'O único tiro que teve foi o deles', diz tio de menina morta no Rio

Ágatha Félix, 8, foi atingida nas costas e não resistiu; família nega tiroteio

Lucas Lacerda Nicola Pamplona
São Paulo e Rio de Janeiro

“Isso aí que teve troca de tiros, que eles foram atacados, é tudo mentira", disse Elias Cesar, 36, no Instituto Médico Legal (IML), no Rio de Janeiro, na manhã deste sábado (21).

Ele está no IML junto com outros familiares de Ágatha Félix, 8, que morreu após ser atingida por um tiro na noite de sexta-feira (20), no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro.

 
Pessoas em rua protestam e exibem cartazes com os dizeres "Vidas nas favelas importam" e "Parem de nos matar"
Moradores do Complexo do Alemão protestam contra a morte de Ágatha Félix, 8, atingida nas costas por um tiro na noite de sexta-feira (20) - José Lucena/Futura Press/Folhapress

A revolta de Elias é uma das respostas às declarações da Polícia Militar do Rio, que afirmou, em nota e nas redes, que agentes da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Fazendinha, localidade do Alemão, foram atacados ao mesmo tempo de vários pontos da comunidade e revidaram.

"Após o confronto, não foi encontrado feridos na varredura do local. Na sequência, os policias foram informados por populares que um morador teria sido ferido na localidade conhecida como “Estofador”. Uma equipe da UPP se deslocou até o Hospital Getúlio Vargas e confirmou a entrada de uma criança de 8 anos ferida por disparo de arma de fogo.", diz a nota.

Mas a tese do confronto, endossada pelo governo do estado do Rio em outra nota, foi negada por Elias. 

"Estavam na kombi e pararam ali na Birosca [uma localidade no complexo], veio um maluco de moto e a polícia mandou parar. O maluco não parou, foi embora, sem arma nem nada, e a polícia atirou. Não teve tiroteio, o único tiro que teve foi o deles, fatal, foi o que tirou a vida da nossa sobrinha", disse.

Um amigo da família, que não quis se identificar, confirmou à Folha a versão da família. 

O caso gerou repercussão nas redes sociais. Moradores da região, que teve outros seis mortos em operações policiais nesta semana, organizaram protestos contra a morte e as declarações da polícia.

Rodrigo Mondego, da Comissão de Direitos Humanos da OAB, acompanha o caso no IML e disse que a mãe está em estado de choque e que ela e o motorista da Kombi —que socorreu a criança ao hospital— viram de onde partiu o tiro.

“Infelizmente, mais um caso de morte por intervenção militar no Rio. Os indícios dizem que o tiro partiu da polícia militar. Todo mundo viu que ele [motoqueiro] não estava armado”, disse.

Ágatha foi internada no Hospital Getúlio Vargas, mas não resistiu e morreu durante a noite de sábado (21).

A Defensoria Pública do Rio de Janeiro também se manifestou sobre o caso.

"A opção pelo confronto tem se mostrado ineficaz: a despeito do número recorde de 1.249 mortos em ações envolvendo agentes do estado apenas este ano, a sensação de insegurança permanece. No caso das favelas, ela se agrava.", afirmou, em nota.

Segundo dados da ONG Rio de Paz, Ágata Félix é a 57ª criança a morrer baleada no Rio de Janeiro desde 2007. A plataforma Fogo Cruzado, por sua vez, registra que 16 crianças foram baleadas na região metropolitana do Rio em 2019. Destas, cinco morreram. 

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