Há mais de 40 anos, associação faz renascer locomotivas em SP

Oficina recupera atualmente três modelos; custo pode chegar a R$ 600 mil

Oficina mantida em Campinas por uma associação de preservação ferroviária tem relíquias centenárias resgatadas antes de virarem sucata

Oficina mantida em Campinas por uma associação de preservação ferroviária tem relíquias centenárias resgatadas antes de virarem sucata Bruno Santos/ Folhapress

Campinas

O ano era 1985. Empolgados com uma associação criada apenas oito anos antes, os voluntários e funcionários sofreram o maior baque nas mais de quatro décadas de existência da entidade de preservação ferroviária: um incêndio criminoso destruiu dez vagões usados no transporte de turistas entre Campinas e Jaguariúna. Dois funcionários, que dormiam num deles, quase morreram.

Com o fogo, foram embora na madrugada de 8 de setembro daquele ano carros centenários construídos em madeira que pertenceram a extintas empresas ferroviárias, como a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro e a Companhia Paulista, que estavam estacionados na estação Carlos Gomes, em Campinas.

Até hoje não se sabe quem ateou fogo em relíquias como o vagão CB-16, construído em 1886 nos EUA, mas o que se sabe é que a partir dele a oficina de trens mantida pela ABPF (Associação Brasileira de Preservação Ferroviária) cresceu e cada vez mais carros de passageiros e locomotivas chegam para restauro.

“Daqueles dez, só um foi recuperado. Eram carros de luxo, restaurante. Na hora a gente não sabia nem o que pensar”, disse o maquinista Antonio Edson Laurindo dos Santos, 61, que há 40 anos atua na preservação do patrimônio histórico.

Hoje há três locomotivas sendo recuperadas: a 505, a 215 e a 9 —os trens são, desde sempre, marcados por números, que servem para identificar a origem das máquinas. E há 12 vagões à espera de restauro.
Além de marias-fumaças e vagões em restauração, a oficina que fica na rota de 24 km entre Anhumas (Campinas) e Jaguariúna se converteu também numa espécie de museu a céu aberto, já que ali estão expostas, ainda que em mau estado, locomotivas e vagões das mais variadas companhias ferroviárias que atuaram no Brasil entre o final do século 19 e as primeiras décadas do século passado.

Um deles, fabricado na Bélgica, é habitado seis dias por semana pelo torneiro mecânico Ronaldo Antonio Fernando, 46, que há quatro anos trabalha na oficina. A família, mulher, dois filhos e neta, fica em Piracicaba.

“Se a gente não fizer, acaba. Não há ninguém para fazer o que fazemos”, disse ele.

Quando se fala em espera, é literal. O serviço é demorado, às vezes com o uso de quatro pessoas e dois meses de serviço para restaurar apenas uma peça. É um dos dois maiores entraves para recolocar o trem nos trilhos —o outro é dinheiro.

Locomotiva em oficina, que funciona como museu a céu aberto
Locomotiva em oficina, que funciona como museu a céu aberto - Bruno Santos/ Folhapress

A 505 precisa de uma nova peça fundida que não existe mais. Fabricada em 1927, a locomotiva pertenceu à Rede Mineira de Viação e agora sua volta aos trilhos depende das mãos de Fernando, um dos funcionários contratados pela associação para fazer ressurgir os trens.

“Quando é preciso comprar algo novo para modernizar um pouco a máquina, sem perder obviamente suas características históricas, o gasto pode chegar a R$ 800 mil. É muito caro, mas isso a gente comprando e fazendo. Se fosse terceirizar, passaria de R$ 1,5 milhão, totalmente inviável”, disse Helio Gazetta Filho, diretor administrativo da ABPF Campinas.

Já a 215, que operava na Estrada de Ferro Oeste de Minas, é ainda mais antiga, 1912, mesmo ano de fabricação da 9, que percorreu os trilhos da Estrada de Ferro Araraquara no passado.

O custo para recuperar os carros de passageiros é menor, cerca de R$ 400 mil, em média. “Dura muito, mas é caro quando precisa de reparo. O que entra morto a gente faz renascer”, disse.

Dentro da antiga estação estão tornos, soldas, madeiras e materiais de usinagem, usados por eletricistas, torneiros mecânicos, marceneiros e pintores. Já atrás da plataforma de embarque há grandes peças, como eixos, aguardando o dia em que serão úteis em alguma futura máquina a ser recuperada.

Em média, a associação faz a recuperação de um carro de passageiros por ano, fora a manutenção de locomotivas, que custa até R$ 600 mil.

Os vagões e máquinas em restauro se somarão ao acervo da associação, que hoje tem 19 carros de passageiros disponíveis para operação e 6 locomotivas, sendo 3 a vapor (marias-fumaças) e 3 movidas a diesel.

“A nossa busca por acervo é infinita. Se encontramos algo que dê resgate e seja interessante, com chance de recuperação, vamos atrás, sempre”, afirmou o diretor.

Para o maquinista Santos, o mais importante é entregar aos visitantes um trem com confiabilidade. “Parece bobeira falar que fico feliz ao ver o passageiro sair do trem como entrou, mas é isso o que importa, pois estamos falando de carros centenários. Não consigo imaginar o país sem trem, mas também gostaria de ver muito mais do que temos hoje.”

Ronaldo Antonio Fernando (esq.) e Antonio Edson Laurindo dos Santos dentro de trem na associação
Edson Laurindo dos Santos e Ronald Antonio Fernando dentro de trem na associação - Bruno Santos/Folhapress

ORÇAMENTO

Os passeios oferecidos por associações de preservação no país custam normalmente acima de R$ 100 por passageiro (inteira), valor que é alvo de críticas especialmente em redes sociais.

Na avaliação de Gazetta Filho, não é possível custar menos devido aos valores envolvidos na manutenção permanente das vias férreas, na recuperação dos trens e no pagamento de 26 funcionários da associação na cidade do interior paulista.

“As pessoas não têm noção de tudo que está envolvido por trás disso. Cuidar de linha, fazer manutenção, limpeza, conferir dormentes, fazer trocas, pintar pontilhões. São muitas as atividades necessárias para o trem poder partir.”

De acordo com ele, o custo médio do bilhete é de R$ 75, graças à meia-entrada e às gratuidades. O orçamento anual da ABPF é de cerca de R$ 3 milhões, dos quais R$ 1 milhão são gastos só com as manutenções. O ideal seria ter receitas totais de R$ 3,6 milhões, conforme o diretor, para acelerar os restauros.

Além dos ingressos, o orçamento é composto pela venda de souvenires —camisetas, chaveiros, imãs de geladeira e quepes de maquinista—, pelo bar que funciona num vagão-restaurante e pelas anuidades pagas pelos sócios.

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