Descrição de chapéu Obituário Julio Cesar de Toledo Piza Junior (1939 - 2020)

Mortes: Pecuarista, boêmio e festeiro, foi um rei do centro da cidade

Julio Cesar de Toledo Piza Junior foi presidente da Bolsa de Mercadorias de São Paulo, atual BM&F Bovespa

Carlos Maranhão
São Paulo

Durante anos, o apartamento de 400 metros quadrados na Avenida São Luís, no centro de São Paulo, recebia uma multidão de amigos e conhecidos todo dia 25 de setembro para a comemoração do aniversário do seu único morador: o pecuarista, cafeicultor e boêmio Julio Cesar de Toledo Piza Junior, ex-presidente da Bolsa de Mercadorias de São Paulo, atual BM&F Bovespa.

Seu Julio ou Julinho, como era conhecido, paulista de Araraquara, chamava para essas festas —e também para o réveillon— políticos, como Marta Suplicy, artistas plásticos, como Ivald Granato e Rubens Gerchman, apresentadores de TV, como Marília Gabriela, cantores, como Ana Cañas, empresários, advogados, garçons, barmen, sambistas, mulheres de várias faixas etárias, gente do mundo da moda, drag queens e uma infinidade de figuras da noite paulistana.

Puxadores de escolas de samba, pianistas, ritmistas e DJs tocavam música brasileira a noite toda. Generoso, o anfitrião não economizava nas bebidas: servia uísque escocês e vinhos da Borgonha. Em uma das celebrações, foram esvaziadas 40 garrafas de champanhe Dom Pérignon.

Julio Cesar de Toledo Piza Junior (1939-2020)
Julio Cesar de Toledo Piza Junior (1939-2020) - Arquivo pessoal

Enquanto os convidados dançavam e conversavam, o aniversariante ficava sentado em sua poltrona. Vestia terno risca de giz e colete, alfinete com pérola na gravata e sapatos feitos sob medida, caracterizado como um chefão mafioso aguardando o beija-mão. Rouco, falava pouco e, à vontade nesse papel, sem se levantar, esperava que cada um fosse reverenciá-lo.

Nos outros dias do ano, podia ser encontrado em uma mesa na entrada do Bar da Dona Onça, no edifício Copan, quase ao lado do seu prédio. Embora o sucesso da casa esteja ligado aos chefs Janaína e Jefferson Rueda, seus vizinhos no condomínio e organizadores das festas que oferecia, foi ele quem ajudou a financiar o empreendimento, aberto em abril de 2008.

Mais tarde, seu único filho, Julio Neto, seria o sócio investidor da Casa do Porco, também criada pelo casal Rueda. Os dois lugares tiveram, desde o primeiro dia de funcionamento, um êxito extraordinário.

Julinho resolveu engajar-se na abertura do Dona Onça para ter seu próprio bar, além do que mantinha no apartamento, rodeado por quadros de Di Cavalcanti e Volpi, mais pôsteres originais de filmes estrelados por John Wayne, Marlon Brando e Audrey Hepburn.

Por algumas décadas, foi recebido com tapete vermelho em seus endereços favoritos, já desaparecidos: Paddock, Bistrô, David’s, Baiúca e o Clubinho (bar da Associação dos Amigos do Museu de Arte Moderna).

Em todos eles, bebia apenas Johnny Walker rótulo vermelho (a senha de seu wi-fi era “Red Label”). Comia enormes pratos de nhoque ou grandes filés à milanesa e devorava caixas inteiras de chocolate Bis. Só conseguiria perder peso depois de se submeter a uma cirurgia.

Sem nunca ter feito curso superior, lia muito, contava piadas e, separado havia 40 anos, gostava de estar cercado por mulheres. Adorava reinar no centro da cidade, circulava pouco fora dali e detestava viajar, exceto para ir visitar suas três fazendas, dirigindo uma caminhonete.

Morreu na quarta-feira (8), de falência múltipla de órgãos, aos 80 anos. Deixa o filho, a nora, Cristiane, dois netos, João Pedro e Antônio, e incontáveis amigos e admiradores.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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