da semana, diferentes formas de liberdade, como a de expressão e pensamento, e a de pesquisa, sem interferência do governo sobre temas a serem estudados e como aplicar os recursos disponíveis.

Depois de Turner, o palco foi ocupado por Timothy Garton Ash, historiador da Universidade Oxford, que comparou o período da queda ao mundo atual —segundo ele, cheio de novos muros em construção como o do presidente americano Donald Trump, na fronteira com o México, e o de Viktor Orban, na Hungria. 

“Nós temos que lutar contra os demagogos, os profetas da irracionalidade, os nacionalistas, os populistas, os Trumps, os Orbans, os Erdogan [Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia], os Farage [Nigel Farage, chefe do Partido do Brexit], as Le Pen [Marine Le Pen, da extrema direita francesa]”, disse Ash.

O discurso de liberdade e integração, porém, não deixa de lado o reconhecimento das cicatrizes históricas.

“Temos uma maior quantidade de institutos na parte ocidental da Alemanha. Isso está ligado à origem do Instituto Leibniz, em 1995. Depois da queda do Muro de Berlim, havia um número considerável de institutos que faziam parte da Alemanha Oriental e não se sabia o que fazer com eles. Todos foram avaliados, e os aprovados foram incorporados”, disse Miguel Seco, da entidade.

Desequilíbrio semelhante é encontrado na distribuição dos institutos Max Planck pela Alemanha, mais concentrados em regiões que antes faziam parte da Alemanha Ocidental.

No entanto, a ciência apresentada na conferência Falling Walls buscou apontar mais para o futuro — sustentável, claro — do que para o passado. O país é um dos doadores, junto à Noruega, do bilionário Fundo Amazônia, que se encontra paralisado por ter tido seus conselhos extintos pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Entre os avanços científicos apresentados na conferência estão pesquisas que tratam da alimentação a partir de carne criada em laboratório (a digestão de gado libera metano e impacta negativamente nas mudanças climáticas) e a possibilidade de obtenção de proteína pelo consumo de insetos (o que poderia diminuir o consumo médio de carne e o impacto ambiental associado).

A organização também tomou o cuidado de não ficar só no discurso e não usou objetos descartáveis de plástico. As comidas servidas seguiam o mesmo caminho: sem carne. No almoço, por exemplo, em um menu chamado "O atual almoço para a saúde planetária", era possível escolher entre uma opção vegetariana com ovos marinados e purê de vegetais, e uma vegana, com bolinhos de grãos e vegetais fermentados.

Também estiveram presentes no evento pesquisadores que conseguiram fazer uma pessoa paraplégica andar ao combinar estimulação elétrica do sistema nervoso e sessões de fisioterapia no paciente que teve uma lesão na medula espinhal. Durante a palestra dos especialistas, o homem que recuperou parte da capacidade de caminhar, David Mzee, levantou-se do público e andou em direção ao palco. 

Um dos cientistas responsáveis pela primeira imagem de um buraco negro também apresentaria sua pesquisa na conferência neste sábado (9). 

Em meio a assuntos graves como impacto de mudanças climáticas, a comédia foi usada como válvula de escape. Além das próprias apresentações muitas vezes bem-humoradas, havia uma espécie de ajudante de palco com a função de atrapalhar quem não respeitasse as regras. Se um pesquisador ultrapassasse o tempo que tinha, Klaus, o ajudante, invadia o palco e tentava desconcentrar o palestrante.

Em uma apresentação sobre os impactos de nossas decisões sobre consumo na natureza, Klaus apareceu no palco com um cartaz de protesto pelas mudanças climáticas igual ao usado pela ativista sueca Greta Thunberg. 

O jornalista viajou a convite do governo da Alemanha

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