Câmara dos Deputados faz sessão em homenagem a Marielle Franco

Maia foi hostilizado por militantes; redes são tomadas por postagens de apoio de artistas

Angela Boldrini Marcelo Toledo
Brasília e Ribeirão Preto

"Companheira, me ajuda, que eu não posso andar só. Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor" era a canção entoada nos corredores da Câmara dos Deputados na manhã desta quinta-feira (15), durante manifestação em homenagem à vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada na quarta (14) no Rio de Janeiro.

Aos gritos de "Marielle, presente!", parlamentares, servidores e militantes caminharam até o plenário da Casa segurando girassóis para pedir agilidade na apuração da morte da vereadora carioca de 38 anos e o fim da Polícia Militar e da intervenção federal na segurança pública do estado do Rio. 

"Quantas de nós ainda teremos que morrer para entenderem que o racismo mata, destrói?", disse na tribuna a estudante de filosofia da UnB Ana Luiza Guimarães, para um plenário cheio. 

"Nós estamos aqui por você, Marielle, para dizer que a nossa luta não acabou, que a resistência pode doer e dói, como dói resistir, mas vamos estar de pé lutando para que nenhum jovem negro padeça mais nas periferias do Brasil", disse a estudante, recebendo aplausos. 

A sessão solene durou cerca de uma hora e foi presidida pelo presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que escutou gritos de "fora, Maia" e "golpista".

No plenário foram estendidos cartazes e faixas com dizeres como "parem de matar os jovens negros", "a Maré chora a execução de sua filha" e "parem de nos matar". Também foram entoadas palavras de ordem como "fora, Temer" e "não acabou, tem que acabar/eu quero o fim da Polícia Militar". 

Deputadas como Maria do Rosário (PT-RS), Janete Capiberibe (PSB-AP), Professora Dorinha (DEM-TO), Luiza Erundina (PSOL-SP), Erika Kokay (PT-DF) e Jô Moraes (PC do B-MG) discursaram na tribuna da Casa. 

"Cada um de nós, sobretudo as mulheres, nos sentimos morrendo um pouco no dia de hoje", disse Erundina. 

Com os olhos inchados, o deputado Jean Wyllys (RJ), correligionário de Marielle, fez fala breve e pediu que Maia instalasse comissão externa para a apuração do crime. 

Compareceram à sessão ainda deputados como Júlio Delgado (PSB-MG), Miro Teixeira (REDE-RJ), Arlindo Chinaglia (PT-SP) e Edmilson (PSOL-PA). 

Presenças deslocadas no plenário ocupado por membros de partidos da oposição, o presidente da "bancada da bala", Alberto Fraga (DEM-DF), e um dos líderes da bancada evangélica, Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), subiram à mesa diretora no meio da sessão, falaram com Maia e se retiraram.

Marielle e seu motorista foram assassinados a tiros na noite desta quarta, na zona norte do Rio de Janeiro. Uma assessora que os acompanhava sobreviveu.

O corpo de Marielle será velado na Câmara dos Vereadores na capital fluminense. 

REDES SOCIAIS

Um clima de indignação com o assassinato da vereadora do Rio Marielle Franco (PSOL) tomou conta de comentários de políticos, empresários e artistas nas redes sociais e em eventos nesta quinta-feira (15).

A ex-presidente Dilma Rousseff disse em sua postagem numa rede lamentar e repudiar o assassinato de Marielle e do motorista Anderson Pedro Gomes.

“Tristes dias para o país onde uma defensora dos direitos humanos é brutalmente assassinada. Ela lutava por tempos melhores, como todos nós que acreditamos no Brasil. Devemos persistir e resistir nesse caminho”, escreveu.

Guilherme Boulos, pré-candidato à Presidência pelo PSOL, disse que “o momento é de muita dor para quem luta”. “Não há dúvidas de que foi uma execução, um crime político. Marielle fazia da denúncia a execuções como essa o centro da sua valorosa militância. Precisamos seguir seu exemplo e lutar por justiça até as últimas consequências. Os tiros que mataram Marielle e Anderson não podem ser esquecidos.”

Durante participação no Fórum Econômico, Candido Bracher, CEO do Itaú Unibanco, também lamentou a morte de Marielle num debate na manhã desta quinta. “Tristeza pelo fato e desejo que seja esclarecido com máxima rapidez”, disse ele, que foi aplaudido em seguida.

Já o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) disse que será exigida uma investigação rigorosa do crime. “Estou chocado, triste, chorando, furioso, indignado, em um estado emocional que não permite falar muito. Marielle era minha amiga, antes de ser companheira, vereadora ou qualquer outra coisa. Era uma pessoa extraordinária, carinhosa, inteligente, corajosa, boa.”

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se solidarizou a familiares e amigos da vereadora, apontada por ele como “corajosa liderança política”. “O Rio de Janeiro e a democracia brasileira foram atingidos por esse crime político bárbaro.”

ARTES

O cantor e compositor Caetano Veloso usou a hashtag #JustiçaParaMarielle e postou a letra da música “Estou Triste”. “Estou triste, tão triste/Estou muito triste”, diz trecho da canção.

A também cantora Elza Soares foi outra personalidade a lamentar o crime. “Das poucas vezes que me falta a voz. Chocada. Horrorizada... Toda morte me mata um pouco. Dessa forma me mata mais. Mulher, negra, ativista, defensora dos direitos humanos. Marielle Franco, sua voz ecoará em nós. Gritemos!”

A atriz Mônica Iozzi cobrou investigação séria do assassinato e disse estar arrasada.

“Ela acaba de ser assassinada. A doce e forte Marielle Franco. Estava vereadora no Rio de Janeiro. Eu a conhecia. Ela lutava pela paz, por oportunidades iguais para todos. Denunciava a corrupção na Câmara, na polícia... É assim que terminam as pessoas que lutam por justiça neste país?”, questionou.

 O rapper Emicida foi outro a se manifestar, ao dizer que, após o novo episódio de violência, “nossas esperanças se despedaçam a cada dia que passa, muito triste”.
 

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