Em 5º dia de apagão, energia começa a voltar de forma escalonada no Amapá

Governo do estado diz que abastecimento será gradual e anuncia racionamento

São Paulo e Rio de Janeiro

No quinto dia de apagão no Amapá, relatos apontam que alguns bairros da capital, Macapá, começaram a registrar um retorno gradual da energia. A situação, porém, não se reflete em toda a cidade. Segundo moradores ouvidos pela Folha, alguns locais continuavam sem luz na manhã deste sábado (7).

O estado está sem energia elétrica desde terça-feira (3) à noite, após incêndio em subestação de distribuição de energia elétrica. A queda do fornecimento de energia atingiu a capital, Macapá, e outros 13 dos 16 municípios do estado, onde vivem 782 mil pessoas —cerca de 90% da população estadual. Apenas Oiapoque, no extremo norte, e Laranjal do Jari, no extremo sul, não sofreram com a falta de eletricidade.

O governo do Amapá informou em suas páginas nas redes sociais que o fornecimento está sendo parcialmente restabelecido desde a madrugada de sábado, mas que será necessário fazer racionamento nos próximos dias.

"Ao longo do dia, a CEA [Companhia de Eletricidade do Amapá] está testando adequações e ajustes no sistema. O rodízio será em turnos de seis horas", diz o comunicado.

Marcos Pereira, diretor-presidente da CEA, disse que o racionamento é necessário porque o estado só está recebendo metade da quantidade de energia necessária, que é de 300 MW. Com a reabilitação de um transmissor de energia, foi possível recuperar 150 MW.

"Para que todo mundo tenha energia em algum momento do dia, decidimos fazer esses turnos de 6 horas de abastecimento", disse. No entanto, ele afirmou ainda não ser possível garantir o abastecimento de todas as casas de Macapá e aos demais municípios do estado.

Segundo ele, a forte chuva de terça pode ter provocado danos ao sistema, o que estaria impedindo a chegada de energia elétrica em alguns locais. "Só vamos conseguir identificar esses danos e repará-los agora com a recuperação da energia".

Pereira disse que também não há previsão de quanto tempo será necessário fazer o racionamento de energia no estado.

A Marinha informou que disponibilizou três navios, uma aeronave e mais de 40 fuzileiros navais para ajudar as dificuldades no Amapá. O objetivo é apoiar as ações em anamento no estado, com intuito de amenizar os impactos da falta de energia elétrica.

A falta de previsão de estabilidade ao sistema e sem o cronograma do rodízio de energia deixam a população insegura sobre a situação para os próximos dias.

Na casa do enfermeiro Vencelau Pantoja, de 47 anos, a luz voltou por volta das 9h30 deste sábado. Ele mora no bairro Renascer, na zona norte da cidade. "Fiquei aliviado de que a energia voltou, mas a gente ainda não sabe se estabilizou. Sem luz, a gente não tem acesso a informação, não consegue se informar com segurança. Há um temor de que, para atender todo o estado, seja necessário fazer um rodízio”, disse.

Fila de carros em frente a posto de combustível
Posto de combustível em Macapá registou fila de mais de uma hora com a falta de energia - Clodoaldo Côrtes/Arquivo Pessoal

Mesmo com o retorno da energia em sua casa, Pantoja foi a comércios da cidade na manhã deste sábado para tentar comprar velas. “Nunca imaginei viver isso na minha vida. Não se encontra nem vela para comprar. Supermercados e padarias que ainda têm alimentos pra vender têm fila de mais de uma hora.”

Na casa de Clodoaldo Côrtes, 48, no Jardim Marco Zero, a energia ainda não tinha sido restabelecida na manhã deste sábado. “Passei mais de uma hora na fila para comprar água para a minha família”, contou.

Na madrugada de sábado, ele também esperou 25 minutos para conseguir abastecer seu carro, já que desde terça-feira os postos de gasolina tinham filas de espera. “Estamos vivendo o caos. É fila para conseguir qualquer coisa, água, gelo, comida, combustível. As pessoas estão perdendo a paciência e começando a brigar.”

Sem abastecimento de água e com o forte calor da cidade, as famílias mais pobres têm recorrido à água sem tratamento de córregos e do rio Amazonas para se higienizar e cozinhar.

“O mais grave é que essa situação de caos está ocorrendo em meio a uma pandemia, justamente no momento em que voltamos a ter aumento de casos. As pessoas estão se aglomerando em filas, na beira do rio pra se refrescar. O reflexo dessa situação vamos ver lá na frente”, disse Pantoja, que trabalha na vigilância sanitária do município.

O autônomo Adenilson de Almeida, 29, mora no bairro do Buritizal, na zona sul de Macapá, e na manhã deste sábado continuava sem energia em casa. Ele testou positivo para o coronavírus há dois dias e está com febre alta e dores no corpo, mas teve de sair para comprar água e comida, já que os alimentos que tinha na geladeira estragaram.

"Ou eu saio pra comprar ou passo fome. ​Estragou tudo o que a gente tinha, estou há 3 dias comendo só enlatado. E o preço de tudo subiu, um galão de água passou de R$ 6 para R$ 30 em alguns locais", disse.

De acordo com o Ministério de Minas e Energia (MME), o sistema elétrico de Macapá voltou a ser conectado à rede de transmissão e os reparos em um dos transformadores foram concluídos, o que levou ao início gradativo do atendimento aos consumidores durante a madrugada.

O ministério afirmou que o processo de retorno do transformador à operação está sendo realizado de forma escalonada, prezando pela segurança e confiabilidade do atendimento de energia elétrica aos consumidores.

Segundo o MME, o ministro Bento Albuquerque realizou reunião de acompanhamento da situação do restabelecimento da energia elétrica com integrantes de órgãos e setores envolvidos que estão em Macapá.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou na noite de sexta-feira (6) que 60% das necessidades de energia elétrica do Amapá seriam atendidas até a meia-noite, em anúncio feito em uma rede social.

De acordo com ele, uma equipe realizaria manutenção em um transformador do estado, que permitiria restabelecer o fornecimento de energia. "No momento, nossa equipe está fazendo a filtragem do ar contaminado que refrigera o terceiro transformador. Aproximadamente 46 mil litros, o que será concluído ainda hoje [sexta]", afirmou Bolsonaro.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, fizeram uma visita técnica neste sábado (7) à subestação de rebaixamento de carga da Isolux, em Macapá. Eles acompanham os trabalhos de restabelecimento do fornecimento de energia elétrica.

Conforme Alcolumbre, um transformador reserva será levado da cidade de Laranjal do Jari, que possui sistema isolado e não foi afetada pelo apagão, para Macapá. Ele prometeu que nos próximos 10 dias deverá ser restabelecida à normalidade aos amapaenses.

“Amanhã (8), nós vamos ao Laranjal do Jari para vermos como está o andamento de trazer o transformador da própria empresa. É importante ressaltar que isso é uma concessão, uma empresa privada, mas, em nenhum momento, nenhum ator público, se furtou de dar as mãos e resolver o problema”.

Ainda segundo Alcolumbre, os culpados pelo problema vão responder “na hora certa” depois da investigação: “Em vez de procurar culpados, vamos procurar solução para o problema é o que estamos fazendo”.

Já o ministro, Bento Albuquerque, informou que um procedimento administrativo começou logo após o incidente e no prazo de 30 dias será conhecida a causa da explosão, incêndio e do desligamento de energia para o Amapá. “Evidentemente, serão apuradas as responsabilidades”, garantiu o ministro.

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