Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Exército dispara 80 tiros em carro de família no Rio e mata músico

Para delegado, tudo indica que militares fuzilaram veículo com família por engano

Thaiza Pauluze Italo Nogueira
São Paulo e Rio de Janeiro

Militares do Exército dispararam mais de 80 tiros contra um carro, que levava uma família, na região da Vila Militar, na zona oeste do Rio de Janeiro, na tarde deste domingo (7). ​Um homem morreu e duas pessoas ficaram feridas.

As cinco pessoas que estavam no Ford Ka branco atingido iam a um chá de bebê. O músico Evaldo Rosa dos Santos, 46, morreu na hora, seu sogro, Sérgio Gonçalves, está internado no Hospital Albert Schweitzer, sua esposa e o filho do casal, de sete anos, além de uma amiga da família não foram atingidos. Um pedestre que passava no local ficou ferido ao tentar ajudar.

"Quando eles [militares] começaram a atirar, minha tia pegou meu primo no colo e mostrou que era carro de família, mas mesmo assim eles não pararam de dar tiros", disse um dos sobrinhos de Evaldo ao jornal Extra.

Evaldo Rosa dos Santos, músico morto em ação do Exército no Rio
Evaldo Rosa dos Santos, músico morto em ação do Exército no Rio - Reprodução/Facebook

De acordo com o CML (Comando Militar do Leste), uma patrulha do Exército flagrou um assalto perto do piscinão de Deodoro, em Guadalupe, por volta das 14h40. O carro que havia sido roubado tinha a mesma cor, mas outra marca e modelo, um Honda City.

A primeira nota do CML afirmava que dois criminosos dentro de um veículo haviam atirado contra a equipe e que os militares "responderam à injusta agressão" e como resultado "um dos assaltantes foi a óbito no local e o outro foi ferido".

Mais tarde, em outra nota, o Comando Militar do Leste informou que o caso estava sendo investigado pela Polícia Judiciária Militar com a supervisão do Ministério Público Militar. Segundo o Comando, o primeiro texto foi emitido a partir das informações iniciais transmitidas pela patrulha.

Para o delegado Leonardo Salgado, da Delegacia de Homicídios da Polícia Civil, não há nenhum indício de que os ocupantes do carro fossem bandidos ou tivessem reagido a abordagem dos militares.

"Tudo indica que houve o fuzilamento do veículo de uma família de bem indo para um chá de bebê. Uma ação totalmente desproporcional e sem justificativa", afirmou. 

Segundo Salgado, havia 12 militares no momento dos disparos e ao menos nove atiraram. Eles não estavam mais no local quando o delegado chegou. 

Os envolvidos foram ouvidos em uma delegacia militar. Mas foi a Polícia Civil que realizou a perícia porque os militares tiveram dificuldade, devido à revolta dos moradores que testemunharam o crime. O laudo mostra que o automóvel foi atingido por mais de 80 disparos e não havia arma com os ocupantes do carro.

Vídeos publicados nas redes sociais mostram moradores da região criticando os militares logo após os disparos. "Mataram uma família. Pegaram os caras errados. Os dois já foram", diz uma pessoa que gravou o fim dos tiros. 

Nesta segunda (8), o Exército determinou a prisão em flagrante de 10 dos 12 militares envolvidos no assassinato.

O Rio de Janeiro não se encontra mais sob intervenção federal na segurança pública desde o fim do ano passado. Também em dezembro teve fim uma operação de GLO (Garantia da Lei e da Ordem), decretada pelo ex-presidente Michel Temer, que dava poder de polícia às Forças Armadas.

Segundo o CML, a equipe realizava um patrulhamento regular no perímetro de segurança da Vila Militar, que fica próxima ao bairro onde ocorreu o assassinato.

Lei sancionada por Temer em 2017 determina que crimes dolosos contra a vida, cometidos por militares contra civis, serão de competência da Justiça Militar em três casos. São eles: se praticados no cumprimento de atribuições estabelecidas pelo presidente ou pelo Ministro de Estado da Defesa; se cometidos em ação que envolva a segurança de instituição militar; se forem de atividade de natureza militar, de operação de paz, de garantia da lei e da ordem.

Na madrugada de sexta-feira (5), um jovem morreu e outro ficou ferido, atingidos por militares perto da Vila Militar, na zona oeste do Rio. 

Segundo o CML, quatro criminosos furaram um posto de bloqueio e controle do Exército e, após desobedecerem sucessivas ordens de parar, lançaram os veículos contra as sentinelas, que reagiram à agressão. Outros dois teriam fugido.

A Polícia do Exército compareceu ao local para realizar uma perícia e um inquérito policial militar foi instaurado para apurar o caso. A família contesta a versão dos militares.  

O porta-voz da Presidência da República, general Otávio Rêgo Barros, disse que o presidente Jair Bolsonaro confia na Justiça Militar e que os esclarecimentos serão dados no decorrer da investigação. "[Ele] Espera que eventos de igual similitude não venham a ocorrer", disse. 

Até a noite desta segunda, o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC) não havia se pronunciado a respeito do assassinato. Mais cedo, Witzel retuitou um vídeo da Polícia Militar que mostrava um policial ajudando uma idosa a atravessar a rua. ​

AMEAÇAS

Após mostrar o caso no "Fantástico" deste domingo, o repórter Carlos de Lannoy foi ameaçado em sua conta no Instagram. 

Ele recebeu a mensagem: "Se vc escolher falar merda e defender bandido; é escolha sua. Seu merda! Se for errado, paga com a vida! Mexeu com o Exército, assinou sua sentença! Sua família vai pagar, aguarde cartas!"

De Lannoy rebateu: "Você vai responder por essa ameaça! O que vc fez não é só uma afirmação vergonhosa, infeliz e lamentável, mas um crime previsto em lei. Aguarde!".

A ameaça foi encaminhada ao departamento jurídico da Rede Globo, que tomará as medidas cabíveis. 

Em nota, a Associação Brasileira de Imprensa repele com indignação as ameaças de morte contra o jornalista. 

"Qualquer intimidação a um jornalista representa grave ofensa à ordem constituída e à própria democracia. A polícia tem o dever de agir rapidamente para identificar o responsável pelas ameaças", diz o texto, assinado por Domingos Meirelles, presidente da associação.

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