Rastreamento de celular indica que cabeleireiro não esteve no local do crime

Informações de operadora indicam que nenhuma ligação de Sidney Sylvestre Vieira ocorreu em cidade onde homem foi torturado

São Paulo e Brasília

A quebra do sigilo telefônico do cabeleireiro Sidney Sylvestre Vieira, 31, entregue nesta terça (26) à Justiça de São Paulo por operadora de celular, reforça a tese de que o rapaz não esteve em Itapecerica da Serra (Grande SP) no dia em que foi cometido o crime pelo qual ele ficou preso por 16 meses.

Vieira foi solto no último dia 13 após ficar um ano e quatro meses preso sob a suspeita de ter participado do sequestro e tortura do aposentado Miguel Elias, 74, no dia 19 de novembro de 2017, em Itapecerica, mesma data em que ele foi encontrado jogado às margens de uma rodovia.

A vítima morreria 15 dias depois, em 4 de dezembro.

O cabeleireiro Sidney Sylvestre Vieira, que ficou mais de um ano preso, acusado de tortura e morte, sem provas
O cabeleireiro Sidney Sylvestre Vieira, que ficou mais de um ano preso, acusado de tortura e morte, sem provas - Danilo Verpa/Folhapress

De acordo com as informações prestadas pela operadora Vivo, entre as 9h01 do dia 18 de novembro de 2017 (um dia antes do crime) e as 23h37 do dia 21 de novembro (dois dias depois), foram efetuadas e recebidas 52 ligações pelo telefone celular usado por Vieira. 

Nenhuma delas foi realizada ou recebida em Itapecerica da Serra.

O rastreamento das bases repetidoras de sinais (ERBS), que foram acionadas durante as ligações efetivadas (e que deixaram registro) indicam que o celular de Vieira só recebeu ou efetuou ligações de endereços localizados em Embu das Artes, cidade onde ele mora e trabalha.

São cerca de 15 km entre a casa de Vieira e Itapecerica da Serra.

A quebra dos sigilos telefônicos do cabeleireiro não foi solicitada pela Polícia Civil ou pelo Ministério Púbico durante as investigações. O pedido foi feito pela defesa de Vieira, em abril deste ano, já que o rapaz e todas as testemunhas dele afirmavam que o cabeleireiro não deixou a cidade naqueles dias.

Em entrevista à Folha nesta semana, Vieira disse ter tentado explicar isso à juíza do processo, mas diz que ela não quis escutá-lo. “Se ela me ouvisse, se ela chegasse a conversar comigo, eu iria dizer para ela: ‘Procure onde está o erro, porque eu nunca saí de Embu’", disse ele.

A família também apontava o uso do aparelho como uma prova da inocência dele porque, sem crédito, só conseguia acessar as redes sociais quando estava em casa ou no trabalho. Na noite e suposto horário do do crime, ele curtiu uma foto em uma rede social quando estava em casa.

O advogado Thiago Gomes Anastácio, defensor de Vieira, disse ver nas informações obtidas a partir da quebra do sigilo telefônico uma prova inconteste da inocência do cabeleireiro. “Foi desnudado o erro judiciário. Mais uma vida perdida que deve não apenas servir de exemplo, mas humanizar todos nós do sistema de Justiça. Nós erramos e erramos gravemente. Não falo apenas da magistratura, do Ministério Público, mas de todos nós quando silenciamos sobre os erros que sabemos existir”, afirma ele.

Procurado, o Ministério Público não comentou as informações anexadas ao processo. Informou, apenas, que a Promotoria ainda não foi intimada pela Justiça para se manifestar sobre o relatório.

ENTENDA O CASO

Vieira foi preso em 13 de julho do ano passado após ser apontado pela Polícia Civil como comparsa do marceneiro Rubens Henrique Pungirum, 32, principal suspeito do sequestro, tortura e morte de Elias. Este homem teria agredido o aposentado por suspeitar que Elias teria estuprado sua filha, que tinha 11 anos à época. As investigações colocam dúvidas se houve, de fato, o estupro.

Localizado pela policia, Pungirum apontou dois nomes como seus ajudantes no crime: Sidnei e um "tal de Beto". Nenhum dos supostos comparsas tinha nome completo.

A investigação chegou ao nome de Sidney Sylvestre Vieira supostamente ao encontrar, entre os pertences de Pungirum, um cartão de visitas do salão de cabeleireiro. Vieira disse à Folha que aqueles cartões encontrados pela polícia eram espalhados por toda a cidade de Embu, como propaganda do salão, e nunca chegou a ver Elias; e que só veio conhecer o comerciante no fórum, quando foram apresentados pelos policiais.

Tempos depois de dizer os nomes de supostos comparsas, Pungirum voltou atrás e disse na Justiça que só mencionou nomes após ter sido agredido por policiais que conduziram as investigações.

O recuo do suspeito deixou a polícia e o Ministério Público sem provas da ligação de Vieira com o crime. Mesmo assim, e mesmo o cabeleireiro sendo réu primário, com residência e empregos fixos, todos os pedidos de liberdade solicitados no processo foram negados pela Justiça até o último dia 13, quando o juiz Gustavo Henrichs Favero revogou a prisão preventiva e deu a ele oportunidade de responder ao processo em liberdade. A decisão final do processo ainda não foi marcada.

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