Ciência em 1921 parece mistura curiosa de vanguarda e atraso aos olhos de hoje

Grandes revoluções da teoria da relatividade e da mecânica quântica já tinham avançado, mas não se sonhava com a importância do DNA

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São Carlos (SP)

A ciência praticada há 100 anos, quando esta Folha nasceu, pareceria uma mistura curiosa de vanguarda e atraso aos olhos de um observador de hoje.

Na física, por exemplo, as grandes revoluções da teoria da relatividade e da mecânica quântica, que ainda dominam a área hoje, já tinham avançado muito, consagrando o alemão Albert Einstein (nascido em 1879, ainda com o bigode negro em 1921) e abrindo caminho para grandes mudanças tecnológicas.

Por outro lado, era um mundo no qual não se sabia da existência de outras galáxias além da Via Láctea (hoje, estima-se que existam cerca de 200 bilhões delas), e ninguém ainda havia formulado um bom modelo para as origens do Cosmos.

Os biólogos nem sonhavam com a importância do DNA como molécula responsável por carregar as informações genéticas, e os médicos tinham à sua disposição um arsenal limitadíssimo para enfrentar infecções (uma única classe de antibióticos, difíceis de armazenar e com muitos efeitos colaterais, que era usado apenas para combater a sífilis). Aliás, nenhum cientista da época tinha visto um vírus (eram pequenos demais para os microscópios de então), embora sua existência e capacidade de causar doenças já fosse inferida por outros meios.

Um jeito simples de medir o estado da ciência já consolidada na época, a lista de ganhadores dos prêmios Nobel (que existem desde 1901), indica que o mundo dos átomos e partículas elementares era o que mais atraía a atenção há 100 anos. Os ganhadores correspondentes a 1921 (mas que receberiam o prêmio propriamente dito apenas no ano seguinte) nas categorias de física e química foram Einstein e o britânico Frederick Soddy (1877-1956), respectivamente.

O segundo recebeu a láurea por seus estudos sobre a transmutação radioativa de um elemento químico em outro e pela descoberta dos chamados isótopos (variantes mais pesadas ou mais leves de um mesmo elemento químico). Estudos anteriores sobre elementos radioativos tinham consagrado a franco-polonesa Marie Curie (1867-1934) com dois prêmios Nobel; até hoje, ela é a única mulher a ser laureada duas vezes.

Já Einstein foi agraciado não pela teoria da relatividade, que o conservador comitê do Nobel ainda achava controversa demais, mas pelo chamado efeito fotoelétrico.

Parece algo simples: quando a luz, em determinadas frequências, atinge uma placa de metal, ela faz com que elétrons sejam arrancados do material. Einstein mostrou que a melhor maneira de explicar o fenômeno era postular que a luz atingia os elétrons na forma de “pacotes” discretos ou partículas (mais tarde batizados de fótons). A compreensão desse fenômeno está por trás de uma série de tecnologias modernas, como os painéis solares.

Ideias como a que permitiu a elucidação do efeito fotoelétrico estão na base da mecânica quântica, responsável por explicar o comportamento contraintuitivo e aparentemente bizarro das partículas subatômicas. Ela revela, entre outras coisas, que tanto os fótons da luz quanto os elétrons e outros componentes básicos da matéria podem se comportar tanto como ondas quanto como partículas.

Cientistas como o dinamarquês Niels Bohr (1885-1962) e o alemão Max Planck (1858-1947), ambos no auge de seu prestígio em 1921, tiveram papel-chave no desenvolvimento dessas ideias.

Nessa mesma época, uma geração mais jovem de pesquisadores, como os britânicos Ronald Fisher e J.B.S. Haldane (nascidos em 1890 e 1892, respectivamente), davam passos importantes para combinar as ideias de Darwin sobre evolução com a nascente ciência da genética, usando métodos matemáticos rigorosos. Esse casamento conceitual criaria a biologia moderna e faria da teoria da evolução o alicerce da disciplina.

No Brasil de 100 anos atrás, havia uma comunidade científica incipiente e com pouco apoio institucional e financeiro, apesar da presença de algumas ilhas de excelência. Basta dizer que o país contava então com apenas uma universidade, a recém-criada Universidade do Rio de Janeiro (que passou a existir por decreto do governo federal de setembro de 1920). Essas instituições hoje abrigam a grande maioria dos principais cientistas brasileiros.

Entre as poucas áreas com pesquisas de impacto internacional no Brasil se destacava a medicina tropical, encabeçada por pesquisadores como os mineiros Carlos Chagas (1879-1934) e Vital Brazil (1865-1950), figuras importantes para o desenvolvimento do Instituto Oswaldo Cruz (RJ) e do Instituto Butantan (SP), respectivamente.

Nas duas primeiras décadas do século 20, o minucioso trabalho de Chagas levou à descrição completa, desde o micro-organismo causador até os efeitos sobre a saúde humana, da complexa doença que leva seu nome, transmitida pelos insetos conhecidos como barbeiros. Vital Brazil, por sua vez, obteve avanços importantes no desenvolvimento de soros específicos contra a peçonha de serpentes, além de desenvolver soros contra doenças infecciosas como o tétano e a difteria.

Ambas as instituições passaram por muitas mudanças desde então, mas boa parte do legado dos anos 1920 se manteve, a começar pelo patrimônio arquitetônico. No Rio de Janeiro, o chamado Castelo de Manguinhos, uma edificação em estilo mourisco (muçulmano ibérico medieval) que data de 1918, ainda abriga a área administrativa da Fiocruz, encarnação atual do instituto de Carlos Chagas, enquanto prédios do começo do século 20 ainda predominam no complexo do Butantan. E o conhecimento adquirido com os estudos sobre medicina tropical permitiu que a Fiocruz e o Butantan se tornassem centros de biotecnologia —área cuja existência era apenas sonhada em 1921— e ajudassem a desenvolver vacinas contra a Covid-19.

A ciência em 1921

  • A vacina BCG, contra a tuberculose, é usada pela primeira vez naquele ano. Hoje, o imunizante é indicado a todas as crianças
  • O médico canadense Frederick Banting (1891-1941) descobre a insulina em 1921
  • A escritora britânica Marie Stopes (1880-1958), que lutou pelos direitos das mulheres, abre a primeira clínica de planejamento familiar do mundo naquele ano
  • O físico teórico alemão Albert Einstein (1879-1955) ganha o Prêmio Nobel de Física em 1921 pelo chamado efeito fotoelétrico, embora só tenha recebido a láurea no ano seguinte
  • Henrietta Swan Leavitt, astrônoma americana que ajudou a criar cálculos sobre a expansão do Universo, morre em 1921

Grandes nomes da ciência na ativa ou no auge naquele ano

Max Planck (1858-1947) e Niels Bohr (1885-1962)
O alemão e o dinamarquês, ambos no auge de seu prestígio em 1921, tiveram papel-chave no desenvolvimento da física quântica

Marie Curie (1867-1934)
A cientista franco-polonesa foi pioneira nos estudos da radioatividade e a única mulher a ganhar duas vezes o Prêmio Nobel

Edwin Hubble (1889-1953)
Constatou que as galáxias estavam se afastando umas das outras e forneceu as bases para a teoria do Big Bang

JBS Haldane (1892-1964)
​Biólogo britânico, abriu novos caminhos para pesquisas de genética e evolução e popularizou a ciência​

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