Descrição de chapéu Dias Melhores

Projeto faz idoso enxergar e diarista ouvir melhor no sertão da Bahia

Iniciativa está na 19ª edição e já atendeu cerca de 48 mil pessoas

Mário Bittencourt
Vitória da Conquista (BA)

​Havia tempo que Eurípedes Alves de Oliveira, 70, mal conseguia caminhar pelo terreiro no entorno da casa onde mora, no povoado de Bandeira Nova, a 13 km de Poções, cidade de 46 mil pessoas no sudoeste da Bahia.

Ele sofria de catarata, problema que provoca opacidade no cristalino (lente natural) dos olhos, deixando a pessoa com visão nublada. “Tinha dia que saía escorado em uma enxada, contando os passos, para não cair em um buraco. Não estava enxergando quase nada, andava praticamente no tato.”

Depois de operado por médicos oftalmologistas do projeto Voluntários do Sertão, que passou pela região entre abril e maio, Eurípedes voltou a enxergar e só usa a enxada para o fim que ela foi criada: trabalhar a terra. “Voltei pra minha rocinha, onde planto milho, feijão, fava, mandioca”, contou.

Além de Eurípedes, o projeto, que está em sua 19ª edição e promove um mutirão de atendimentos de saúde e ações sociais, atendeu 48.762 pessoas neste ano no sudoeste baiano.

A ação reúne voluntários do interior paulista, em especial da área da saúde. Além do diagnóstico com médicos especialistas, são realizadas pequenas cirurgias, consultas com dentistas e avaliação para receber prótese auditiva, entre outros, e entrega de cestas básicas.

Nascido em Condeúba, no semiárido baiano, o empresário Doreedson Pereira, o Dorinho, que mora em Ribeirão Preto, iniciou há quase duas décadas a ação social no seu estado com a ajuda de voluntários.

Com o tempo, o número de interessados cresceu, e o projeto conta com apoio das aeronaves da FAB (Força Aérea Brasileira) para o transporte dos voluntários e equipamentos.

Nesta edição, cerca de 1.300 pessoas se inscreveram, e 350 voluntários foram selecionados, entre médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, dentistas e advogados, entre outros.

Na região baiana escolhida neste ano pelo projeto, a população relata ser difícil encontrar médico até para detectar casos não complexos, como a hérnia no umbigo de Davi, 9, neto de Eurípedes, cujo diagnóstico só foi possível por conta da ação.

O menino se queixava sempre de dores na barriga. Descoberto o problema, Davi terá de passar por cirurgia, ainda a ser marcada. A mãe, Joselita Prado de Oliveira, disse que o menino não ia ao pediatra havia cinco anos, quando o profissional que atendia de vez em quando no posto de saúde não voltou mais.

“Vamos buscar fazer a cirurgia de Davi, já estamos bem encaminhados, com os papéis”, diz a dona de casa de 37 anos, que elogia o projeto: “A cirurgia do meu pai, mesmo, nem sei quando ia fazer, porque custa caro, não temos grana, e os mutirões de cirurgias demoram de ocorrer aqui”.

Também atendido pelo Voluntários do Sertão, Genivaldo Carvalho de Oliveira, o Vado, um vendedor de caldo de cana de 51 anos que tem fama de poeta na região, contou que estava com problemas para ler e escrever até ser procurado pelo projeto.

“Souberam da minha fala de poeta e vieram aqui na feira me pedir uma homenagem para o projeto em forma de poesia. Então, aproveitei para fazer meu exame nos olhos, que estava enrolando porque custa dinheiro”, disse ele, que aguarda os óculos chegarem na Secretaria Municipal de Saúde.

“São óculos só de descanso, não me lembro do grau. Mas se fosse por mim ia demorar de fazer o exame e comprar, acho que ia ter de ir a Vitória da Conquista fazer isso, porque aqui em Poções são mais caras as coisas”, comentou.

A poesia que ele fez será apresentada em um vídeo institucional do projeto a ser divulgado este mês. Por conta do projeto, a diarista Maria Aparecida, 44, poderá ouvir a voz de Vado declamando a poesia no vídeo.

Ela estava com perda auditiva de 50% e recebeu do projeto um aparelho de audição. Lia lábios e conseguia conversar em ambientes fechados olhando para as pessoas. Em ambiente com barulho, já não conseguia entender a conversa, e isso a atrapalhava na busca por emprego.

“A gente fica com vergonha porque as pessoas não têm paciência de falar com a gente. Um médico que disse que eu precisava aprender a conviver com o problema e era o que eu estava fazendo, convivendo com isso”, contou. “Agora, não tenho nem palavras para agradecer, sei que vai ser uma grande mudança na minha vida.”

E se existe felicidade em estar recebendo um auxílio por parte do projeto, composto somente por profissionais voluntários, quem o dá também sente o mesmo, como relata a dentista Aline Borba. Moradora de Ribeirão Preto (SP), ela tem 35 anos e acompanha o projeto há 11.

Aline Borba tentava ser voluntária do projeto havia cinco anos, e conseguiu neste ano após passar na seleção. Para o ortopedista Gustavo Estanislau, o projeto é desafiador. “Exige um empenho muito grande de todo mundo. E quem sai ganhando muito também são os voluntários, porque se doar é muito bom e gratificante. A gente se sente muito feliz em poder ajudar tantas pessoas que não têm acesso fácil aos atendimentos de saúde.”

Quem quiser ser voluntário no próximo projeto pode se inscrever no site do projeto.

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