Partido espanhol ataca governo brasileiro após morte de vereadora

Em discurso no Parlamento Europeu, Podemos pediu suspensão de acordo comercial com o Mercosul

Diogo Bercito
Madri

Com um duro discurso contra o governo brasileiro, o partido espanhol Podemos condenou na quinta-feira (15) o assassinato da vereadora Marielle Franco e pediu que a União Europeia suspenda as negociações do acordo comercial com o Mercosul.

O porta-voz dessa sigla de esquerda, Miguel Urbán, discursou ao Parlamento Europeu em Estrasburgo, na França, diante de uma placa com o texto “Marielle presente”. Ele se referiu à vereadora morta a tiros no Rio como uma “anticapitalista assassinada em um clima de violência política pré-eleitoral”.

Apoiado por outros eurodeputados, Urbán pediu que a Comissão Europeia (o braço Executivo do bloco) condene publicamente a morte de Marielle e exigiu que o Brasil abra uma investigação “independente, rápida e exaustiva que permita haver justiça.”

O Podemos enviou também uma carta para a responsável europeia para as relações exteriores, Federica  Mogherini, e para a representação diplomática brasileira na União Europeia. Mais de 50 deputados, incluindo outros partidos de esquerda, se uniram ao protesto do Podemos.

"A defesa das populações oprimidas e discriminadas deveria ser uma prioridade para a União Europeia”, diz a carta de Urbán. “O assassinato de Marielle Franco tem a intenção de amedrontar os defensores dos direitos humanos, assim como influenciar as campanhas eleitorais realizadas neste ano. Queremos manifestar o nosso mais profundo rechaço a esse assassinato e exigir que a Comissão Europeia suspenda essas negociações comerciais de maneira imediata.”

À reportagem, por telefone, o deputado disse que a morte de Marielle "comoveu bastante o partido" e que, por isso, organizaram o protesto na plenária. Cerca de 70 cartazes foram distribuídos entre legisladores de diferentes grupos. "A pouco tempo de fechar um acordo comercial, esta questão é muito importante e nos chama a atenção."

Apesar de Urbán representar apenas o Podemos, e não o governo espanhol, seu duro discurso pode afetar a percepção pública sobre um já controverso acordo comercial entre União Europeia e Mercosul. A Espanha é hoje um dos principais entusiastas desse tratado, enquanto países protecionistas, como a França, são contra —houve amplos protestos de agricultores franceses nos últimos meses, rejeitando a carne brasileira.

Não é a primeira vez em que o Podemos critica abertamente o governo brasileiro, em especial após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Urbán se refere à administração do presidente Michel Temer como “golpista” e diz que o assassinato de Marielle “foi deliberado”, em um ano eleitoral.

Xavier Benito, também eurodeputado do Podemos e vice-presidente da delegação do Parlamento Europeu para as negociações com o Mercosul, disse que as políticas do atual governo brasileiro são “responsáveis pelo aumento das desigualdades e da violência no país”.

“Demonstramos toda a nossa solidariedade às companheiras e companheiros, aos amigos e familiares de Marielle, e nós seguiremos defendendo no Parlamento Europeu o papel desempenhado por pessoas que, como ela, arriscam suas vidas nesta luta”, afirmou Benito. 

INTERVENÇÃO

Marielle Franco, 38, foi morta na noite de quarta, junto do motorista Anderson Pedro Gomes, 39, quando voltavam de uma roda de conversa intitulada “Jovens Negras Movendo Estruturas”. O carro em que estavam foi atingido por nove tiros. A polícia trabalha com a hipótese de execução. Uma assessora que estava no banco de trás sobreviveu.

O assassinato da vereadora ocorreu dois dias antes de a intervenção federal na segurança pública do estado completar um mês. A medida, inédita, foi anunciada pelo presidente Michel Temer (MDB) em 16 de fevereiro, com o apoio do governador Luiz Fernando Pezão, também do MDB.

emer nomeou como interventor o general do Exército Walter Braga Netto. Ele, na prática, é o chefe das forças de segurança do estado, como se acumulasse a Secretaria da Segurança Pública e a de Administração Penitenciária, com PM, Civil, bombeiros e agentes carcerários sob o seu comando.

O Rio de Janeiro passa por uma grave crise política e econômica, com reflexos diretos na segurança pública. Desde junho de 2016, o estado está em situação de calamidade pública e conta com o auxílio das Forças Armadas desde setembro do ano passado. 

Não há recursos para pagar servidores e para contratar PMs aprovados em concurso. Policiais trabalham com armamento obsoleto e sem combustível para o carro das corporações. Faltam equipamentos como coletes e munição.

A falta de estrutura atinge em cheio o moral da tropa policial e torna os agentes vítimas da criminalidade. Somente no ano passado 134 policiais militares foram assassinados no estado.

Policiais, porém, também estão matando mais. Após uma queda de 2007 a 2013, o número de homicídios decorrentes de oposição à intervenção policial está de volta a patamares anteriores à gestão de José Mariano Beltrame na Secretaria de Segurança (2007-2016). Em 2017, 1.124 pessoas foram mortas pela polícia.

Em meio à crise, a política de Unidades de Polícia Pacificadora ruiu –estudo da PM cita 13 confrontos em áreas com UPP em 2011, contra 1.555 em 2016. Nesse vácuo, o número de confrontos entre grupos criminosos aumentou.

Apesar da escalada de violência no Rio, que atingiu uma taxa de mortes violentas de 40 por 100 mil habitantes no ano passado, há outros estados com patamares ainda piores.

No Atlas da Violência 2017, com dados até 2015, Rio tinha taxa de 30,6 homicídios para cada 100 mil habitantes, contra 58,1 de Sergipe, 52,3 de Alagoas e 46,7 do Ceará, por exemplo.

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