Descrição de chapéu

Caso Rhuan atiça coliseu ideológico nas redes sociais

Teoria da indignação seletiva, de que progressistas fazem vista grossa para esse assassinato, não se sustenta

Rio de Janeiro

Mesmo no mundo cão em que vivemos, o assassinato de Rhuan Maicon da Silva Castro, 9, destoa. O menino foi morto enquanto dormia, com uma facada no coração, e esquartejado. 

As autoras confessas: a própria mãe e sua companheira, que, sem conseguirem queimar o corpo numa churrasqueira, decidiram dividi-lo em partes e escondê-las em uma mala e duas mochilas. 

Casal suspeito de matar criança é preso no Distrito Federal
Rosana Auri da Silva Cândido (à dir) e sua companheira Kacyla Pryscila Santiago Damasceno Pessoa são presas no Distrito oficial após confessarem o assassinato do menino Rhuan, filho da primeira - Divulgação/Polícia Civil

Um ano antes, a mãe cortara o pênis do filho numa operação caseira. À polícia, ela disse que matou o menino por vê-lo como entrave para o relacionamento com a esposa e por lembrar-lhe do pai dele, um laço indesejável.

Onde isso foi registrado? Em reportagem da Folha publicada no domingo seguinte ao crime, que ocorreu 11 dias atrás, numa sexta-feira. Um giro rápido por outros veículos, como os do Grupo Globo, mostra atenção ao caso.

A direita bolsonarista se convenceu do contrário. 

Numa campanha virtual com aderência de influenciadores do grupo, a começar pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), passaram a acusar a mídia de esconder a morte de Rhuan, uma proteção descarada aos ideólogos de gênero que estariam solidários ao casal lésbico assassino.

Para essa direita extremada, a “extrema imprensa” (sua hashtag de estimação para definir os meios de comunicação profissionais) é comunista. Pergunte a esquerdistas que há anos acusam a Folha e outros de serem agentes do neoliberalismo e eles dariam gargalhadas, mas esse cabo de guerra fica para outro texto.

Eduardo Bolsonaro publicou no domingo (9) um vídeo em que anaboliza a teoria. Primeiro, o caçula dos filhos políticos de Jair Bolsonaro lista casos de grande repercussão, como o assassinato de Isabella Nardoni por pai e madrasta, e o dos pais de Suzane von Richthofen a mando dela. Depois atiça seus seguidores: por que a atrocidade contra Rhuan valeria menos?

Eduardo difunde então a ideia de que o apreço pela minoria LGBT+ falou mais alto. Ele diz que só soube do crime por meios alternativos. No mínimo faltou ao deputado pesquisar o tema —o Google poderia tirar sua dúvida.

Qualquer morte choca, sobretudo a de uma criança, mais ainda quando o algoz é o pai ou mãe. É verdade que algumas delas se agigantam no noticiário, ganhando reportagens ao longo de dias, mesmo anos, a ponto de entrar no imaginário popular.

É justo apontar que a ressonância do homicídio de Rhuan foi mais tímida. Vários fatores colaboram para isso, e nenhum deles têm a ver com uma suposta blindagem da ideologia de gênero. Passa, inclusive, pela crise econômica que não poupa o jornalismo. 

Segue o fio: o esquartejamento veio à tona no fim de semana, quando as equipes estão ainda mais mirradas. 

E, ao contrário dos Nardoni ou de Richthofen, aconteceu numa região periférica do Distrito Federal, afastada das grandes redações. Repórteres alocados em Brasília costumam ficar enfurnados na cobertura política, que não tem dado trégua. 

Não ajuda o fato de a mãe do menino ser natural do Acre. Alguns veículos foram atrás de seu passado. Nem todos têm recursos para tanto.

Outro ponto a considerar: outros casos ruidosos se arrastaram por anos nos tribunais. Há um rito judicial a ser acompanhado, não raramente de forma sensacionalista, quando os acusados se dizem inocentes. Já o crime contra Rhuan foi confessado de bate-pronto pelo casal que deveria zelar por ele.

A teoria da indignação seletiva, de que progressistas estariam dispostos a fazer vista grossa para esse assassinato, não se sustenta. A triagem ideológica é mais evidente em comentários como os de Leandro Ruschel, um dos influenciadores bolsonaristas que Eduardo Bolsonaro citou.

Dez dias após o assassinato em Sambambaia (DF), Ruschel tuitou: “Enquanto o caso da piranha que tentou arrancar uma grana de jogador famoso ocupa todas as manchetes, a tortura e assassinato do menino Rhuan por um casal de mulheres segue abafado pela extrema-imprensa”. 

O imbróglio da modelo que diz ter sido estuprada por Neymar, uma narrativa cheia de pontas soltas tanto do lado que acusa quanto do que foi acusado, ainda não tem desfecho judicial. Mas essa direita já escolheu seu lado, de forma tão ideológica quanto a parte da esquerda que se alinhou incondicionalmente à mulher.

A imprensa só deve ser radical na busca por um jornalismo profissional em que não cabem paixões, mas evidências. Se este texto dificilmente comoverá convertidos, que sirva para aqueles desconfiados após tantas hashtags sobre um suposto eclipse midiático no caso Rhuan. 

Que a morte dele não se preste a entreter o coliseu virtual.

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