Estados usam shopping, vacina à noite e busca em casa para atingir meta

Estratégias ajudaram 7 estados a vacinar mais de 95% contra sarampo e pólio antes do prazo

Natália Cancian
Brasília

De uma passeata com o personagem Zé Gotinha rodeado de crianças até pediatra em “plantão tira-dúvidas” e posto móvel de vacinação montado no meio de um shopping center.

Experiências como essas fazem parte das ações adotadas em estados que, na contramão do restante do país, conseguiram imunizar a maioria das crianças contra sarampo e poliomielite dentro do prazo previsto na campanha nacional de vacinação.

Em um roteiro que tem sido mais frequente nos últimos anos, o Ministério da Saúde anunciou a prorrogação por 15 dias da data final da campanha. Antes prevista para acabar em 31 de agosto, a estratégia seguirá até 14 de setembro.

O motivo foi não ter atingido a meta de imunizar ao menos 95% das crianças de um ano a menores de cinco anos, incluindo as já vacinadas anteriormente. Ao fim do prazo original, 1,5 milhão (14%) ainda não havia sido imunizada.

Sete estados, porém, alcançaram a meta mais cedo e não precisaram prorrogar a data —embora ainda ofertem a vacina em algumas cidades ou como rotina. São eles: Amapá, Rondônia, Pernambuco, Santa Catarina, Espírito Santo, Sergipe e Maranhão.

“Fazia tempo que não conseguíamos atingir a meta sem prorrogação”, diz Ana Catarina de Melo, coordenadora de imunizações de Pernambuco.

O que levou a atingir a meta mais cedo? Para Melo, “vários fatores”. O primeiro, diz, é uma mudança na estratégia, com mais municípios colocando agentes de saúde em busca ativa atrás de não vacinados.

“Não ficamos esperando que a população buscasse o serviço e, no interior, a vacinação foi de casa em casa”, afirma. “Às vezes, pai e mãe não têm dinheiro ou tempo para levar a criança no posto”, diz.

Já na capital, Recife, a iniciativa da prefeitura em deixar postos de saúde em regiões estratégicas abertos com horário estendido colaborou para atingir a cobertura, aponta.

Segundo a secretaria municipal de saúde, dez unidades passaram a ofertar a vacina durante a campanha até as 21h. O horário tradicional, até então, era das 8h às 17h. “São pessoas que não conseguiam ir no horário normal”, diz.

Iniciativas como essas, adotadas por outros municípios, também têm sido citadas para o sucesso da cobertura em outros estados, caso de Sergipe.

A vacinação, porém, nem sempre ficou restrita aos postos de saúde. Na lista de fatores, estados destacam a retomada da parceria com escolas.

Para Daniele Grillo, coordenadora de imunizações do Espírito Santo, a medida pode ter feito a diferença na campanha. “Fizemos vacinação em creches e em shopping center, além das comunidades rurais”, relata.

"Hoje, não temos nenhum município do estado em que podemos falar que a cobertura está baixa. Mesmo aqueles que ainda não atingiram a meta já têm em torno de 90%”, afirma.

No Amapá, uma das estratégias para tentar reforçar a campanha foi buscar conjuntos como os do Minha Casa, Minha Vida —onde é possível alcançar maior número de pessoas. “Tivemos vacinação nas escolas dentro do conjunto e agentes batendo de porta em porta para convidar as pessoas para se vacinarem”, diz o superintendente de vigilância, Dorinaldo Malafaia.

Há ainda outros fatores. Em Santa Catarina, a diretoria de vigilância atribui a adesão à campanha ao aumento no debate sobre a necessidade de vacinação, com mais notícias sobre tema. Informativos e treinamento direcionado a profissionais de saúde também colaboraram, informa. 

Em Pernambuco, uma parceria com a sociedade de pediatria levou médicos a fazerem uma espécie de plantão no “dia D” para tirar eventuais dúvidas dos pais em relação às vacinas.

Até então previsto para ocorrer em só uma data, a mobilização acabou replicada em outros finais de semana em diferentes municípios, com postos de saúde abertos aos sábados por todo o dia.

No Maranhão, o envio de equipes de saúde para reforço em municípios com menor estrutura e abertura de postos extras colaboraram para atingir a meta, diz o governo. A campanha, no entanto, permanece em 33 das 217 cidades.

Para Isabela Ballalai, da Sbim (Sociedade Brasileira de Imunizações), os casos mostram como medidas simples, adaptadas a cada região, podem aumentar a adesão à vacinação. “A lição é que 
precisamos ser muito proativos. Às vezes as dificuldades não são financeiras, mas burocráticas”, afirma.

Um exemplo, diz, é o horário estendido dos postos de saúde, medida hoje discutida por alguns estados, como Pernambuco e Espírito Santo, para ser adotada também fora da campanha.

“Precisamos rever a questão do acesso”, diz. “Vemos pelos ‘dias D’. São sempre os de maior busca pela vacina. Isso mostra que as pessoas preferem horários alternativos. Hoje, com risco de perder o emprego, quem vai faltar ao trabalho?”, questiona.

Além dessas medidas adicionais, o temor de um novo avanço do sarampo também acabou por acelerar a ida aos postos em alguns estados, segundo as secretarias de saúde.

Em Rondônia, a proximidade com Amazonas, estado que lidera o número de casos da doença, acabou por levar o governo a adiantar a campanha de vacinação em um mês.

Em Sergipe, além de novos “dias D” e horário expandido, a divulgação de um caso suspeito de sarampo no estado pesou para que quem não tivesse o filho vacinado fosse mais rápido aos postos, diz a gerente de imunização, Sândala Teles. “Isso acabou provocando uma corrida maior”, diz. “Parece que a turma acordou.”

Para Ballalai, a ampliação da vacinação precisa ir além dos momentos de surtos.

“Não podemos precisar disso para fazer com que as pessoas entendam que o risco existe. Como o sarampo voltou e atravessou a fronteira, a pólio também pode atravessar e encontrar nossas crianças não vacinadas”, diz.


Campanha nacional de vacinação

Período: Antes, a campanha era prevista para acabar em 31 de agosto; agora, foi prorrogada até 14 de setembro

Quem deve tomar: Crianças de um ano a menores de cinco anos, ainda que já tenham sido vacinadas contra essas doenças. A meta é imunizar ao menos 95% das crianças com esse perfil

Vacinas oferecidas

Pólio: Quem nunca tomou receberá uma dose injetável da vacina da pólio. Enquanto aqueles que já foram vacinados devem receber reforço com a dose oral 

Sarampo: Todos recebem uma dose da tríplice viral, que protege também contra caxumba e rubéola, exceto quem tomou essa vacina há menos de 30 dias

1.579 é o total de casos confirmados de sarampo neste ano no país, com oito mortes

7.513 casos suspeitos permanecem em investigação

Fonte: Ministério da Saúde

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