Brasil registra em 2019 segundo maior número de mortes por dengue em 21 anos

Até o início de dezembro, haviam sido confirmadas 754 mortes, atrás apenas de 2015, ano da pior epidemia já registrada. Número de casos prováveis da doença ultrapassa 1,5 milhão

Brasília

Com novo avanço da dengue, o ano de 2019 registrou o segundo maior número de mortes pela doença desde 1998, ano de início da série histórica.

Dados do Ministério da Saúde apontam que, até o dia 7 de dezembro, já haviam sido confirmadas 754 mortes por dengue

Na prática, o total fica abaixo apenas do registrado em 2015, quando houve uma das piores epidemias da doença, com 986 mortes. 

O número, porém, ainda pode crescer, já que o balanço não contabiliza o ano fechado. Até o dia 7, também havia 221 mortes suspeitas pela doença ainda em investigação. 

Os dados retratam o impacto do novo avanço da dengue ocorrido em 2019, após dois anos com baixo número de registros.

Ao todo, de janeiro até o início de dezembro, o ministério contabilizava 1.527.119 casos prováveis da doença. 

É o segundo maior número desde que esses registros passaram a ser contabilizados, em 1990. A comparação do total de casos foi noticiada pelo jornal O Globo.

O número também representa um crescimento de 517% em relação a 2018, ano em que foram registrados  247.393 casos. O menor número de registros naquele ano, porém já era esperado devido ao acúmulo de dois anos com epidemia, caso de 2015 e 2016.

Já em 2019, especialistas têm relacionado a nova alta ao aumento na circulação do sorotipo 2 da dengue, o que não ocorria com maior força desde 2008. A mudança acaba por aumentar a chance de haver pessoas suscetíveis ao vírus. Antes, os sorotipos de maior circulação no país eram o 1 e o 4 – há quatro possíveis.

Para o coordenador do programa de dengue do ministério, Rodrigo Said, a mudança no sorotipo predominante ao fim de 2018, somada a fatores climáticos e à entrada em áreas de alto contingente populacional, ajudam a explicar o alto número de casos.

“Tivemos em 2019 um verão bem intenso, com altas temperaturas e chuvas, o que favorece a reprodução do mosquito e ocorrência de epidemias”, afirma. “Também tivemos a mudança no sorotipo. Se observarmos a série histórica, a cada momento em que há essa mudança há aumento de casos.”

Já o alto número de mortes pode estar relacionado, além de ao novo avanço da doença, a registros que apontam possibilidade de maior ocorrência de casos mais graves com sorotipo 2, aponta Said.

Para o infectologista Rivaldo Venâncio, coordenador de vigilância em saúde da Fiocruz e professor da Faculdade de Medicina da UFMS, a ocorrência de mortes por dengue também expressa a necessidade de melhorar a organização da rede de saúde.

"Em tese, a morte por dengue é evitável, salvo os casos fulminantes. O que temos observado é que em geral muitas dessas mortes são consequência de um erro", diz. 

Entre eles, aponta, está a demora em procurar a rede de saúde, a falta de acesso quando procura a rede e a dificuldade para identificar a gravidade dos casos. 

"Nas investigações, vemos que é raro o doente que morreu que foi uma única vez à rede de saúde", diz ele, segundo quem o início rápido do tratamento, que inclui sobretudo hidratação, pode evitar o agravamento dos casos. 

Também é importante que pessoas com outras doenças mantenham seus tratamentos, afirma o especialista.

ANO DE EPIDEMIA ‘CONCENTRADA’ TRAZ ALERTA PARA 2020


Para o Ministério da Saúde, o cenário ocorrido em 2019 indica uma "epidemia concentrada” em algumas regiões.

Isso porque, do total de 1,5 milhão de casos, 65% ocorreram nos estados de São Paulo, Goiás e Minas Gerais. Só em São Paulo, foram registrados 442.235 casos até 7 de dezembro, com 263 mortes.

Para Said, ao mesmo tempo em que indica uma concentração dos casos, a situação acaba por lançar um alerta também para o ano de 2020.

“Quando falamos que a epidemia foi mais concentrada no Sudeste e Centro-Oeste, isso aponta a necessidade de cuidado para este ano sobretudo no Norte e Nordeste”, afirma.

“Nossa preocupação é observar se vai haver uma mudança no sorotipo nessas regiões”, diz ele sobre áreas em que o sorotipo 2 ainda não é o predominante em circulação.

Além disso, a ocorrência maior da doença em algumas áreas dentro dos estados indica que mesmo São Paulo e Minas Gerais ainda podem ter novo avanço da dengue. “Há regiões em São Paulo que não foram tão impactadas em 2019. Ao ver o mapa, vemos que as áreas de maior incidência estavam na região oeste do estado.”  

Venâncio concorda. "O mosquito está aí, e em alguns estados com alto índice de infestação. O que foi localizado em 2019 foi só uma amostra. Vamos ver ainda agora nos anos seguintes, porque tem um conjunto de estados que não foram atingidos."

CHIKUNGUNYA E ZIKA

Além dos casos de dengue, o Brasil registrou no último ano casos de outras arboviroses, como chikungunya e zika. Para a primeira, foram 130.820 casos. Destes, 85.758 foram no Rio de Janeiro, com 66 mortes.

Já a zika contabilizou 10.741 casos no último ano, com registros em diferentes estados. 

Especialistas apontam a necessidade de manter o controle de focos do mosquito para evitar o aumento também desses casos.

"O número de pessoas que não tem anticorpos contra a chikungunya é elevado. A zika tem ainda um número pequeno de casos. Ela pode explodir? Em tese, pode, porque há pessoas suscetíveis e mosquito transmissor", diz Venâncio. 

Atualmente, o Ministério da Saúde diz apostar em novas tecnologias, caso de um projeto para liberação de mosquitos Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia, que reduz a capacidade do vetor em transmitir as doenças. Também aguarda o fim dos testes de uma vacina contra a doença.

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