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Ação de rally leva médicos e doação de óculos ao sertão

Participantes de off-road custeiam consultas oftalmológicas em comunidades do interior nordestino

Yala Sena
Teresina

Com mãos trêmulas, Maria das Graças Simeão Moraes, 70, no interior do Piauí, coloca pela primeira vez um óculos no rosto. Olha para a neta de 12 anos e se espanta: “Como você é linda!”

A hipermetropia de oito graus, nunca diagnosticada, se dissipou ao botar as lentes doadas. “Vó! A senhora que me cria!”, respondeu a neta. 

“Ô, minha filha, eu sei, mas nunca tinha visto seu rosto”, disse a idosa, que antes só enxergava vultos. 
A cena, ocorrida no ano passado, emocionou trilheiros, médicos e voluntários que trabalham no projeto social De Olho na Trilha. 

O empresário Delfino Vieira analisa olho de moradora no assentamento Poços dos Negros, em Altos (PI), durante atividade do projeto social "De olho na trilha", em 2017
O empresário Delfino Vieira analisa olho de moradora no assentamento Poços dos Negros, em Altos (PI), durante atividade do projeto social "De olho na trilha" realizada em 2017 - Zé Lula/Divulgação

Durante o rally que percorre Piauí, Maranhão e Ceará, o projeto dá atendimento oftalmológico a crianças e idosos de famílias de baixa renda pelo caminho. 

Criado há 31 anos, o rally Piocerá/Cerapió é uma das maiores competições off-road do país. Participaram pilotos de oito países, além de competidores de 24 estados brasileiros. 

Há dez anos, os trilheiros doam alimentos para instituições filantrópicas como obrigação para se inscrever na competição. A partir de 2010, começaram a custear consultas oftalmológicas a crianças, adolescentes e idosos pelo caminho do rally, e a doar óculos para casos simples. Famílias também ganham cestas básicas.

Os mais graves, que precisavam de cirurgias, eram indicados a se deslocar para cidades maiores, por conta própria na maior parte das vezes. 

Mas, a partir deste ano, a ideia do projeto é também facilitar o caminho para operações, como as de catarata. O grupo deve realizar cirurgias em Teresina e buscar apoio da prefeitura no transporte.

Em oito anos, foram mais de mil atendidos. O De Olho na Trilha começou por Delfino Vieira Neto, 47, empresário do ramo de óculos e amigo do fundador do rally. Ele gasta cerca de R$ 15 mil por ano no projeto. 

Os locais são definidos durante o levantamento da trilha, com prioridade aos povoados mais carentes. Já foram tratados pacientes de assentamentos, zona rural e comunidade quilombola. 

São cerca de 120 a 150 consultas e distribuições de óculos por ano. Os moradores escolhem as armações e um mês depois elas são entregues com as lentes. 

Os atendimentos acontecem onde for possível, até mesmo dentro da igreja, como ocorreu no rally passado na comunidade Zundão, próximo a Altos (PI), a 38 quilômetros de Teresina.

“Tinha gente que não conseguia ler e quando colocou o óculos foi aquela alegria. Afetou até a autoestima. 

Morador que nunca tinha ido ao médico e foi atendido”, diz o líder comunitário do Zundão, Francisco Neto da Silva, 51.

Ele conta que a população tem que ir até a capital do estado para conseguir consulta oftalmológica
A trabalhadora rural Maria dos Reis da Silva, 67, do assentamento Poços dos Negros, também em Altos, agradeceu a ação voluntária: seus óculos não lhe serviam mais, contou à equipe.

Para Vieira Neto, um dos momentos mais emocionantes foi o atendimento a uma garota de 12 anos. Ela tinha perdido a visão de um olho por causa de um verme e estava com a outra visão comprometida. Ao final da ação, foi recuperada. 

O próprio criador do rally foi salvo pelo projeto. Ehrlich Cordão, 60, descobriu por acaso um câncer no olho. 

Ao acompanhar o projeto em janeiro do ano passado, o oftalmologista Samuel Gonçalves, 44, achou estranha a vermelhidão no olho de Cordão. 

Após fazer uma análise rápida, o médico lhe fez um alerta e pediu que procurasse um especialista. Após uma biópsia, veio a constatação de um câncer no olho direito. “Acho que aquele alerta de Samuel foi uma bênção”, lembra Cordão.

Com cirurgia e quimioterapia, Cordão ficou quase um mês cego. Foram três meses sem sair de casa, proibido de ler, assistir televisão e evitar radiação solar. Após o tratamento, um alívio, seu olho estava curado do câncer.

No levantamento da trilha, o trilheiro conta que teve que se adaptar para acompanhar o percurso do rally Piocerá deste ano. Entre os dias 21 e 25 de janeiro, a comunidade Mimbó de remanescentes de escravos foi beneficiada. 

Segundo o médico voluntário Samuel Gonçalves, o projeto ajuda na prevenção das doenças oculares. Ele relata que as principais detectadas são catarata, glaucoma, astigmatismo e miopia. “Peguei uma miópica de 18 e 23 graus. Sabe quantas vezes ela tinha ido ao oftalmologista? Nunca”. 

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