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O prédio chacoalhou e afundei, diz sobrevivente de desabamento em Fortaleza

Fernando Menezes, 20, perdeu mãe e dois avós no desabamento de prédio

Vinicius Lemos
Fortaleza

Fernando Menezes, 20, morava no edifício Andrea, em Fortaleza. Ele foi uma das vítimas do desabamento da construção, em 15 de outubro. O jovem foi o primeiro resgatado pela equipe de bombeiros; ficou por cerca de uma hora sob os escombros. 

A tragédia deixou nove mortos, entre eles a mãe do jovem, Rosane Menezes, 55, e os avós dele Vicente de Paulo de Menezes, 86, e Izaura Marques de Menezes, 81. 

Também morreu José Erivelton Araújo, 44, que trabalhava para a família e estava com os avós de Fernando na hora do desabamento. O prédio passava por reformas.

Fernando com a mãe, Rosane Marques Menezes, 55, e os avós Vicente de Paulo , 86, e Izaura Menezes, 81, em 2015 - Arquivo Pessoal


A Polícia Civil do Ceará apura as causas do desabamento.

Eu morava no terceiro andar do edifício havia nove anos, com a minha mãe, desde que deixamos o Rio de Janeiro. Nos mudamos para Fortaleza para ajudar meus avós, que precisavam de cuidados. Eles moravam no quinto andar. Também havia o Betinho [José Erivelton Araújo], que era auxiliar de serviços gerais da família. Nunca havia escutado nada sobre problemas na estrutura do prédio.

Acredito que nem meus familiares, porque meu avô, que morava ali havia 11 anos, era muito cuidadoso e, se soubesse de irregularidade, não permaneceria. O edifício estava passando por obras, que começaram no dia anterior à queda. Muita gente acredita que o modo como essa reforma foi feita nos pilares pode ter motivado o desabamento.

Na manhã de 15 de outubro, acordei por volta das 7h, com o barulho das obras no térreo. Como fiquei estudando até a madrugada, voltei a dormir. Me levantei por volta das 9h. Encontrei a minha mãe tomando café da manhã. Comi algo e voltei ao quarto para me arrumar.

Era uma terça-feira, dia em que eu tinha consulta com psicólogo. Eu me sentei na cadeira da mesa de estudos, em frente à janela do meu quarto. Sairia em poucos minuto.

De repente, por volta das 10h30, senti o prédio chacoalhar. Achei muito esquisito. Senti novamente. Na terceira vez, desabou.

Quando começou a cair, gritei pela minha mãe. Ela estava no quarto dela, se arrumando para sair comigo. Não sei se me escutou. Havia um barulho absurdamente alto do prédio caindo. Ficava claro. Ficava escuro. Ficava claro. Ficava escuro. Eu estava caindo. Senti como se eu afundasse, sem nenhum equilíbrio.

Tudo aconteceu em poucos segundos. Por alguns instantes, pensei que tivesse morrido. Havia muita poeira. Sob os escombros, fiquei em uma posição como se estivesse sentado. Minhas costas ainda estavam apoiadas na cadeira. Caiu um pedaço muito grande sobre meu braço esquerdo. Senti uma dor absurda e não consegui mexê-lo.

Minhas pernas foram imobilizadas pela porta de madeira do meu banheiro. A mesa apertava a minha barriga. Sobre a minha cabeça, havia um pedaço triangular de concreto, como se fosse uma 'cabaninha', que me protegeu.

Fiquei pensando muito na minha mãe e nos meus avós. Comecei a chorar, mas respirei fundo. Eu ouvia as pessoas falando do lado de fora: 'Ai, meu Deus, o que aconteceu?'

Não parecia fazer muito sentido o prédio ter desabado, mas tentava aceitar. Pensava: ainda quero fazer muita coisa na vida. Sou alérgico a poeira, então tossia muito e isso me machucava. Respirava fundo para me acalmar, porque não poderia ficar sem voz.

Juntava o máximo de ar possível e gritava por ajuda. Me pediam calma. A minha voz começou a falhar e fiquei com sono, mas sabia que precisava continuar acordado.

 
 
Fernando Menezes, vítima do desabamento de um prédio residencial no Bairro Dionísio Torres, área nobre de Fortaleza; ele foi o primeiro resgatado sob os escombros - Mauri Melo/O Povo / Folhapress

Os bombeiros chegaram. Um homem esticou a mão para mim e perguntou meu nome. Conversei com ele para ficar consciente. Os bombeiros martelaram e serraram a estrutura. Doeu um pouco, porque estava muito apertado, mas era o de menos. Fui retirado e colocado em uma maca.

Sou muito grato aos bombeiros e aos voluntários que ajudaram. Eles me levaram ao hospital, por volta de meio-dia. Fiquei em observação até as 22h. Levei pontos nos joelhos e nos dedos da mão esquerda. A parte mais afetada foi o braço esquerdo, que está com machucados; a mão está muito inchada.

Se eu estivesse em outro lugar do apartamento ou ficasse mais tempo sob os escombros, talvez não tivesse sobrevivido.

Quando recebi alta, fui para a casa de parentes. Passei dias de angústia, esperando respostas dos desaparecidos. Sabia que meus avós tinham certa idade e seria mais difícil que sobrevivessem. Mas acreditava que a minha mãe conseguiria resistir, porque sempre foi muito ativa.

Dias depois, os corpos dos meus familiares e do Betinho foram encontrados.

Minha mãe era a minha melhor amiga. Se fosse um acidente de carro ou um assalto, até seria mais fácil aceitar. Mas é um negócio tão absurdo que ainda não entra na minha cabeça.

Tenho recebido apoio dos meus familiares. Meus amigos arrecadaram roupas e outros itens para me ajudar, porque perdi tudo.

Fiquei o ano inteiro me preparando para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Queria cursar Sistema e Mídias Digitais na Universidade Federal do Ceará, pois sou apaixonado por tecnologia. Agora não sei se vou fazer as provas. Esse exame traz muita pressão. Não sei se tenho condições neste momento.

Talvez me mude para o Rio de Janeiro, para morar com uma tia. Mas ainda não sei. Procuro viver um dia de cada vez e não pensar tanto no futuro.

Sobre o desabamento, quero que os responsáveis sejam punidos pelo que fizeram. Quase todos os dias, me pergunto se havia algo que eu poderia ter feito para mudar essa tragédia.

Sei que não adianta pensar nisso, mas eu penso. 

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