Descrição de chapéu cracolândia PM

Com homem espancado por usuários, cracolândia tem novo tumulto

Ação de zeladoria motivou confusão, algo que tornou-se rotineiro na área

Paulo Gomes
São Paulo

Um tumulto na tarde desta sexta-feira (25) gerou grande mobilização policial na cracolândia, no centro de São Paulo. Um homem que passava pelo local chegou a ser cercado e espancado pelos usuários de drogas, que queriam assaltá-lo.

De acordo com a Secretaria Municipal de Segurança Urbana, responsável pela GCM, a confusão ocorreu por causa da ação de zeladoria no final da tarde —transtorno que tem sido comum na região.

Barreira de contenção de guardas civis na praça Júlio Prestes impede que fluxo de usuários deixe concentração na alameda Cleveland, ao fundo
Barreira de contenção de guardas civis na praça Júlio Prestes impede que fluxo de usuários deixe concentração na alameda Cleveland, ao fundo - Paulo Gomes/Folhapress

"Não vi o que aconteceu porque tivemos que fechar a loja", diz a funcionária de uma sapataria na avenida Duque de Caxias. Ela afirma que o ocorrido é frequente. "Foi a segunda vez só nesta semana."

Os usuários são dispersados duas vezes por dia da região da alameda Cleveland e da rua Helvétia para a limpeza das vias. Segundo a pasta, os dependentes químicos espalharam lixo e atearam fogo na segunda limpeza desta sexta. A Guarda Civil então fez uma barreira de contenção e pediu o apoio da Polícia Militar.

Ainda segundo a secretaria, não houve confronto. A reportagem presenciou ao menos o uso de bombas de efeito moral para a dispersão das pessoas. Viaturas da PM bloquearam o trecho da Duque de Caxias entre a avenida Rio Branco e a praça Júlio Prestes.

Bombeiros apagaram os focos de incêndio, enquanto a polícia direcionou os usuários para as ruas em direção à praça. Motos da PM (Rocam) fizeram a ronda nessas vias.

Um transeunte que observava essa ação teve o celular roubado por outro homem e correu atrás dele, para dentro da concentração de usuários na alameda Cleveland. Ele foi cercado e espancado.

"Eu estava ouvindo música com o celular na mão, ele veio por trás já me tomando [o aparelho] e correu lá para o meio", disse o homem de 47 anos, um prestador de serviços da Porto Seguro que não quis se identificar. A reportagem presenciou, porém, ele filmando minutos antes.

"Aí eu fui atrás, eles fecharam em mim e começaram a me bater, só na cara. Me protegi com um braço e levantei o outro pra pedir socorro."

Uma unidade de canil da GCM entrou no fluxo de usuários e resgatou o homem. "Enquanto eles me batiam tentaram roubar a minha carteira, mas consegui segurar", disse, com o rosto marcado por escoriações. Ele não quis ir para um hospital e foi orientado a abrir um boletim de ocorrência sobre o roubo do celular.

Rescaldo do fogo na avenida Duque de Caxias e barreira policial interrompem trânsito; ao fundo, a praça Júlio Prestes
Rescaldo do fogo na avenida Duque de Caxias e barreira policial interrompem trânsito; ao fundo, a praça Júlio Prestes - Paulo Gomes/Folhapress

O volume de dependentes químicos na região da cracolândia diminuiu desde a ação policial de maio de 2017, mas a concentração de usuários persiste na alameda Cleveland. 

Um dos estopins para ação policial em maio passado foi a morte do socorrista Bruno de Oliveira Tavares, 34, que foi sequestrado e morto ao tentar socorrer um usuário.

Desde novembro, ao menos, moradores e trabalhadores da área dizem haver um clima diário de tensão, com recorrentes lançamentos de bombas pela polícia e ataques com pedras e tijolos pelos usuários.

Agentes de saúde e dependentes dizem que a estratégia da prefeitura é cansar os usuários e fazê-los sair de lá, o que a gestão nega.​​


Escalada de tumultos na área da cracolândia

Jan.2012 PM ocupa as principais ruas da Luz e dependentes se dispersam

29.abr.2015 Operação desarticulada da prefeitura e do estado transforma o centro em uma praça de guerra

5.ago.2016 Polícia realiza ação com 500 homens

8.mai.2017 Corpo de socorrista desaparecido após buscar viciada no fluxo é encontrado 

21.mai.2017 Megaoperação do governo estadual desarticula fluxo de usuários, que retorna após um mês, em menor número

28.set.2017 Guardas encurralam dependentes em tenda da prefeitura e lançam bombas; gestão precisou se explicar ao Ministério Público

Mai.2018 Governo entrega prédios na região e conflitos se intensificam

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