Descrição de chapéu Coronavírus

Cenas do Brasil são usadas em outros países para espalhar desinformação na pandemia

Invasões a hospitais de campanha e Bolsonaro como 'presidente da Itália' ilustram posts falsos

Maurício Moraes
Agência Lupa

Diante da situação trágica da Itália no fim de março, com uma explosão de casos de Covid-19, seu presidente teria sido fotografado com os olhos cheios de lágrimas. Ele parecia ter se arrependido da fraca resposta adotada contra a doença, insuficiente para conter o avanço.

A imagem, no entanto, não mostrava o chefe de Estado da Itália, Sergio Mattarella, e não tinha relação com a pandemia. O homem que aparecia era o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (sem partido), que chorou, em dezembro de 2019, ao se lembrar do atentado sofrido durante a campanha eleitoral.

Posts falsos usando imagens do Brasil fora de contexto circularam por pelo menos 20 países desde o início da pandemia e foram alvo de 52 checagens de 1º de janeiro até 14 de julho. A maior parte dos conteúdos usou fotos ou vídeos de políticos brasileiros (22). Em seguida vieram cenas de supostas fiscalizações do lockdown (10) e imagens sobre mortes (6) e aglomerações (5).

Uma das publicações mais compartilhadas pelo mundo foi a que mostrava o choro do "presidente da Itália", que, na verdade, era Bolsonaro. Em algumas versões, a legenda dizia tratar-se do primeiro-ministro Giuseppe Conte, a quem eram atribuídas frases falsas: "Não entendo o que mais podemos fazer, porque esgotamos as soluções. Nossa última esperança está no céu".

Nem Conte, nem Bolsonaro disseram isso. A história circulou no fim de março e foi desmentida 15 vezes nos Estados Unidos, na Índia, nas Filipinas, na Austrália, na Croácia, na Indonésia e na Colômbia. O autor da imagem original é o fotógrafo Sérgio Lima, do Poder360.

Outras cenas brasileiras que viralizaram internacionalmente foram as invasões de hospitais de campanha filmadas por parlamentares, sempre com informações incorretas. Um dos vídeos de maior repercussão foi gravado em São Gonçalo (RJ) no fim de maio pelo deputado estadual Filippe Poubel (PSL-RJ), que entrou em uma unidade de saúde para mostrar que ainda não estava concluída.

Nos posts falsos que circularam em junho no Egito, na Letônia, na Nigéria e na Espanha, a legenda dizia que o local teria "5 mil infectados", segundo autoridades, e que Poubel teria "desvendado" uma farsa.

Um dos vídeos feitos por cinco deputados estaduais paulistas ao invadir o hospital de campanha do Anhembi, em São Paulo, em 4 de junho, também foi parar na Itália. A gravação produzida por Adriana Borgo (PROS-SP) circulou com uma mensagem dizendo que, enquanto "as notícias falavam sobre uma segunda onda de Covid-19 no Brasil", dois parlamentares "mostravam a realidade" – um hospital vazio.

Só foi mostrada a parte em que os deputados passam por uma ala desativada. O local, contudo, tinha 407 pacientes internados naquele dia.

Vigilância reforçada

Em países da Ásia, circularam posts falsos com imagens do Brasil sobre a fiscalização do isolamento social. Cenas da prisão de uma pessoa que "teria desobedecido o lockdown na Itália", por exemplo, foram desmentidas no Paquistão e na Índia. O vídeo mostrava uma ação da Polícia Militar de São Paulo, em 19 de março, para conter um homem com uma faca.

Até mesmo brincadeiras foram levadas a sério. Em um vídeo desmentido na Indonésia, "autoridades da Malásia" teriam usado drones para disparar fogos de artifício contra quem desobedecesse a quarentena. As imagens foram gravadas pelo influenciador pernambucano Lucas Albert. Na legenda original da publicação, que foi ao ar em 13 de julho de 2019, ele diz ter disparado fogos contra os amigos, que não o convidaram para participar de um churrasco.

Uma pegadinha do programa Silvio Santos, com o ator Ivo Holanda, também serviu de combustível para peças de desinformação na Austrália, em Taiwan e em países do Oriente Médio. Na cidade australiana de Brisbane, a polícia teria optado por assustar quem descumprisse o isolamento social com um drone vestido de fantasma. Em outras versões do post, isso teria ocorrido na Itália. Tudo não passava de uma brincadeira que foi ao ar em 2016 no quadro Câmera Escondida, chamada Bruxa no Drone.

Também foram compartilhadas internacionalmente cenas brasileiras sobre enterros e mortes, como "prova" de que teriam sido forjadas. Isso ocorreu na Itália e na Espanha, incluindo desinformações sobre "caixões vazios" e sobre o "resgate de um homem enterrado vivo" .

Um dos posts, porém, não contestava os óbitos. A foto de um protesto em Copacabana, em 11 de junho, foi veiculada na Itália como se mostrasse covas de vítimas de Covid-19 sepultadas em plena praia, por falta de vagas em cemitérios.

Algumas imagens de aglomerações "em plena pandemia" foram feitas por aqui e distribuídas como se tivessem ocorrido em outros países. Um vídeo de pessoas entrando desesperadas nas Lojas Americanas durante a Black Friday, em 2019, viralizou na Índia.

uma foto "da praia lotada de Jacksonville", na Flórida, mostrava Copacabana em 2013. E as cenas de um saxofonista em um shopping center lotado na Turquia, tocando a música "Astronomia" – que ficou famosa com o meme do caixão –, foram gravadas em Blumenau (SC). A canção original nem era essa, mas "Have You Ever Seen the Rain".

Esta coluna foi escrita pela Agência Lupa a partir das bases de dados públicas mantidas pelos projetos CoronaVerificado e LatamChequea Coronavírus, que têm apoio do Google News Initiative, e pela CoronaVirusFacts Alliance, que reúne 88 organizações de checagem em todo mundo. A produção das análises tem o apoio do Instituto Serrapilheira e da Unesco. Veja outras verificações e conheça os parceiros em coronaverificado.news

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