Marielle Franco é sepultada sob aplausos e gritos de protesto no Rio

Pelo menos 11 capitais farão manifestações de repúdio à violência

Velório da vereadora Marielle Franco, morta a tiros no Rio de Janeiro
Velório da vereadora Marielle Franco, morta a tiros no Rio de Janeiro - Ricardo Borges/Folhapress
São Paulo e Rio de Janeiro
Centenas de pessoas acompanharam, na tarde desta quinta (15), o sepultamento da vereadora Marielle Franco (PSOL) no Cemitério do Caju, no Rio. A cerimônia ocorreu sob gritos e aplausos de políticos, amigos e familiares.
 
A família não permitiu que a imprensa acompanhasse o enterro, que aconteceu por volta das 18h. No início da cerimônia, um padre fez uma breve fala e disse que há uma "matança de pobres". 
 
O velório de Marielle e do motorista Anderson Gomes ocorreu na Câmara Municipal. Muito aplaudidos, os caixões chegaram ao palácio por volta das 14h30, carregados por colegas e políticos, como Chico Alencar e o deputado estadual Marcelo Freixo. Mulheres formaram um cordão na frente do prédio para recebê-los. A cerimônia foi fechada.
 

Um ato foi realizado na praça da Cinelândia, em frente à Câmara do Rio. Uma multidão de manifestantes levou flores e cartazes contra a intervenção federal na cidade. Eles também fizeram coro contra a Polícia Militar.

Políticos e colegas da Câmara também estiveram no local. Uma das principais lideranças do PSOL, o deputado federal Chico Alencar fez um discurso na escadaria do Palácio e disse que as famílias pediram uma cerimônia reservada. Ele disse que há "opressão" e pediu uma vigília em memória à vereadora, com "serenidade". 

Os organizadores do ato se revezaram em discursos na frente da Câmara, nos quais repetiram o lema "Marielle, presente", e na leitura de notas de pesar de movimentos de todo o país.

A cantora Zelia Duncan esteve no ato e disse que o momento é de luto e pediu mobilizações de rua.

Manifestantes colaram cartazes em memória à vereadora e jogaram tinta vermelha em um monumento e na fachada do prédio da Câmara.

Líderes religiosos participaram do ato e pediram orações. Roberto Cavalcanti, da Assembleia de Deus, disse que o crime representa a morte "da esperança"

"Crime bárbaro, que revela o estado em que a nossa sociedade está. É preciso repensar a necessidade de PM, de proibição das drogas, dessa guerra desnecessária", disse o ator Caio Blat.

Para o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), Marielle lutava contra o "discurso de ódio que diz que bandido bom é bandido morto".

Além do ato na Cinelândia, uma multidão protestou também em frente à Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro).

Em coro, as pessoas pediam justiça e o fim da Polícia Militar. Um dos coros entoados dizia "Sem hipocrisia, a PM mata gente todo dia". Na escadaria da Assembleia, carregavam faixas que diziam "Quem matou Marielle Franco?" e "Não Recuaremos, Marielle vive".

Policiais Militares policiavam as ruas São José e Dom Manuel, ao lado e atrás da escadaria onde estão os manifestantes. O protesto é pacífico e não há sinais de conflito. 

Os manifestantes também pediram a saída do presidente Michel Temer e do governador Luiz Fernando Pezão, além do fim da intervenção federal no Rio.

"Sinto uma perda da fé, da crença nas instituições com o que aconteceu", afirmou Tainá de Paula, 29. "A população negra continua sendo assassinada sem haver consequências".

Por volta das 18h30, eles saíram da Alerj em direção à Candelária.

No fim do dia começou também uma manifestação em São Paulo, no vão livre do Masp (Museu de Arte de São Paulo).

Pelo menos 11 capitais também fazem manifestações nesta quinta em alusão à morte da vereadora, como Salvador, Brasília, Recife, Belém, Natal, Florianópolis, Belo Horizonte, Porto Alegre e Curitiba. 

INTERVENÇÃO

Marielle Franco, 38, foi morta na noite de quarta, junto do motorista Anderson Pedro Gomes, 39, quando voltavam de uma roda de conversa intitulada “Jovens Negras Movendo Estruturas”. O carro em que estavam foi atingido por nove tiros. A polícia trabalha com a hipótese de execução. Uma assessora que estava no banco de trás sobreviveu.

O assassinato da vereadora ocorreu dois dias antes de a  intervenção federal na segurança pública do estado completar um mês. A medida, inédita, foi anunciada pelo presidente Michel Temer (MDB) em 16 de fevereiro, com o apoio do governador Luiz Fernando Pezão, também do MDB.

Temer nomeou como interventor o general do Exército Walter Braga Netto. Ele, na prática, é o chefe das forças de segurança do Estado, como se acumulasse a Secretaria da Segurança Pública e a de Administração Penitenciária, com PM, Civil, bombeiros e agentes carcerários sob o seu comando.

O Rio de Janeiro passa por uma grave crise política e econômica, com reflexos diretos na segurança pública. Desde junho de 2016, o Estado está em situação de calamidade pública e conta com o auxílio das Forças Armadas desde setembro do ano passado. 

Não há recursos para pagar servidores e para contratar PMs aprovados em concurso. Policiais trabalham com armamento obsoleto e sem combustível para o carro das corporações. Faltam equipamentos como coletes e munição.

A falta de estrutura atinge em cheio o moral da tropa policial e torna os agentes vítimas da criminalidade. Somente no ano passado 134 policiais militares foram assassinados no estado.

Policiais, porém, também estão matando mais. Após uma queda de 2007 a 2013, o número de homicídios decorrentes de oposição à intervenção policial está de volta a patamares anteriores à gestão de José Mariano Beltrame na Secretaria de Segurança (2007-2016). Em 2017, 1.124 pessoas foram mortas pela polícia.

Em meio à crise, a política de Unidades de Polícia Pacificadora ruiu –estudo da PM cita 13 confrontos em áreas com UPP em 2011, contra 1.555 em 2016. Nesse vácuo, o número de confrontos entre grupos criminosos aumentou.

Apesar da escalada de violência no Rio, que atingiu uma taxa de mortes violentas de 40 por 100 mil habitantes no ano passado, há outros Estados com patamares ainda piores.

No Atlas da Violência 2017, com dados até 2015, Rio tinha taxa de 30,6 homicídios para cada 100 mil habitantes, contra 58,1 de Sergipe, 52,3 de Alagoas e 46,7 do Ceará, por exemplo.

Felipe Bächtold, Marcelo Toledo , Luisa Leite e Lucas Vettorazzo

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