'A natureza é perfeita, o homem é que é um sem vergonha', diz apicultor octogenário

Holandês Willem Van Bellen chegou ao Brasil em 1943 e vive desde 1993 no povoado de Santo Antônio do Jardim (SP)

Diogo Bercito
Santo Antônio do Jardim (SP)

Fugindo da guerra, o holandês Willem Van Bellen chegou ao Brasil em 1943, aos sete anos de idade, com o pai. Ele vive desde 1993 no povoado de Santo Antônio do Jardim, no interior de São Paulo, que tem 6 mil habitantes.

Conhecido ali como o holandês, cria abelhas com as técnicas da família. Seu mel é famoso na região e ele virou um personagem local. Nas margens do riacho que passa por sua chácara, explica sua filosofia: A natureza é perfeita. O homem é que é um sem vergonha.

O holandês Willem Van Bellen, 82, com suas abelhas em sua chácara em Santo Antônio do Jardim (SP).
O holandês Willem Van Bellen, 82, com suas abelhas em sua chácara em Santo Antônio do Jardim (SP). - Diogo Bercito/Folhapress

Aprendi a apicultura com o meu pai, um holandês, mas não sou eu quem faz o mel — são as abelhas.

Hoje tenho 82 anos e, desde pequeno, o único remédio que eu tomo é mel e própolis. Ainda trabalho todos os dias, cuidando das minhas cem colmeias.

Nasci na Indonésia, que naquela época era uma colônia holandesa, em 1936. Em 1941, o meu pai Cornelius tirou férias de seu trabalho de engenheiro agrícola e pegamos um navio para a Holanda. Cruzamos o canal de Suez, no Egito, e fomos até Gênova, na Itália.

A Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945) já tinha estourado. Nós tomamos um trem blindado para passageiros com as janelas todas cobertas com placas de madeira. Lembro-me bem daquela viagem, apesar de eu ainda ser bem pequeno, porque aquilo me marcou bastante.


​Depois de chegarmos à Holanda, meu pai não podia mais voltar para a Indonésia por causa dos conflitos. Então um enxame de abelhas chegou até o nosso vilarejo, próximo de Haarlem, na costa do país. Ele decidiu pegar aqueles insetos. Sem roupa de proteção, de qualquer jeito.

Com a minha ajuda, colocou as abelhas dentro de uma caixa e disse: “Vamos procurar mais desses bichos porque essa guerra vai demorar bastante”. Ele estava certo.

Começamos a juntar enxames. Naqueles anos, as pessoas estavam subnutridas, pois os alemães ficavam com as batatas e só nos deixavam as cascas para comer. Meu pai fazia mel e enviava para quem precisasse, porque era um alimento nutritivo, quase como leite materno.

Nós tínhamos três espingardas para nos proteger dos alemães, se necessário. Quando eles vinham para vasculhar a casa, eu escondia elas e fingia que estava brincando de trenzinho.

Em 1943 meu pai conseguiu um contrato para trabalhar na indústria açucareira e nos mudamos para o Brasil. Eu tinha sete anos. Fomos para Alagoas, na nossa primeira parada.

Éramos meu pai, eu, minha mãe e minha irmã. Mais tarde nasceu meu outro irmão, Bonno Van Bellen, que hoje é cardiologista. Ele escreveu um livro contando a aventura da nossa família.

De Alagoas fomos para o Rio e, depois, para São Paulo. Meu pai já não tinha tanto trabalho, então decidiu montar uma oficina de enfeites de Natal. Só que não deu certo. Teve briga entre os sócios, um deles era preguiçoso. Por isso, voltamos a trabalhar com o mel. Era um pouco só, para a nutrição. Meu pai dava às pessoas que precisavam e mal sobrava para a gente.

Casei com uma filha de alemães que eu conheci em Caieiras, na região de Franco da Rocha.

Tive um problema de intestino e aqui perto tinha um médico famoso. Em Pocinhos do Rio Verde, no sul de Minas Gerais. Foi quando conheci essa região, por causa do meu tratamento.

Fui operado em São Paulo, com a ajuda daquele médico. Quando estava bem, voltei para a cidade para acertar as contas e decidi morar aqui de vez. Eu não gostava de viver na cidade.

Passei algum tempo em Espírito Santo do Pinhal e soube que essa chácara aqui em Santo Antônio do Jardim estava à venda. Comprei o terreno e nós viemos morar aqui em 1993.

No meu horóscopo estava escrito que eu ia voltar um dia para a minha terra natal. Nunca retornei à Indonésia ou à Holanda, porém. Meu pai nunca gostou de lá. Nem quero voltar -- aqui temos uma vida tão gostosa. Tem um rio aqui embaixo, que é muito melhor que uma piscina. Não dá gasto!

Só tive um filho, Christian. Nós três ainda vivemos juntos, na chácara. Meu neto, filho do Christian, foi trabalhar na Arábia Saudita. Ele trata dos cavalos de todos os xeques!

Aqui em Santo Antônio do Jardim, nos anos 1990, eu e meu filho começamos de novo com as abelhas. Eu tinha aprendido com o meu pai e sabia que o mel tinha salvado muita gente na guerra. Não fiz faculdade — descobri tudo com ele, na Holanda. Falo holandês, alemão, inglês e português.

Hoje temos cem colmeias espalhadas pelo município e algumas caixas aqui em casa. Em 2017, produzimos 1.200 litros, o que equivale a 2.400 potes. Vendemos cada um por R$ 25.

As pessoas me conhecem na região como “o holandês”. As pessoas vêm até a minha chácara para comprar meus produtos. Meus clientes já levaram meu mel com eles para 18 países.

Quando aparece um enxame na cidade a prefeitura chama a gente para ajudar a retirá-lo.

Estamos brigando muito com as pessoas que usam agrotóxico nas plantações. Tentamos colocar nossas colmeias só nas áreas que não têm esse veneno. No ano passado todas as abelhas de dez das nossas caixas morreram por causa de um inseticida que colocaram aqui.

Na minha casa, não mato nenhum animal. Nem cobra. A natureza é perfeita. O homem é que é um sem vergonha.

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