Descrição de chapéu maternidade dia das mães

Descompasso real entre maternidade e trabalho vira piada em novo livro

Desigualdade de gênero fomenta dilema de mães e é retratada por roteirista

Fabiane Langona
Fernanda Mena
São Paulo

“Eu tenho dois filhos e sofro a pressão velada de fingir que eles não existem quando eu estou numa reunião por telefone.”

Essa é uma das muitas tiradas sarcásticas e divertidas que a escritora e roteirista norte-americana Kimberly Harrington usa para descrever dilemas da mulher contemporânea sobre maternidade e vida profissional.

Elas estão no livro “Amateur Hour: Motherhood in Essays and Swear Words” (coisa de amador: maternidade em ensaios e xingamentos, Harper Perennial, R$ 38 em ebook na livrariacultura.com.br), recém-lançado nos EUA.

Harrington, mãe de um casal de adolescentes, faz uma abordagem franca e contundente da chamada “maternidade real”, em que a expectativa plenitude, satisfação e harmonia são temperadas por medos, frustrações e noites maldormidas.

“O título do livro remete a alguém que não sabe o que está fazendo, o que nos pareceu adequado tanto para a parentalidade em geral como para a maternidade especificamente”, brinca Harrington, por telefone, à Folha.

A obra ganhou atenção antes mesmo de seu lançamento ao ter trechos publicados no The New York Times e na revista New Yorker.

“Achei que estava escrevendo sobre mim, de maneira aberta e honesta. Mas o tamanho da repercussão me fez perceber que havia tocado em pontos que vão além da minha experiência pessoal”, afirma.

Para ela, a maternidade é uma espécie de retorno à puberdade: repleta de inseguranças e vulnerabilidades.

“Eu estava tão bem resolvida nos meus 30 anos, quando tive meu primeiro filho... E foi humilhante ver minha confiança ruir diante de uma criança que evidenciava como eu não tinha controle sobre as coisas.”

Harrington lembra que passou a encarar o mundo como ameaça ao filho: tomadas, uvas não-cortadas, quinas de mesas.

Sensação semelhante acometeu a roteirista e colunista da Folha Tati Bernardi, junto com a chegada de sua primeira filha, três meses atrás.

“Ando sofrendo muito de medos. Que ela fique doente, gripada, tenha dor, fique triste, engasgue etc. E isso é terrível. Eu nunca mais tive paz e sinto muita falta de dormir por dez horas seguidas.”

Os ensaios de Harrington tratam da exaustão ("Não tinha noção do que era ser privada de sono. Todo fim de tarde, me dava um frio na barriga. Será que vou sobreviver?") e da montanha-russa emocional, com especial atenção para o desarranjo entre filhos e trabalho. Segundo ela, ser mãe é um trabalho em tempo integral ainda que você já tenha um emprego formal em tempo integral.

“Você nunca vai encontrar alguém mais eficiente do que uma mãe. Ao mesmo tempo, olham para ela como se os filhos a tornassem menos eficiente”, afirma. “Só que ninguém pensa isso sobre homens que são pais! É muito irritante!”

Ela avalia que a força do recente debate sobre assédio, fomentado por campanhas como #MeToo e Time’s Up, abriu caminho para que mulheres questionassem “como as coisas funcionam” em outras áreas.

“Se um negócio foi criado por um homem, terá sido desenhado para funcionar para homens, e não para mães. Faz sentido. Até porque as mães não faziam parte da força de trabalho até relativamente pouco tempo atrás”, explica.

Para a jornalista Barbara Soalheiro, 37, que criou sua empresa em 2013 (ano em que nasceu o primeiro de seus três filhos), parte do problema se deve ao fato de as mulheres esconderem a maternidade da vida profissional. “Sempre tive a sensação de que elas precisavam provar sua competência, e que parte dessa fragilidade tinha a ver com o fato de algumas serem mães.”

Ela cita o livro da executiva do Facebook Sheryl Sandberg, “Faça Acontecer”, em que ela conta que costumava sair mais cedo do trabalho, mas não dizia que o fazia para buscar os filhos na escola porque se sentia constrangida.

“Acho que o caminho é justamente o contrário, é falar sobre isso, porque existe uma equação que não fecha e sobrecarrega as mulheres”, diz. “Muita gente me vê trabalhando até de madrugada e se surpreende quando descobre que tenho três filhos. Mas ninguém fica surpreso quando meu marido conta que é pai de três.”

Para Duda Kertesz, 45, presidente da divisão de saúde da Johnson e Johnson nos EUA, e mãe de um casal, "conciliar trabalho e maternidade não é fácil em nenhuma profissão, em nenhuma posição e em nenhuma fase da vida".

"Já fiz muitas escolhas que privilegiaram o trabalho e não os filhos, e prefiro pensar que muitíssimas outras privilegiaram meus filhos, e não o trabalho", conta ela, que já se ausentou num aniversário da filha por causa de uma viagem inescapável à Índia.

"Eu me senti péssima, e chorei horrores, ainda que soubesse que a decisão estava certa. Ela me cobra e reclama até hoje..."

A vice-presidente de marketing, inovação e sustentabilidade da Natura —e mãe de três filhos—, Andrea Alvares, 46, já fez "muito bate-e-volta em Nova York por causa dos filhos", e avalia ser muito importante deixar claro na empresa que ela vai trabalhar de casa ou sair mais cedo para ficar com eles..

“Acho que quem ocupa posição de liderança como eu tem o papel de dar o exemplo desse comportamento.”

COMPARTILHAR CUIDADOS

Para a executiva, “seja por hábito, inércia ou cultura, as mães assumem fatia maior que seus companheiros no cuidado com os filhos, acumulando funções que se mostram insustentáveis no tempo”.

Harrington ilustra esse ponto ao ironizar o modo como ela e o marido chegam em casa. No caminho da porta até o banheiro, ela junta brinquedos do chão, realoca coisas fora de lugar, assoa o nariz da filha e tira o jantar da geladeira.

“Meu marido simplesmente entra e, passando por cima das coisas pelo caminho, vai ao banheiro. Fim”, ri.

Para a autora, em muitos casos (mas não no exemplo da entrada do marido, ela deixa claro), a postura da mulher promove esse descompasso.

Isso porque algumas mães tendem a achar que só elas conseguem fazer certas coisas e, por isso, não conseguem pedir ajuda. "Elas precisam se perguntar: 'Eu quero que meu marido faça ou quero dizer a ele como fazer?' Não dá pra ter as duas coisas."

Alvares diz que só quando se divorciou conseguiu criar um arranjo mais igualitário. “Passei a ver meu ex-marido fazendo várias coisas que eu achava que ele não faria sozinho.”

A médica mineira Júlia Rocha, 35, mãe há pouco mais de um ano, vive situação oposta.

“Trabalho 56 horas por semana, e meu marido trabalha em casa, então ele faz o que esperavam que eu fizesse”, relata. “Ainda que eu seja bem resolvida com esse arranjo, quando chego em casa e percebo que perdi tantas horas de intimidade com a criança, corro para compensar.”

​INIMIGOS DA BOA MATERNIDADE

Em seu livro, Harrington aponta que as mães vivem em constante expectativa de serem perfeitas, mesmo que estejam “mais perdidas e frágeis” do que nunca.

“É impossível fazer tudo com perfeição, ainda que as pessoas nas redes sociais criem a ilusão de que são mães perfeitas e profissionais perfeitas ao mesmo tempo”, diz.  “É tudo simplesmente falso.”

A cineasta Carolina Jabor, 42, conseguiu desviar desta armadilha. “Eu não acredito nessa idealização da mulher que é bem-sucedida, malha e cria bem os filhos. Ter esse modelo seria uma escravidão.” Ela conta ter levado o primeiro de seus dois filhos a sets de filmagem. “Era o walkie-talkie numa mão e o meu filho no peito.”

“Hoje, se estou trabalhando, aviso: ‘Vocês vão ter de ficar carentes até eu voltar’. Ao mesmo tempo, quando estou com eles, não respondo email e tento deixar o smartphone de lado”, afirma.

Para a advogada Eleonora Coelho, 44, especialista em arbitragem e mãe de dois, a maternidade exigiu flexibilidade no trabalho, o que a fez deixar um dos maiores escritórios do país, que não topou sua proposta.

"Depois da maternidade, você não fica batendo papo ou fazendo social. Foca no que precisa fazer, e faz bem feito. Mas existe um viés inconsciente, e a mulher tem de trabalhar mais e ser mais competente que o homem para ser reconhecida como ele."

Hoje dona do seu próprio escritório, Coelho mantém uma sala de trabalho em casa, fechada por uma porta de vidro. "Aprendi a não fazer conferências em vídeo porque algum filho sempre bate à porta com algo que diz ser urgente, e eu fico tentando responder com mímicas", diverte-se. "A gente tem que se virar."

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