Ainda concentrado em SP, sarampo começa a se deslocar pelo país

18 estados tiveram novos registros da doença nos últimos 90 dias; campanha nacional de vacinação mira jovens de 20 a 29 anos

Brasília

Com os registros concentrados quase que totalmente em São Paulo nos últimos meses, o sarampo começa agora a se deslocar para outros estados.

Dados de boletins do Ministério da Saúde, analisados pela Folha, apontam uma tendência de mudança na distribuição de casos da doença no país.

Até o início de agosto, cerca 99,5% dos casos confirmados nos 90 dias anteriores, período usado pela pasta para indicar locais com surto ativo, haviam sido registrados em São Paulo. Desde então, esse percentual tem registrado queda, e agora atinge 86,6%.

“Esse índice vem reduzindo. Estamos vendo uma inversão, e isso pelo aumento nos demais estados”, afirma o secretário de Vigilância em Saúde do ministério, Wanderson Oliveira.

A situação também vem acompanhada de uma mudança no panorama da doença em São Paulo, estado que soma 12.296 casos confirmados —destes, 55,6% na capital.

“Ainda não podemos dizer que caíram os registros [na região metropolitana de São Paulo], mas vemos uma tendência de queda”, afirma a diretora do Centro de Vigilância Epidemiológica do estado, Helena Sato, que atribui o cenário à maior adesão da população a campanhas de vacinação. “Agora, vemos uma tendência do sarampo ir mais para o interior”, afirma. 

Segundo ela, a expectativa é que um eventual aumento nas outras cidades seja menos intenso por causa da mobilização dos últimos meses.

Enquanto a parcela de registros diminui em São Paulo, outros estados apresentam aumento recente nos registros da doença.

Ao todo, 18 estados tiveram casos de sarampo confirmados nos últimos 90 dias, o que configura surto ativo, segundo o ministério. Desses, seis concentram o topo da lista: Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Pernambuco, Minas Gerais e Bahia.

No Paraná, o primeiro registro deste ano ocorreu em agosto. Desde então, já são 429 casos confirmados, de acordo com a Secretaria Estadual de Saúde. Só na última semana, foram 61 casos. Até então, o último registro da doença no estado havia ocorrido em 1999.

“Um dos motivos para o reaparecimento é o fato de as pessoas deixarem de se vacinar. Houve uma acomodação da população justamente porque a doença deixou de existir, abrindo uma janela populacional sem imunização”, afirma o secretário estadual de Saúde, Beto Preto.

A situação tem levado a rede de saúde a intensificar a busca por não vacinados em locais onde houve casos da doença. Alguns municípios também têm feito avisos para que escolas observem se crianças estão com doses em dia.

Uma das maiores preocupações do estado, no entanto, é o alto número de casos entre jovens de 20 a 29 anos de idade, faixa que concentra 52% dos registros. 

Situação semelhante é verificada em Santa Catarina, estado com 99 casos confirmados de sarampo neste ano —boa parte também entre jovens de 15 a 29 anos.

Nesta semana, o Ministério da Saúde iniciou uma nova fase da campanha nacional de vacinação com foco em jovens de 20 a 29 anos. A estratégia segue até o dia 30 deste mês.

A estimativa da pasta é que haja 9 milhões de pessoas desse grupo não vacinados ou com o esquema incompleto no país.

Para a gerente de Imunização da Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina, Lia Quaresma, a medida deve ajudar a controlar os casos.

Segundo ela, os primeiros atendimentos no estado foram de pacientes que adquiriram a doença em um navio (três casos) e de pacientes que vieram de São Paulo. Desde então, a presença de áreas com não vacinados e a fácil transmissão em locais de aglomeração colaboraram para o aumento recente nos registros entre jovens.

“Temos percebido uma tendência de aumento, ainda mais agora em férias e com eventos. Tivemos alguns que favoreceram. Houve um show de um DJ em um município, e em seguida vimos aumento de casos”, relata. “São situações que podem acontecer.”

Já nos estados da Bahia, Pernambuco e Minas Gerais, o aumento recente tem sido atribuído ao resultado de exames de casos suspeitos que estavam em investigação.

Nas últimas semanas, a tendência tem sido de estabilidade ou leve queda —panorama semelhante à avaliação geral feita pelo Ministério da Saúde para a doença no país.

É o que também espera Edmar Santos, secretário de Saúde do Rio de Janeiro, estado que soma 150 casos confirmados neste ano —destes, boa parte no segundo semestre.

“Ainda temos algumas notificações. Só podemos dizer que não há mais um surto quando ficarmos três meses sem casos. Mas, na prática, esperamos que diminua a incidência”, afirma.

Ele atribui a análise ao aumento na vacinação, desafio que ainda persiste em parte do estado.
“Estávamos com indicadores ruins, e agora atingimos a meta. Mas ainda temos alguns municípios com vacinação aquém do necessário, e que a partir da semana que vem estamos indo fazer uma ação mais ativa”, diz.

Para Helena Sato, de São Paulo, o alerta em relação à doença precisa ser mantido. “Não dá para dizer que o sarampo vai reduzir no verão. O que vai reduzir a doença é a vacina”, afirma.

Vacine-se contra o sarampo

Quem deve se vacinar? No momento, a campanha do Ministério da Saúde tem como foco os jovens de 20 a 29 anos de idade. A meta é que pessoas dessa faixa etária tomem duas doses da vacina tríplice viral (caxumba, rubéola e sarampo) com intervalo mínimo de 30 dias.

O que é preciso para se vacinar? Basta ir a uma unidade básica de saúde com a caderneta de vacinação.
Se não houver comprovação vacinal, a pessoa receberá a primeira dose da vacina durante a campanha e a segunda será agendada.

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