Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Exército determina prisão de militares envolvidos em assassinato de músico no Rio

Carro com família e criança de 7 anos foi atingido por mais de 80 tiros na tarde deste domingo

Ana Luiza Albuquerque
Rio de Janeiro

O Exército determinou nesta segunda-feira (8) a prisão em flagrante de 10 dos 12 militares envolvidos no assassinato do músico Evaldo Rosa dos Santos, 46, na tarde deste domingo (7), em Guadalupe, zona norte do Rio de Janeiro. O carro onde Santos estava foi alvejado por mais de 80 tiros disparado pela equipe militar.

Evaldo Rosa dos Santos, músico morto em ação do Exército no Rio
Evaldo Rosa dos Santos, músico morto em ação do Exército no Rio - Reprodução/Facebook

A investigação do Exército identificou inconsistências entre a história inicialmente contada pela equipe e informações que chegaram posteriormente ao Comando. Os militares foram afastados e encaminhados à Delegacia de Polícia Judiciária Militar para tomada de depoimentos. Uma testemunha civil também foi ouvida. 

Os militares envolvidos no episódio disseram que haviam sido alvo de tiros dos ocupantes do veículo. Amigos das vítimas negam a versão e afirmam que o veículo levava uma família, inclusive uma criança de sete anos. O sogro de Santos e um pedestre que passava no local e tentou ajudar ficaram feridos.

Vídeos publicados nas redes sociais mostram moradores da região criticando os militares logo após os disparos. Eles dizem que o carro da família foi confundido com o de bandidos.

"Quando eles [militares] começaram a atirar, minha tia pegou meu primo no colo e mostrou que era carro de família, mas mesmo assim eles não pararam de dar tiros", disse um dos sobrinhos de Evaldo ao jornal Extra.

Ao fim da tarde de domingo (7), o CML (Comando Militar do Leste) emitiu nota afirmando que, por volta das 14h40, uma patrulha havia se deparado com um assalto nas imediações do piscinão de Deodoro. No texto, o exército dizia que dois criminosos dentro de um veículo haviam atirado contra os militares, que responderam à "injusta agressão". 

Já na manhã de segunda (8), o CML mudou seu posicionamento. O comando justificou o conteúdo da primeira nota afirmando que o texto havia sido escrito com base em informações iniciais repassadas pela patrulha. Na nova nota, o Exército afirma que tem compromisso com a transparência e repudia "veementemente" excessos ou abusos cometidos por militares. 

A investigação está a cargo do Exército, mas o delegado Leonardo Salgado, da Delegacia de Homicídios da Polícia Civil, afirmou que não há nenhum indício de que os ocupantes do carro fossem bandidos ou que tivessem reagido à abordagem dos militares. A Polícia Civil realizou a perícia no local e constatou mais de 80 tiros; não foi achada nenhuma arma com os ocupantes do veículo. 

"Tudo indica que houve o fuzilamento do veículo de uma família de bem indo para um chá de bebê. Uma ação totalmente desproporcional e sem justificativa", afirmou o delegado. 

O Rio de Janeiro não se encontra mais sob intervenção federal na segurança pública desde o fim do ano passado. Também em dezembro teve fim uma operação de GLO (Garantia da Lei e da Ordem), decretada pelo ex-presidente Michel Temer, que dava poder de polícia às Forças Armadas.

Segundo o CML, a equipe realizava um patrulhamento regular no perímetro de segurança da Vila Militar, que fica próxima ao bairro onde ocorreu o assassinato.

Lei sancionada por Temer em 2017 determina que crimes dolosos contra a vida cometidos por militares contra civis serão de competência da Justiça Militar em três casos: se praticados no cumprimento de atribuições estabelecidas pelo presidente ou pelo Ministro de Estado da Defesa; se cometidos em ação que envolva a segurança de instituição militar; ou se forem de atividade de natureza militar, de operação de paz, de garantia da lei e da ordem.

Na madrugada de sexta-feira (5), um jovem morreu e outro ficou ferido atingidos por militares perto da Vila Militar, na zona oeste do Rio.

Segundo o CML, quatro criminosos furaram um posto de bloqueio e controle do Exército e, após desobedecerem a sucessivas ordens de parar, lançaram os veículos contra as sentinelas, que reagiram à agressão. Outros dois teriam fugido.

A Polícia do Exército compareceu ao local para realizar uma perícia e um inquérito policial militar foi instaurado para apurar o caso. A família contesta a versão dos militares. 

O porta-voz da Presidência da República, general Otávio Rêgo Barros, disse que o presidente Jair Bolsonaro confia na Justiça Militar e que os esclarecimentos serão dados no decorrer da investigação. "[Ele] Espera que eventos de igual similitude não venham a ocorrer", disse. 

Até a noite desta segunda, o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC) não havia se pronunciado a respeito do assassinato. Mais cedo, Witzel retuitou um vídeo da Polícia Militar que mostrava um policial ajudando uma idosa a atravessar a rua.

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