Gestão Doria não informa situação de 24 câmeras como a que matou folião

Universitário sofreu descarga elétrica ao tocar poste na Consolação durante bloco

Câmera para monitorar o Carnaval instalada pela empresa GWA Systems em poste da CET no canteiro central da rua da Consolação, no centro
Câmera para monitorar o Carnaval instalada pela empresa GWA Systems em poste da CET no canteiro central da rua da Consolação, no centro - Robson Ventura/ Folhapress
Luciano Cavenagui Mariana Zylberkan
São Paulo

Outras câmeras de monitoramento do Carnaval de rua de São Paulo estão instaladas em postes, em situação semelhante a que causou a morte do universitário Lucas Antônio Lacerda da Silva, 22, no último domingo (4). Apenas nesta terça (6), o Agora encontrou 24 equipamentos em Pinheiros (zona oeste) e na região central da cidade. A gestão João Doria (PSDB) não disse se elas estão regulares.

No domingo, Silva foi eletrocutado após encostar em um poste da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), na rua da Consolação, durante a passagem do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta. Nele, a GWA Systems havia instalado câmeras para monitorar o Carnaval.

A empresa é terceirizada da Dream Factory, contratada pela gestão Doria para organizar a folia de rua. O valor do contrato é de R$ 20 milhões, pagos por patrocínio. Na terça, prefeitura e GWA fizeram jogo de empurra sobre o caso.

As 24 câmeras encontradas pela reportagem estão instaladas em postes da CET, do Ilume (Departamento de Iluminação Pública) e da Eletropaulo. Elas estão em locais como avenida Faria Lima, rua Morato Coelho e rua Simão Álvares. Uma delas está em um poste da CET no canteiro central da rua da Consolação, na altura do número 1.900.

Um fio de cerca de 60 metros foi puxado de um poste de iluminação situado na rua Coronel José Eusébio. "É uma instalação irregular. A fiação deveria ser subterrânea para não haver risco", afirmou o professor de engenharia elétrica da Universidade Mackenzie, José Roberto Soares.

Nesta terça, o prefeito João Doria afirmou que a prefeitura aguarda o laudo da polícia para se manifestar oficialmente sobre a morte de Silva, que chamou de "lamentável acidente". Ele disse que a instalação das câmeras não estava autorizada e não representava um "instrumento da prefeitura".

Estudante de engenharia biomédica Lucas Antônio Lacerda da Silva foi eletrocutado ao encostar em poste de sinalização na rua da Consolação
Estudante de engenharia biomédica Lucas Antônio Lacerda da Silva foi eletrocutado ao encostar em poste de sinalização na rua da Consolação - Reprodução/ Folhapress

EMPURRA

A gestão Doria e a GWA System fizeram nesta terça jogo de empurra a respeito da responsabilidade pelas câmeras.

A prefeitura afirmou que cabe à empresa Dream Factory "viabilizar a estrutura e operação do Carnaval". Disse que a CET e o Ilume não foram consultados sobre a instalação das câmeras no poste onde o estudante morreu e que as empresas registraram boletim de ocorrência de uso ilegal de sinalização (CET) e de furto de energia (Ilume). A gestão não respondeu aos questionamentos do Agora sobre a situação das outras 24 câmeras.

O dono da GWA Systems, Arthur de Azevedo, afirmou que teve três dias para instalar as câmeras, depois que a Secretaria de Prefeituras Regionais e a Dream Factory definiram os locais onde deveriam ser montadas. A Dream Factory afirmou que as empresas envolvidas no Carnaval possuem "ampla experiência". Disse que foram realizadas reuniões com a prefeitura.

A Eletropaulo informou que está apurando se foi dada autorização para instalação em seus postes. A Skol não se pronunciou.

PROBLEMAS

Além da situação das câmeras de vigilância, a morte de Silva expôs outras falhas do Carnaval paulistano. Entre elas estão: demora do socorro médico, despreparo de guardas civis metropolitanos para casos complexos, definições estratégicas em cima da hora dos desfiles e falta de fiscalização no cumprimento de um contrato milionário.

Heitor Henrique Ciciliano, amigo do jovem, contou que o socorro demorou cerca de meia hora para chegar e que, até este tempo, uma médica que estava no bloco tentou reanimá-lo com massagens cardíacas. Esse mesmo amigo afirmou que a ambulância particular foi contratada pela Dream Factory –a empresa não respondeu sobre esses pontos.

Além disso, o amigo do estudante eletrocutado diz que chegou a pedir ajuda a guardas civis metropolitanos em uma base próxima da GCM, mas ouviu dos oficiais que não poderiam ajudar porque não tinham treinamento de primeiros socorros. Disseram que não poderiam encostar no Lucas até o socorro chegar.

Sobre esse ponto, a prefeitura informou que os guardas-civis têm treinamento básico de primeiros socorros, mas não estão habilitados a atender emergências médicas complexas, como era o caso. "Os guardas são orientados a solicitar o apoio das equipes especializadas, o que foi feito de imediato", informou a administração.

O promotor César Ricardo Martins, que preside quatro inquéritos sobre Carnaval de rua na capital, enviou nesta terça ofícios à CET, à Dream Factory e ao prefeito regional da Sé, Eduardo Odloak, para que prestem esclarecimentos sobre a morte do estudante.


ENTENDA O CASO

Para que servem as câmeras instaladas no poste da CET?

Como parte das obrigações impostas pela prefeitura, a empresa DreamFactory, que venceu a concorrência para gerir o patrocínio de R$ 20 milhões do Carnaval de rua, deveria oferecer 200 câmeras para monitorar os locais de maior aglomeração de público. A empresa contratou a GWA Systems para realizar esses serviços. Os equipamentos instalados na última sexta (2) foram interligados ao sistema City Câmeras da prefeitura.

A GWA Systems tinha autorização da prefeitura para instalar o equipamento?

A CET e a Ilume, órgão da prefeitura que cuida da iluminação pública, afirmaram que não foram informadas da instalação e não a autorizaram.

O que diz a empresa?

Segundo o dono da GWA Systems, Arthur José Malvar de Azevedo, a instalação foi feita com autorização verbal de funcionários da CET. Ele não comentou a eventual necessidade de obter uma autorização formal e defende que seja feita perícia para constatar a real causa da morte do rapaz.

É permitido fazer instalação em postes da CET?

 Apenas mediante autorização expressa do órgão. Mesmo assim, muitos pedidos não são aceitos.

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