Descrição de chapéu Coronavírus

Após superarem Covid-19, famílias dizem sentir alívio para passar pela pandemia

Para médicos, sentimento é válido, mas há preocupação de que a imunidade não seja duradoura

São Paulo

Viver em família significa que se um dos membros é diagnosticado com Covid-19, os outros têm mais chances de também ter resultado positivo para o coronavírus. Foi o que aconteceu com a ortopedista Rosana Soares Patricio, 55.

Durante o feriado da Páscoa ela começou a sentir tontura, calafrio e cansaço. Poucos dias depois, seu marido, anestesista, que preferiu não ter seu nome divulgado, passou a se sentir mal. O mesmo aconteceu em seguida as duas filhas do casal, Giuliana, 23, e Giovanna Soares Patricio, 21.

Os quatro foram diagnosticados com Covid-19. As jovens se trataram em casa e sem grandes problemas, mas os pais apresentaram quadro mais grave e tiveram que ser internados no HCor (Hospital do Coração) por pouco mais de uma semana. Ela teve 45% do pulmão comprometido; ele, 25%.

O casal celebrou os 25 anos de casamento dentro do hospital, cada um no seu respectivo quarto com direito a um jantar especial. A celebração foi feita via troca de bilhetinhos passados pelas enfermeiras.

Rosana Batista com suas filhas Giovanna e Giulia Soares Patricio, todas foram diagnosticadas para o novo coronavírus, mas passam bem
Rosana Soares Patricio com suas filhas Giovanna e Giuliana Soares Patricio, todas foram diagnosticadas para o novo coronavírus, mas passam bem - Arquivo Pessoal

“Fiquei muito assustada”, conta ela, que relembra que nos piores dias apresentou baixa oxigenação e chegou a notar a ponta dos dedos e lábios ficando roxas. Hoje, a médica agradece o tratamento que recebeu no hospital e conta que sente alívio pelo fato de a sua família já ter sido infectada pelo vírus.

“Claro que não estamos saindo e mantemos a quarentena, mas, se precisamos ir ao mercado, não sinto mais medo por mim e pelas minhas filhas”, diz Rosana. Hoje, porém, o medo dela recai sobre sua mãe, tia e sogra, mulheres idosas que integram o grupo de risco da doença.

Diversos estudos feitos com animais de laboratório (em especial macacos) e com seres humanos que tiveram Covid-19 mostram que o mais comum é que, no fim da primeira semana de sintomas, as vítimas do vírus desenvolvam uma reação específica ao Sars-CoV-2, incluindo tanto anticorpos que neutralizam o patógeno quanto células que “memorizam” suas características para atacá-lo no futuro.

A grande dúvida é saber quanto tempo essa capacidade de reação rápida se mantém no organismo, já que ela costuma durar apenas algo entre um ano e dois anos no caso dos coronavírus mais conhecidos.

Mesmo assim, o alívio de Rosana é um sentimento compartilhado por famílias que superaram a doença e foram ouvidas pela Folha. Passado o susto, é notória a sensação de que o pior já passou.

Foi o caso dos pais da estudante de administração Manuela Forbes, 22, diagnosticados com Covid-19 em meados de março. A jovem, apesar de viver com eles, não pegou o vírus.

Enquanto seu pai ficou assintomático, a mãe se sentiu mal por alguns dias e na segunda semana apresentou uma piora e teve febre por dez dias.

“Ela ficou com muito medo de morrer”, lembra Manuela. Não houve, porém, comprometimento dos pulmões, e hoje ela está recuperada.

“Ainda tenho medo de me infectar, mas ficaria mais preocupada se meus pais não tivessem contraído o vírus. Se eu tiver a doenca, não tenho mais receio de passar para eles”, diz ela, que notou os pais mais aliviados. Seu pai até voltou a trabalhar no escritório.

“Tudo que estamos vivendo já é pesado e existe uma neurose automática, mas, como eles já tiveram a doença, sinto o clima daqui de casa mais leve”, diz ela.

Algo semelhante aconteceu com a família da também administradora Ana, 22, que pediu para ter o nome alterado por ter sentido preconceito de pessoas próximas a ela em relação aos familiares infectados.

Os pais e a irmã, que tem 18 anos, foram diagnosticados com a Covid-19. Cada um apresentou sintomas diferentes. Ana foi a única que não teve resultado positivo.

“Criou-se um ciclo de medo em volta da doença. As pessoas entendem a gravidade, mas reagem como se fosse uma sentença de morte e sinto que não entendem que o ciclo do vírus deles acabou e que agora estão bem”, conta ela.

Quando o pai começou a sentir sintomas, parou de atender seus pacientes, assim como sua mãe. Agora, passado mais de um mês e meio desde o isolamento, eles retornaram os atendimentos e estão bem.

Casos como os da família de Manuela e Ana, em que alguns membros da mesma famílias são diagnosticados com a doença, mas outros não, foram notados por médicos.

O infectologista do Instituto de Infectologia Emilio Ribas explica que nem todos que se expõem ao vírus terão a infecção. Ele caracteriza a transmissão como uma roleta russa.

“Esse tipo de situação depende de vários fatores. Depende da quantidade de vírus que tem na mucosa, da forma como essa transmissão ocorre, da vulnerabilidade do outro. Não é uma equação em que todos vão se contaminar”, diz ele.

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