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Fábricas de roupa íntima passam a produzir máscara contra Covid-19 no Rio

Máquinas antigas, que faziam para 'calçolas de vovó', são boas para confeccionar equipamento de proteção, diz empresário

Rio de Janeiro

Máquinas e costureiras antes especializadas na produção de calcinhas, sutiãs, cuecas, camisolas e pijamas passaram a atuar na produção de máscaras, capotes e toucas.

O pólo têxtil de Nova Friburgo (RJ) e cidades vizinhas, conhecido pela produção de roupa íntima, converteu parte de sua linha de produção para a confecção de equipamentos de proteção individual, os EPIs, para evitar a transmissão do novo coronavírus.

A produção que, inicialmente, atendia a pedidos de médicos amigos ou doação, passou a gerar uma demanda de prefeituras da região e empresas com dificuldades em encontrar o material. A China, principal produtora, inflacionou seus preços e tem filas com prazo extenso para entrega.

Funcionárias da MS Porto Confecções, do pólo têxtil de Nova Friburgo (RJ), fabricam máscaras
Funcionárias da MS Porto Confecções, do pólo têxtil de Nova Friburgo (RJ), fabricam máscaras - Divulgação

“Por serem peças pequenas, são muito parecidas com as que a gente já trabalha há muitos anos. As máquinas são delicadas. Então não precisa de muita transformação. A conversão para fazer os aventais, toucas, protetores de pé é um processo muito rápido”, afirmou Marcelo Porto, presidente do Sindvest (Sindicato da Indústria do Vestuário).

Na Rosativa, que fabrica lingeries e roupas de dormir, máquinas antigas foram reativadas para a produção de máscaras de tecido, indicadas para o público geral.

“Máquinas que quase viraram sucata passaram a ter uma valia. Os pontos [de costura de lingeries] atuais são mais delicados. Essa máquinas mais antigas são para aquelas antigas calçolas da vovó. É um fechamento básico que é bom para a máscara [de tecido]”, disse o empresário Jamil Kazan, dono da Rosativa, há 22 anos no mercado.

Ele iniciou a nova produção com um lote inicial de 500 máscaras, entregues gratuitamente para seus próprios funcionários, médicos da cidade e a igreja. A leva inicial serviu como teste para a readequação da produção.

Também foram doações que levaram Eleonara Erthal, da Monthal, a começar a produção dos EPIs. Inicialmente, foram alguns jalecos e máscaras para postos de saúde de Bom Jardim, cidade vizinha a Nova Friburgo. Depois, macacões para um parente médico que mora em Cabo Frio.

“De repente vi essa demanda. Comprei uma leva de TNT e estou produzindo”, disse Erthal.

A fábrica da Monthal, antes fechada, reabriu com 7 dos 42 funcionários que tinha antes do fechamento determinado pelas autoridades.

A demanda fez com que a Prefeitura de Nova Friburgo autorizasse o funcionamento das fábricas no dia 9 de abril. O município, contudo, exigiu que a produção fosse voltada exclusivamente para a produção dos equipamentos de proteção com emprego de metade dos funcionários a fim de garantir o distanciamento entre eles.

A conversão da linha de produção atingiu cerca de 260 fábricas do pólo têxtil, que tem 1.730 empresas associadas.

A expectativa do pólo é que a demanda cresça à medida que o uso de máscara se torne um hábito na população em geral. Na capital do Rio de Janeiro, o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) tornou obrigatório o uso do equipamento a partir desta quinta-feira (23).

As fábricas ainda estão se adaptando para se adequar às regras da Anvisa ——relaxadas atualmente em razão da emergência— para fornecer equipamento de forma regular a hospitais.

O Senai está realizando uma pesquisa para testar novos materiais para a produção de EPIs para atender o ambiente hospitalar.

“Tem empresas querendo mudar de nicho definitivamente. Máscara vai participar do nosso guarda-roupa”, afirmou Milena Cariello, coordenadora de Educação Profissional do Espaço da Moda do Senai.

Uma delas é a empresária Vanuza Suet, dona da Laços Vogue, que produzia laços, forminhas e outros itens para festas. Sua fábrica tem uma máquina de solda eletrônica, o que a permite confeccionar EPIs para ambientes hospitalares.

“O mercado de festas vinha muito fraco, mesmo antes do coronavírus. Vou tentar criar uma área só para EPIs se houver demanda”, disse Suet.

Há, contudo, reservas entre empresários sobre a conversão definitiva de linhas de fábrica para a produção desses equipamentos. Teme-se que a concorrência de produtos chineses inviabilize o investimento para produção em escala no futuro.

“Se o Brasil aprender a comprar do Brasil, é diferente. Se houvesse isso, investiria em máquinas para ter uma linha de EPI, o que seria ótimo. O problema é que existem os contêineres que chegam da China. Quem vai concorrer com a China?”, disse Eleonora Erthal, da Monthal.

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