No extremo sul de SP, moradores sem auxílio têm de recorrer a cesta básica

Apenas um terço da população da região tem emprego formal, segundo ONG

São Paulo

​No extremo sul de São Paulo, a expressão "em análise" ganhou contornos dramáticos para os moradores de bairros como Parelheiros, Vargem Grande e Engenheiro Marsilac.

Significa que algo deu errado no pedido de auxílio emergencial de R$ 600 mensais anunciado pelo governo federal. Quem se depara com essas duas palavras sabe que frequentemente são um eufemismo para dinheiro negado sem maiores explicações.

Na última segunda-feira (18), cerca de 60 pessoas enfrentavam a manhã fria e a neblina típicas do bairro de Vargem Grande, nas proximidades da serra do Mar, para receber cestas básicas e kits de higiene doados pela Associação ProBrasil, ONG que atua há 21 anos na região.

Muitos dos que ali estavam buscavam os produtos após verem frustrada a promessa de conseguir o auxílio do governo. Eram trabalhadores informais que perderam sua renda ou pessoas que já estavam desempregadas mesmo antes da crise do coronavírus.

“Estamos na análise, como eles dizem. Não dão a opção de saber por quê”, disse Elizabeth de Paula, desempregada, que aguardava sua vez de pegar a cesta contendo arroz, feijão, sal, leite, macarrão, sardinha e óleo, entre outros produtos. Já o kit vem com pasta de dente, sabão, sabonete e papel higiênico.

“Se um dia eu pegar esses R$ 600 quero ir no atacadão encher o carrinho de arroz e feijão”, afirmou.

Sem renda, a doação da ONG virou o único meio de sobrevivência até a crise passar.

“A gente pega a cesta e ainda divide com alguém que precisar”, disse o marido dela, José Izael, que fazia trabalhos esporádicos como fiscal de obras, todos agora suspensos.

Cícera Jucivânia é outra que teve de recorrer à ajuda após fracassar na tentativa de sacar o auxílio emergencial. “Não fui aprovada porque disseram que alguém já tinha pego”.

Mas essa hipótese, afirma ela, é impossível. Monitora de uma van escolar, ela se viu sem trabalho quando as aulas foram suspensas. Sem registro, trabalhava como autônoma.

Jucivânia mora com um irmão, também desempregado pela pandemia, e um sobrinho de 18 anos, que está tentando pegar o auxílio, sem sucesso até o momento.

“A gente percebe realmente como aumentou a demanda por cesta básica”, disse Uwe Weibrecht, 49, um ex-frade dominicano alemão que preside a ONG.

Levantamento feito pela Associação ProBrasil em abril e maio com 890 famílias atendidas pela no extremo sul da capital mostra como essa população depende do auxílio governamental durante a pandemia.

Apenas 32% responderam que têm na família algum membro com emprego formal, em tese mais protegido na crise.

Outros 25% do universo são famílias com desempregados ou que declararam não ter nenhuma renda. As restantes são formadas por autônomos ou pessoas que têm em programas sociais sua única fonte de renda.

Dos que responderam ao levantamento da ONG, 72% afirmaram que não têm tido qualquer tipo de trabalho no período de quarentena, o que é um dado preocupante, dada a grande quantidade de autônomos na região.

Desde o início de abril, a ONG já distribuiu 2.700 cestas e kits, das quais 882 foram compradas a partir de convênio com a prefeitura e o restante com recursos de doações privadas.

Os níveis de isolamento, de acordo com o presidente da entidade, têm ficado aquém do necessário.

“Estamos colhendo agora a situação de isolamento que vivemos nas últimas semanas. Ainda há um entendimento muito rudimentar sobre como o vírus se propaga”, afirmou Weibrecht.

A dificuldade em ficar em casa é explicada, em grande medida, pela necessidade de tentar obter alguma renda.

Hipertensa e cardíaca, a feirante Vanessa Ferreira da Cunha Lopes, 38, tem buscado manter o isolamento desde a escalada dos casos de Covid-19.

“Mas de vez em quando a gente tem que se arriscar e ir para a feira”, disse ela, que costumava ganhar cerca de R$ 3.000 por mês.

Há diversos casos, no entanto, simplesmente de inconformismo com a orientação de ficar em casa.

Desempregado desde o final do ano passado, José Geraldo Ferreira da Silva, 60, afirmou que sai para passear com o objetivo de tentar manter a sanidade mental.

“Eu ando de bicicleta por aí, vou pro meio do mato. A mulher fala que é perigoso, mas ficar em casa preso é mais perigoso, você fica doido”, disse ele, que também tentou obter o auxílio emergencial, mas não conseguiu.

Ajudante geral no Hospital do Grajaú, Karoline Araújo dos Santos diz que alguns moradores da região são bastante rebeldes, principalmente os mais velhos.

Ela dá o exemplo de seu pai, que tem 65 anos e trabalhava como cozinheiro autônomo. “Eu dou graças a Deus que não tem emprego, porque se aparecesse ele saía pra rua”, afirmou.

Muitos dos moradores da região com quem a Folha conversou se disseram confusos sobre a orientação que vem das autoridades, especialmente em razão das mensagens conflitantes entre o presidente Jair Bolsonaro, defensor da flexibilização da quarentena, e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que advoga a manutenção de políticas mais estritas de isolamento.

Dono de um bar no bairro Jardim dos Alamos, Francisco Assis da Silva, 46, declarou que concorda com o presidente, “apesar de ele fazer umas coisas embaçadas”.

“Abri o bar às 11h30 e estou indo embora daqui a pouco [por volta de 14h]. Não dá pra trabalhar, né?”, disse. “Se não abrir logo o comércio, quem não morrer de doença vai morrer de fome. As contas seguem chegando”, afirmou.

Tanto ele como sua mulher receberam a temida mensagem de que os pedidos de auxílio emergencial estão ”em análise”.

“As autoridades estão deixando muito a desejar. A população fica meio perdida. Se o presidente, que é a maior autoridade, fala uma coisa, e o governador fala outra, como é que fica?”, disse Jackson Douglas, 29, que trabalhava como autônomo numa empresa de eventos.

“O presidente é muito inteligente, só não está sabendo usar a inteligência dele”, afirmou.

Moradora de Vargem Grande, Zélia Ferreira da Cunha, 50, diz que o presidente está “deixando a desejar”.
Desempregada, recebia R$ 140 do Bolsa Família, benefício cortado no início do ano sem motivos, segundo ela.

Sobre os R$ 600, que também não conseguiu pegar, diz que não chegam perto de compensar a renda perdida pelos que trabalhavam. “Esse dinheiro não paga nem a terra que vão jogar em cima de quem morrer”.

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