Zika pode aumentar risco de dengue grave, diz estudo na Science

Ex-pacientes de zika apresentaram mais que o triplo de probabilidade de ter sintomas do subtipo 2 da dengue

São Paulo

A epidemia de zika que assustou mundo entre 2015 e 2016 pode ter deixado uma marca além da microcefalia e da síndrome paralisante de Guillain-Barré. Um novo estudo mostra que pessoas que tiveram essa arbovirose transmitida por mosquitos do gênero Aedes apresentam um risco maior de terem formas mais graves de uma outra, a dengue, no caso de uma infecção subsequente.

Esses novos resultados, publicados na edição desta semana da revista Science, podem ser especialmente importantes na hora de elaborar e testar vacinas contra essas doenças.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos EUA, do Instituto de Ciências Sustentáveis e do Laboratório Nacional de Virologia, na Nicarágua, e cientistas de outras instituições dos dois países.

A pesquisa se baseou em dados de 3.800 crianças e adolescentes da Nicarágua, país de 6,5 milhões de habitantes da América Central que sofreu com sucessivas epidemias de dengue nos últimos 16 anos, além da de zika.

Os cientistas notaram que houve um grande número pessoas que tiveram dengue entre 2019 e 2020 —302 casos na corte acompanhada. Aqueles com histórico de infecção por zika tinham probabilidade de 12,1% de apresentar sintomas da infecção, causada pelo subtipo 2 do vírus (DENV2), em comparação com apenas 3,5% entre aqueles nunca infectados.

A probabilidade de manifestar dengue hemorrágica, forma mais severa da dengue, segundo o estudo, também é maior em quem teve zika: 1,1% contra 0%, nos dados do estudo.

Nesse e em outros estudos, o candidato a grande vilão é o DENV2. A interação entre ele e os anticorpos produzidos pelo organismo parece estar na raiz do problema.

A explicação é a chamada potenciação dependente de anticorpos (ou ADE, na sigla em inglês). Os anticorpos contra outros subtipos de vírus da dengue e contra o vírus da zika, numa quantidade reduzida, em vez de promover a aniquilação do DENV2, acabariam por protegê-lo e facilitar sua replicação. Não está descartado, porém, que o mesmo fenômeno ocorra com os outros subtipos (DENV1, DENV3 e DENV4).

O virologista Maurício Nogueira, da Faculdade de Medicina de Rio Preto, estudioso de dengue e zika, afirma que os resultados da pesquisa na Science vão ao encontro do que tem visto nos pacientes que acompanha, embora esses resultados ainda não tenham sido publicados.

“Já havíamos demonstrado que a exposição prévia à dengue não piorava o quadro de zika, mas o contrário parece ser verdadeiro”, diz Nogueira. “É importante lembrar que esses fenômenos de ADE dependem do tempo. Se as infecções forem muito seguidas, nada muda, se a segunda for muito tardia, também não.”

Atualmente há apenas uma vacina aprovada contra a dengue, a Dengvaxia, da Sanofi Pasteur, mas há outras em desenvolvimento, assim como outras contra a zika.

“Neste momento é importante entender se a eficácia da vacina contra a dengue varia de acordo com uma infecção prévia por zika”, escreve em comentário também publicado na Science a pesquisadora Hannah Clapham, da Universidade Nacional de Singapura. "No caso da Dengvaxia, os ensaios ocorreram antes da epidemia de 2015-16. E é ainda possível que as vacinas contra a zika possam levar a infecções subsequentes mais severas de dengue."

Todos os anos, 390 milhões de pessoas de pessoas são infectadas pelo vírus da dengue, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, sendo que 96 milhões apresentam sintomas.

“Seria prudente que todos esses estudos de vacinas mensurassem a imunidade aos vírus antes e após a vacinação, com acompanhamento de longo prazo, já que a imunidade se altera ao longo do tempo”, continua Clapham. Outros flavivírus, como o da febre amarela e o da encefalite japonesa, também devem ganhar atenção, diz.

Eva Harris, autora sênior do artigo, lembra que não há estudos que digam que o ADE seja importante na resposta à infecção contra coronavírus humanos.

“Nós não esperamos que esse inusual mecanismo se aplique à Covid-19. No entanto, estudar a reação cruzada entre vírus correlacionados é sempre valioso e pode ajudar a entender se infecções naturais por outros coronavírus podem gerar imunidade ou se estão associadas a desfechos mais graves”, afirma.

Ela diz que, por causa disso, as vacinas contra zika estão sendo construídas para induzir uma resposta melhor em comparação àquela da infecção natural, com a produção apenas de anticorpos neutralizantes, e não os potenciadores.

"Isto é algo importante no caso da Covid-19: vacinas podem ser desenvolvidas para produzir uma resposta imunológica melhor do que a infecção natural pelo Sars-Cov-2, o que as torna mais seguras e mais efetivas”, diz Harris.


Entenda a interação entre zika e dengue

Parentes
Os cientistas já desconfiavam que os anticorpos contra a zika poderiam interferir na resposta imunológica contra a dengue, já que os vírus são da mesma família

Ligação
Quando há uma nova infecção por um vírus aparentado, é possível que os anticorpos fabricados na infecção anterior se liguem fortemente ao novo invasor, eliminando-o

Problemas
Mas é possível também que, por uma ligação mais fraca ou uma baixa quantidade de anticorpos, essa interação seja falha, o que aumenta a probabilidade de uma doença mais grave

Estudo
Cientistas de um projeto que acompanha milhares de crianças e adolescentes na Nicarágua observaram que uma infecção prévia pelo vírus da zika é um fator de risco para uma infecção mais grave de dengue

Significado
Especialmente na hora de elaborar vacinas, deve-se levar em conta esse tipo de fenômeno (potencialização dependente de anticorpos, ou ADE na sigla em inglês), para que a proteção contra um vírus não traga mais riscos do que o necessário

Fonte: Science

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