Domingo

Meninas tatuadas e de cabelo curto deslizam sobre skates; uma garotinha de bicicleta rosa bebe um coco verde

 

 

Das sombras gothamcíticas da estação Marechal Deodoro, recendendo a monóxido de carbono e dejetos humanos, para o platô suspenso onde corredores, ciclistas, crianças de patinete e casais de mãos dadas se divertem sob o sol, o contraste é tão grande que me pergunto se não deveríamos chamar o Minhocão, aos domingos, de Enlevado João Goulart. Subo correndo rumo ao sol e à Consolação.

Meninas tatuadas e de cabelo curto deslizam sobre skates enormes. Uma garotinha de bicicleta rosa, vestido rosa, capacete rosa, cotoveleiras rosa e joelheiras rosa bebe um coco verde com canudos rosa. Um pai bate bola com o filho. Imagino que ele seja porteiro num prédio da região, que seja separado, que pegue o menino aos domingos. Na sacada de um prédio, um travesti fuma um cigarro, de roupão. Na mureta central, uns dez senhores e senhoras, todos de branco, fazem uma meditação coletiva. Maior contraste entre a atividade e a localização, só um balé aquático no rio Pinheiros. Às vezes tem a turma do tai chi. Às vezes tem teatro de fantoches. Pais e mães com um bando de crianças pintam o asfalto com gizes coloridos.

Parecem gringos. Desvio para passar mais perto. São. Ingleses? Escoceses? Irlandeses? Adolescentes improvisam minifestas e dançam em torno de caixas de som, Heinekens nas mãos e purpurina no rosto.

Nos 3,4 km de asfalto não tem nenhum banheiro químico, nenhuma grama, nenhuma planta, quase nenhuma sombra, mas o antijardim suspenso parece tão distante da Babilônia logo abaixo que nos sentimos no Ibirapuera, na lagoa Rodrigo de Freitas, na praia.

Cruzo a Consolação. Subo a Augusta. A noite passada ainda bafeja nas calçadas. Cerveja. Bitucas. Mijo. Vômito. Na porta de um bar, numa batalha inglória contra a rotação da Terra, jovens de preto se agarram ao sábado, ao vinho vagabundo e ao latão de Skol. Brindo-os com um coquetel de 60% de pena, 30% de assombro, 10% de admiração. Há ali desespero juvenil, falta de perspectiva, mas também há revolta saudável e uma pitada de meditação na mureta. Em algum ponto do infinito, budistas e punks se encontram. Nirvana. No future.

Chego à Paulista: é o Minhocão ao cubo. A cada quarteirão, duas, três bandas nas calçadas. Blues, baião, metal, reggae, rap, bolivianos tocando Yesterday em flautinhas de bambu, um cover do Elvis e outro do Raul. Diante do Center 3, dezenas fazem uma ginástica-dança, seguindo um instrutor. Na frente do Masp, dez meninas de vermelho constroem uma pirâmide humana.

Há velhos e crianças. Pretos e brancos. Pobres e ricos. Cadeirantes e atletas. Homens e mulheres de mãos dadas. Homens e homens de mãos dadas. Mulheres e mulheres de mãos dadas. É a Legoland da diversidade. É o contrário de São Paulo, mas também é muito São Paulo. Do túmulo do samba dos Joões Dorias jazigos, cemitérios do samba pipocam os possíveis novos quilombos de Zumbi. Zumbis de dread. Zumbis de cabelo verde. Zumbis marombados. Zumbis do THC. Zumbis de biquíni. Zumbis beijando na boca. Zumbis a pé, ao sol, ensinando seus Zumbizinhos a andarem de bicicleta e tomando a cidade numa manhã de domingo.

Quando chego em casa, uma hora mais tarde, até acredito que São Paulo pode ser uma metrópole decente. Deve ser a endorfina. Ou os vapores da Augusta embaralhando meus neurônios.

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