Descrição de chapéu genética

Livro de geneticista fornece arsenal científico para discussões com racistas

Pesquisador britânico desmonta mitos sobre o que de fato se sabe quando o assunto é raça

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São Carlos (SP)

“Este livro é uma arma”, escreve o geneticista e comunicador britânico Adam Rutherford logo na primeira frase da introdução da sua mais recente obra, intitulada “How To Argue With a Racist” (“Como Discutir Com um Racista”, ainda sem versão brasileira). Eis um começo que cumpre o que promete.

Breve, ágil, repleto de expressões memoráveis e um bom humor exasperado, o livro provavelmente é o melhor arsenal disponível para separar o que a ciência de fato sabe sobre as diferenças raciais humanas das patacoadas sobre o tema que andaram ganhando força —e, inclusive, musculatura política renovada— mundo afora.

Em diversos aspectos, Rutherford talvez seja o sujeito ideal para essa missão. Sua mãe, neta de indianos, nasceu na Guiana e chegou ao Reino Unido nos anos 1960, enquanto seu pai, branco, vem de uma família do norte da Inglaterra.

A essa herança familiar misturada se soma o fato de que a sua formação como pesquisador aconteceu no UCL (University College de Londres), um dos berços do “racismo científico” no fim do século 19 e começo do século 20. Ele chegou a trabalhar no Laboratório Galton —batizado, é claro, em homenagem a Francis Galton (1822-1911), o sujeito que cunhou o termo “eugenia”, algo como o melhoramento de animais e plantas por meio de cruzamentos, só que aplicado aos seres humanos.

“Sou o descendente evolutivo do colonialismo, do imperialismo, do racismo e de algumas ideologias bem odiosas. Em algum sentido, todas as minhas múltiplas linhagens ancestrais —biológicas, culturais e científicas— inevitavelmente acabaram colidindo”, resume Rutherford.

E a coisa piorou quando, ao começar a abordar os temas do livro no rádio, na TV e em seus textos, o autor virou alvo de gente que se pôs a chamá-lo de “paki” (embora não tenha ascendência paquistanesa), “rato judeu” (por causa da família da segunda mulher de seu pai, de origem judia) e “traidor da raça”.

“De repente, declarar-se antirracista parece ter virado uma coisa politicamente controversa”, observou ele em entrevista à plataforma de audiolivros Audible. Não há nada de cientificamente controverso nessa posição, no entanto, como os argumentos do livro deixam claro (confira algum deles abaixo).

Como qualquer bom geneticista, Rutherford está careca de saber que quase todas as características humanas são influenciadas, em alguma medida, pelo DNA que carregamos, e sabe também que certas variantes de DNA são mais comuns em certos grupos étnicos do que em outros.

Nenhuma dessas obviedades, no entanto, autoriza-nos a achar que a lista limitada de “raças” que aprendemos a reconhecer na base do olhômetro —brancos, negros, asiáticos, indígenas etc.— corresponda a alguma essência biológica clara, explica ele.

Para começo de conversa, somos todos africanos, considerando a origem recentíssima da espécie Homo sapiens. Aliás, a diversidade genética humana que existe fora da África é pouco mais do que um subconjunto da existente dentro do suposto “continente negro”, pelo simples fato de que todas as pessoas não africanas descendem de um pequeno subgrupo que deixou para trás a maioria de seus parentes ao colonizar o resto do mundo.

E uma descoberta feita com métodos rudimentares nos anos 1970 continua valendo, em essência: o grosso da variabilidade do DNA humano (mais de 80%) existe dentro das tais “raças”, e não quando se compara uma com a outra.

Além disso, bastam algumas contas simples, mais alguns fatos básicos da biologia e da história, para demonstrar como o conceito de “pureza” étnica é uma burrice tremenda.

Para existir, todos precisamos de dois pais, quatro avós, oito bisavós, 16 trisavós e assim por diante. Se essa duplicação de ancestrais continuasse indefinidamente rumo ao passado, acabaríamos tendo 1 trilhão de ancestrais no ano 1020 d.C. —o que é patentemente absurdo, já que o número é dez vezes maior que o de todas as pessoas que já existiram.

Como resolver esse paradoxo? A resposta óbvia é que todos somos parentes mais ou menos próximos ou distantes, e as linhagens ancestrais convergem e se misturam conforme recuamos, lembra Rutherford.

Isso significa, por exemplo, que todos os europeus de hoje descendem de todas as pessoas da Europa que tiveram descendentes no século 10º d.C. e, de quebra, que todos os seres humanos atuais descendem de todas as pessoas que deixaram descendentes há cerca de 3.400 anos. O isolamento genético é, em outras palavras, um mito que precisa ser abandonado.

E isso significa também que os testes de ancestralidade genômica que existem por aí querem dizer bem menos do que muita gente imagina.

“Deu aqui que eu tenho 2% de ancestralidade viking!”, diz o incauto ao receber os resultados. Sim, é verdade —você e literalmente todas as pessoas com ascendência europeia do mundo.

E, como destaca o escritor, tais testes dependem muito de uma série de fatores: a amostragem original usada para comparação com o DNA do usuário (em geral, com muito mais dados sobre populações com origem na Europa) e o fato de que o parentesco “detectado” é com a localização atual de certos grupos, e não com os lugares que eles poderiam ter ocupado há centenas ou milhares de anos.

Discussões sobre a suposta superioridade esportiva “africana” (de novo, um termo tão amplo que quase não tem significado) e vantagens intelectuais dos judeus europeus em relação ao resto do mundo encerram o livro com chave de ouro.

Resumo da ópera: 1) ainda sabemos pouquíssimo sobre como habilidade esportiva e inteligência são influenciados pelo DNA, exceto o fato de que centenas ou até milhares de genes diferentes têm diferentes impactos sobre essas características; 2) nunca atribua exclusivamente à hereditariedade o que pode ser explicado pela cultura e pelas condições sociais.

Será que esses argumentos razoáveis seriam suficientes para convencer um racista “puro-sangue” (sem trocadilhos) de algo? Dificilmente, mas Rutherford tem na mira os indecisos, os que reproduzem discursos eivados de racismo científico sem perceber que o fazem. Vale a pena tentar.

How To Argue With a Racist
Autor Adam Rutherford. Editora Weidenfeld & Nicolson. R$ 26,30 (ebook); 137 págs.


Como derrubar quatro mitos racistas sobre o DNA humano

Estereótipos raciais não recebem apoio da genômica moderna

MITO 1
É fácil classificar as pessoas pelas raças “tradicionais” (branco, negro, oriental etc.) usando análises de DNA

Os fatos
Essa classificação depende do número de grupos que os programas de computador usados para essa tarefa estabelecem de início e dos trechos de DNA usados na análise. Na verdade, a diversidade genética existente dentro de cada “raça” é maior do que a registrada entre “raças”, e as fronteiras entre elas são graduais, e não claras e delimitadas

MITO 2
Resultados de testes de QI mostram que negros são menos inteligentes que brancos por razões genéticas

Os fatos
A inteligência é bastante influenciada por fatores genéticos, mas o ambiente influencia tanto que as medidas de QI mudam de geração para geração e quando imigrantes chegam a um novo país, o que torna suspeita a atribuição dos resultados ao DNA

MITO 3
Negros dominam o atletismo porque têm genes que os tornam mais rápidos e/ou resistentes

Os fatos
Se apenas variantes de alguns genes ligados à explosão muscular explicassem esse sucesso, os negros também seriam os principais campeões de natação, o que não acontece. Fatores históricos e de estrutura esportiva provavelmente influenciam vários aspectos desses resultados

MITO 4
Testes de DNA podem mostrar com precisão de onde vieram e quem eram os ancestrais de uma pessoa

Os fatos
Muitas populações do mundo ainda não foram alvo de amostragem de material genético; além disso, migrações, guerras e outros fatores fazem com que seja possível dizer onde grupos geneticamente próximos de uma pessoa vivem hoje, mas não necessariamente onde eles viviam no passado, em especial no caso de quem descende de africanos escravizados

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