Nos 185 anos da Guerra dos Farrapos, gaúchos comemoram sem roda de chimarrão

Principal data do calendário tradicionalista, 20 de setembro tem shows pela internet e provas a cavalo por vídeo

Porto Alegre

Ao longo de sete dias, o Acampamento Farroupilha, em Porto Alegre, costumava transformar a paisagem verde e tranquila do Parque Harmonia, próximo da margem do rio Guaíba. A semana que culmina com o 20 de setembro, principal data do calendário gauchesco, espalhava o cheiro de churrasco e som de gaitas e violões pelo ar.

Pessoas trajando ponchos e chiripás —vestimentas de origem indígena e típicas da cultura sul-riograndense— visitavam piquetes (semelhantes aos estandes de feiras) e confraternizavam.

No ano em que a Guerra dos Farrapos completa 185 anos, gaúchos vivenciam também a batalha contra o novo coronavírus, na qual o bom senso é a principal arma: peões e prendas precisam ficar em casa para evitar a Covid-19, ainda sem cura.

Por isso, palcos foram montados com estrutura de estúdio de televisão para transmitir a programação cultural pela internet. Todavia algumas tradições permanecem iguais. A chama crioula permanece acesa 24h por dia, mas sem aglomeração para vigiá-la.

Ela saiu da cidade de Guaíba e atravessou o rio a bordo de um catamarã para chegar à capital gaúcha— mesmo trajeto dos revolucionários liderados pelo general Bento Gonçalves na tomada de Porto Alegre.

“Temos que ter o respeito pela vida e pela saúde. Assim, não temos público. Apenas os artistas estão presentes para transmitir para as pessoas que estão em casa”, explica a presidente do MTG (Movimento Tradicionalista Gaúcho), Gilda Galeazzi.

Ela é a primeira mulher que preside a entidade em 53 anos de movimento organizado. Duas mulheres disputaram a eleição. “O movimento é conservador pela sua essência, mas tem que evoluir conforme a sociedade. O movimentos se adequou a essa situação com a representatividade das mulheres”, explica a presidente.

O MTG criou o Departamento de Inclusão, que já promoveu um sarau com poesia declamada por uma prensa portadora de síndrome de Down, e a primeira prenda trans do estado foi homenageada pela sua trajetória. Fora do MTG, a sociedade também se mobiliza por uma cultura mais representativa. Um traje inclui as crianças negras nas festividades quando, normalmente, os estudantes são autorizados a substituir os uniformes das escolas pelas roupas típicas.

Com a pandemia, o costume de compartilhar chimarrão em uma roda, como manda o costume, não é mais possível. A nova etiqueta sanitária recomenda o chimarrão individual, que contraria a tradição de dividir a bebida. A bebida à base de erva-mate tem origem indígena, de povos como os minuanos e charruas.

“Sentimos falta da roda de chimarrão, do convívio, dos apertos de mão. A Semana Farroupilha é um momento de consagração, esperado por muita gente”, explica Galeazzi.

A Semana Farroupilha é tão importante para os tradicionalistas que até audiências nos tribunais abandonam a formalidade e juízes escrevem sentenças em forma de poesia gauchesca.

Assim como o MTG, a Secretaria Estadual da Cultura também lançou sua programação virtual com shows ao longo do final de semana. Os shows serão apresentados pela intérprete e radialista Analise Severo.

“Além das causas sociais, de combater o preconceito, os artistas têm a responsabilidade de levar alegria e otimismo. Especialmente nesta hora em que o público precisa deste afago. É o nosso ‘Carnaval’, afinal de contas. Mas está todo mundo recolhido”, explica Severo. A programação virtual terá os shows de nomes renomados no tradicionalismo como Os Fagundes, Gaúcho da Fronteira e Joca Martins.

Para a cantora, as apresentações mesmo sem público dão energia aos músicos para seguir trabalhando , uma vez que “a classe artística foi a primeira a parar [de trabalhar] e será a última a voltar”.

Mas não serão somente as apresentações musicais transmitidas pela internet. As gineteadas, como são conhecidas as provas em que os ginetes (cavaleiros) mostram suas habilidades com os cavalos, também são virtuais. Nas gineteadas, as crianças usam cavalos de brinquedos.

No concurso promovido pelo MTG na noite da última sexta-feira (18), os ginetes enviaram os vídeos das provas. A regra do concurso era clara: os cavaleiros precisam usar máscara nas gravações.

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