Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Rio terá protesto contra a polícia militar em dia de ato pró-Bolsonaro

Moradores de favelas afirmam que sua manifestação foi marcada antes

Catia Seabra
Rio de Janeiro

Moradores de favelas e periferias do Rio de Janeiro fazem, neste domingo (26), o protesto Parem de Nos Matar!, contra a truculência policial em suas comunidades.

Com apoio de cerca de 50 movimentos sociais, o protesto terá concentração na praia de Ipanema a partir das 10h. A intenção é que, de mãos dadas, os manifestantes façam um cordão humano na orla, indo do Leblon ao Arpoador.

A três quilômetros dali, apoiadores de Jair Bolsonaro se reunirão, em Copacabana, para manifestar seu apoio ao presidente da República.

Os bolsonaristas convocaram os defensores do governo em resposta à manifestação de estudantes ocorrida no dia 15, em todo o Brasil.

Apesar da coincidência de data e horário, os organizadores do Parem de Nos Matar! ressaltam que o ato foi idealizado no dia 22 de abril, após o gari comunitário William Mendonça dos Santos, conhecido como Nera, ser morto, com dois tiros, pela Polícia Militar na favela do Vidigal, zona sul. 

"A data do protesto tem um porquê: o dia 26 de maio é o primeiro domingo após completar um mês do assassinato do gari comunitário William dos Santos Mendonça no Vidigal", afirma texto distribuído à imprensa.


"O ato vem sendo planejado há um mês e não tem qualquer relação com outras manifestações que possam vir a ocorrer na mesma data."

Dias antes da morte de William, o músico Evaldo Rosa dos Santos e o catador de papel Luciano Macedo haviam sido mortos pelo Exército com mais de 200 tiros na estrada do Cambotá, na zona oeste, e o estudante Lucas Brás, 17, morrera com um tiro nas costas no parque Royal, zona norte. 
"William, Evaldo, Luciano e Lucas eram todos negros", lembra a convocatória. 

O movimento no Brasil ecoa o americano Black Lives Matter (vidas negras importam), surgido em 2013 após uma série de proeminentes assassinatos de inocentes por policiais no país. Desde então, chama a atenção para a discrepância nas mortes de negros em relação às de brancos.

Porta-voz do ato, a professora Bárbara Nascimento afirma que a manifestação não é contra ou a favor de Bolsonaro. "É a favor de nossas vidas".

Embora descarte natureza política, Bárbara admite que o protesto tem como alvo a política de segurança implementada governo Wilson Witzel (PSC).

"Embora a truculência faça parte das táticas policiais desde sempre, os atuais governos estadual e federal ampliaram a licença para matar atribuída às já extremamente violentas forças de segurança pública", diz a convocatória do movimento.

Segundo balanço do ISP (Instituto de Segurança Pública), no primeiro trimestre de 2019, o estado do Rio registrou 434 homicídios em decorrência de ações policiais. Esse é o maior índice desde de 2003, quando o ISP assumiu a tarefa de mapear as estatísticas oficiais.

O número representa um salto de 18% em comparação ao mesmo período de 2018, quando foram registrados 368 homicídios em consequência de intervenções policiais.

Integrante do coletivo Favela no Feminino, Bárbara Nascimento afirma que a expectativa é reunir ao menos dois mil apoiadores neste domingo. 

Iniciado com um banho de cheiro, o ato terá apresentações de artistas das favelas, poesia e esquetes teatrais. Ninguém, além de parentes de vítimas de homicídio, poderá discursar na manifestação.

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