Nos 150 anos da revista Nature, ciência ficou mais colaborativa e feminina

Principais palavras-chave de títulos e resumos também mudaram de 'aurora' e 'Terra' para 'DNA' e 'quântico'

São Carlos (SP)

A revista britânica Nature, um dos mais importantes periódicos científicos do mundo, resolveu comemorar seu aniversário de 150 anos traçando um amplo retrato de como a ciência se transformou ao longo do último século e meio (veja infográfico abaixo). 

É claro que as mudanças são brutais. Em 1869, quando a Nature nasceu, Charles Darwin ainda estava na ativa e não se sabia do que eram feitos os átomos (ou mesmo se eles existiam de fato), por exemplo. Mas as transformações estruturais foram igualmente importantes.

 

Durante esse período, a pesquisa científica se tornou cada vez mais um esforço colaborativo, internacionalizado, multidisciplinar e com participação de ambos os sexos (embora as mulheres ainda sejam minoria entre os que assinam estudos nas páginas da revista). Tornou-se praticamente impossível fazer ciência sozinho — enquanto artigos publicados nos anos 1940 muitas vezes eram assinados por um único autor, a média de colaboradores em pesquisas da área de medicina e saúde é de 16 pessoas hoje.

Embora a principal função do periódico seja a publicação de pesquisas originais, com resultados descritos pelos próprios cientistas para a comunidade acadêmica, a Nature nasceu com o objetivo de atingir o público em geral também. Essa meta foi facilitada pela periodicidade semanal, relativamente rápida para os padrões do século 19. Publicações das sociedades científicas mais antigas, como a Royal Society, podiam levar meses para ganhar uma nova edição.

A agilidade para comunicar seus achados levou os cientistas a mandarem cada vez mais "cartas para o editor" à redação da Nature. Mas o processo formal de escrutínio dos dados antes da publicação, a chamada "peer review" ou revisão por pares, na qual cientistas da mesma área dos autores de uma nova pesquisa analisam anonimamente o trabalho, só foi estabelecido de vez em 1966. 

Parte dos dados que revelam a evolução da pesquisa por meio das páginas da Nature foi levantada pela equipe de Albert László-Barabási, do Instituto de Ciência de Redes da Universidade Northeastern (EUA). Barabási e seus colegas analisaram o impacto de quase 90 mil artigos publicados na revista (e 38 milhões de artigos no total), tentando mapear o que chamam de “metabolismo de ideias” — ou seja, como estudos que saíram no periódico influenciaram outras publicações e outros cientistas ao longo do tempo.

Para fazer esse mapeamento de modo quantitativo, eles analisaram o padrão de referências e citações de cada artigo, dois elementos essenciais de qualquer pesquisa publicada.

Fazer uma lista das pesquisas anteriores que serviram de fonte para um novo estudo, em geral no fim do artigo, é importante para mostrar que o cientista não está simplesmente tirando informações da cartola. Depois que aquele estudo é publicado, ele pode ser citado por outros pesquisadores como referência, e a quantidade de citações de um artigo em outras pesquisas é um número frequentemente usado para estimar o quanto ele é influente ou relevante.

Usando essas métricas, Barabási e companhia concluíram que, em média, um artigo publicado na Nature recebe influências de áreas diversas, e acaba impactando ramos diversificados do conhecimento também, com frequência três vezes maior do que acontecia 50 anos atrás.

Normalmente, cada artigo da revista lista referências de nove ramos diferentes do conhecimento. Hoje, pouco menos de metade desses estudos está ligado às ciências biológicas, mas seu impacto cada vez mais alcança outras disciplinas – um artigo de 2003 sobre os aspectos digitais do código do DNA, por exemplo, hoje acumula 143 citações, muitas das quais vêm de estudos sobre ciência da computação e sociologia.

Outra maneira de acompanhar as mudanças na revista e na ciência nos últimos 150 anos é verificar as palavras-chave presentes em títulos ou resumos de cada artigo. Nos tempos mais ingênuos do fim do século 19, predominavam termos como “Sol”, “meteoro”, “água” e “Terra” (veja infográfico). Hoje, entre as expressões campeãs estão “quantum”, “receptor” (a “fechadura” química das células), “gene” e, claro, “DNA”, o que reflete, mais uma vez, o predomínio crescente da pesquisa de ponta em ciências biológicas.

Dos anos 1980 para cá, a participação de mulheres na lista de autores de cada artigo passou de 15% para 30%. Mudanças importantes também aconteceram na distribuição geográfica de pesquisadores. Enquanto nos anos 1960 predominavam autores de países de língua inglesa ou de ex-colônias britânicas (Reino Unido, EUA, Canadá e Índia), as décadas seguintes viram a ascensão do Japão como potência científica e, nos anos 2010, a da China.  

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