Em Moçambique, idioma português se mistura com as línguas maternas

Em Maputo, capital do país, é comum ouvir conversas que mesclam as línguas oficial e nativas

Estudantes moçambicanas conversam encostadas em carro verde, parado em rua da capital Maputo

Estudantes moçambicanas conversam encostadas em carro em rua da capital Maputo Marcus Leoni/Folhapress

Cláudia Collucci
Maputo (Moçambique)

​Adotado como língua oficial em 1975, após a independência do país, o português de Moçambique vive o paradoxo de ser considerado pelo governo uma ferramenta de unidade nacional ao mesmo tempo que só é falado por metade da população.

O país africano foi um dos visitados pela Folha para o projeto “O Tamanho da Língua”, que reúne histórias e curiosidades a respeito do idioma português.

Segundo o censo de 2007, 50,4% dos moradores falam português (80,8%, nas áreas urbanas e 36,3%, nas rurais). A maioria, porém, não o considera língua nacional.

O país tem oficialmente 20 línguas maternas. As mais faladas são a macua (26,3%) e a changana (11,4%).

A porta da entrada para o aprendizado do português é a escola. No entanto, quase metade da população (45%) é analfabeta.

Na prática, os moçambicanos consideram o português uma segunda língua, que é bastante influenciada (estruturas gramatical, discursiva e retórica) pela língua mãe.

Em Maputo, capital do país, é comum ouvir conversas que misturam as línguas.

“Se a pessoa não percebe [entende] uma palavra em português, percebe em changana. Então mistura as duas [línguas] para contar uma história”, diz a cantora Xixel Langa, 34, que usa dessa estratégia nas músicas.

Ela conta que, às vezes, mesmo entre os moçambicanos a comunicação apenas em português é difícil. “Além das línguas maternas, temos mais de cem dialetos e muitos sotaques. Eles vão transformando o português falado em cada região.”

O padre Fernando Jeco, 48, que já viajou por todo o país, explica que na região sul as pessoas tendem a nasalar as palavras. Quando falam creche, por exemplo, sai “crenche.” No centro, afirma, é comum trocarem o “t” pelo “d”.

“Em vez de falarem Tete, sai Dede. Já no sul, ocorre a troca do ‘b’ pelo ‘p’. Pancada vira bancada”, diz. Para Jeco, é preciso respeitar e valorizar essas diferentes falas. “Elas criam a beleza linguística, um mosaico cultural.”

Na família do padre, fala-se ronga. Ele aprendeu o português em idade escolar. “Se eu sei que a pessoa fala minha língua, vou querer falar em ronga. É natural. Na hora da aflição, busco expressões na língua materna.”

A professora de linguística Julieta Langa, 59, também aprendeu português na escola. Na sua casa, até hoje fala-se ronga e changana. “O português não é usado como língua de comunicação.”

Ao mesmo tempo, ela se diz encantada pela língua oficial do país. “Foi meu passaporte para a vida.”

CHACOTAS

O professor de literatura Nataniel Ngomane, 56, presidente do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa de Moçambique, explica que outra situação muito comum é a pessoa falar o português, mas, para reforçar uma ideia, recorrer à língua materna.

“Falo três línguas maternas. Chope, por parte de mãe, xítsua, do pai, e ronga com os amigos. Sinto muito orgulho disso”, afirma.

Não é o que acontece com a nova geração, segundo Ngomane. A diversidade de línguas maternas e dos sotaques, acentos e sonoridades que caracterizam o português moçambicano são motivos de chacota entre os mais jovens.

“Tive uma aluna de Nampula [norte do país] que era vítima de gozação por causa do sotaque pesado, associado aos pobres, camponeses. Passei uma aula explicando que é essa diversidade que enriquece a nossa cultura.”

Muitos jovens também não sabem falar a língua materna. “Têm preconceito, consideram línguas inferiores. Falam mal e porcamente o português e acreditam que é mais bonito falar inglês.”

Homem carrega sacolas próximo de carros enquanto atravessa avenida na cidade de Maputo, capital de Moçambique
Homem carrega sacolas por avenida na cidade de Maputo, capital de Moçambique - Marcus Leoni/Folhapress

O serralheiro João Francisco Mafumbe, 24, enxerga um “choque linguístico” entre gerações. “Estamos a ver netos que não conversam com os avós porque não falam a língua materna. E os mais velhos não falam português.”

Entre os jovens de Moçambique, há uma onda de palavras inventadas, que misturam português e inglês. Dois exemplos são o “jobar” (job + trabalhar) = ir trabalhar, e o biznar = vender, fazer negócio (business).

ASSIMILAÇÃO

Estudiosos apontam razões históricas para o preconceito que cerca as línguas maternas. Entre elas, a política de assimilação adotada pelo governo português no período de expansão colonial. O moçambicano só se tornava cidadão pleno se fosse capaz de falar e escrever português. 

“Além de aprender a língua portuguesa, os assimilados passaram a comer de faca e garfo e a se vestir como os portugueses, deixando para trás a própria cultura, desprezando a língua materna.”

Embora no país haja movimentos para o resgate das tradições, da valorização da própria cultura, ainda há resquícios desse passado, segundo o professor Ngomane.

“Muita gente ainda tem vergonha da sua cultura, das suas origens. Vejo mulheres preferindo usar perucas feitas com cabelo de gente morta a assumir o cabelo carapinha”, diz ele, que usa penteado rastafári há mais de 20 anos.

Erramos: o texto foi alterado

O professor Nataniel Ngomane é presidente do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa, não do Fundo Nacional de Língua Portuguesa de Moçambique. Uma das línguas maternas faladas pelo professor é ronga, não ronda. 

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