Descrição de chapéu Tragédia no rio doce

Cinco anos após desastre em Mariana (MG), questões de saúde viram disputa de narrativa

Enquanto estudos e populações apontam impactos de saúde física e mental, Renova nega riscos

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Belo Horizonte

Em relatos, testemunhas da chegada da lama de rejeitos vinda da barragem rompida de Fundão, em Mariana (MG), contam sobre o cheiro químico forte, descrito por alguns como de soda cáustica, e sobre a violência da onda, que revolvia tudo pelo caminho.

Passados cinco anos do rompimento da barragem da Samarco, controlada pela Vale e BHP, que deixou 19 mortos, as consequências do desastre à saúde humana viraram uma disputa de narrativas, com a Fundação Renova, criada para tratar das reparações, contestando estudos, e poucas ações práticas para as populações atingidas na bacia do rio Doce.

Moradora de uma parte alta do município de Barra Longa, município que teve o centro urbano invadido pela lama, Andréa Domingos, 40, lembra que sentiu o cheiro forte chegando pelo bueiro e pelo vaso sanitário. Ela não perdeu a casa, mas afirma que convive até hoje com os efeitos do desastre.

Devido à poeira que chegou à sua casa, boa parte levantada por caminhões que removeram rejeitos para a parte mais alta da cidade e em um campo de futebol, ela e o filho mais novo, à época com sete meses, tiveram alterações nos exames que indicam contaminação.

Os testes foram realizados em São Paulo, há alguns anos e precisariam de revisão. Entre os sintomas, Andréa relata dores nas articulações, enjoo, pressão alta e depressão.

“Não afetou minha casa, mas afetou minha saúde, porque meu zinco, arsênio, chumbo, tudo foi alto. E no meu filho também”, diz. “Estamos à mercê, porque ninguém procura a gente para saber como está a nossa saúde."

Pelo menos dois estudos apontaram riscos de adoecimento à população e a necessidade de acompanhamento dos afetados.

Um deles, realizado pelo laboratório Ambios, cuja contratação foi definida por um órgão técnico independente, a Câmara Técnica de Saúde do Comitê Interfederativo (CIF), definiu que Mariana e Barra Longa estavam em local de perigo categoria A, que indica perigo urgente para a saúde pública.

O plano era que o estudo tivesse três fases, mas depois da conclusão da primeira fase — com análise nos dois municípios e em Linhares (ES) — ele foi interrompido.

“Depois que nós entregamos os relatórios relativos a Mariana e Barra Longa, a Fundação Renova começou um processo de desqualificação e a propor uma metodologia de estudo diferente, sendo que a nossa metodologia é a oficial do Ministério da Saúde”, afirma Alexandre Pessoa da Silva, diretor técnico da Ambios.

A nova metodologia proposta pelas empresas, denominada Gaisma (Gestão Ambiental Integrada para Saúde e Meio Ambiente), foi aceita pelo juiz responsável pelo caso, na 12ª Vara Federal em Belo Horizonte, no início do ano, que considerou inválidos outros estudos, entre eles, aqueles da Ambios.

As pesquisas foram qualificadas pelo juiz como “imprestáveis, inservíveis, inadequados, ante as notórias inconsistências técnicas e metodológicas”.

A decisão foi revertida pela desembargadora Daniele Maranhão em segunda instância, que determinou que fosse mantida a metodologia anterior, considerando que a primeira instância não apresentou justificativa suficiente para a adequação.

O estudo da Ambios analisou solo, água, sedimentos, poeira e alimentos que pudessem indicar alguma contaminação que chegaria a seres humanos. Nas conclusões, os autores apontaram que todas as localidades tinham componentes ambientais contaminados por metais pesados, incluindo cádmio, que pode ser carcinogênico.

“Uma avalanche de rejeitos sai revolvendo os rios em um turbilhão grande, mobilizando metais que estão no fundo, nos sedimentos, porque também desloca metais nas margens dos rios”, diz Pessoa, coordenador técnico-científico dos estudos.

Ele diz que, depois que a lama secou, a poeira contaminada seguiu no ar. “Nós determinamos que, praticamente toda a população, de todas as áreas das localidades destruídas dos dois municípios, foram expostas à poeira contaminada por metais pesados”, diz.

Um estudo conduzido pelo Laboratório de Educação Ambiental e Pesquisa da Ufop (Universidade Federal de Ouro Preto) também detectou a inalação da poeira no ar como uma das principais formas de provável contaminação. A coordenadora responsável pelos estudos, professora Dulce Maria Pereira, alerta ainda para a necessidade de retirada da lama, já que as chuvas e o vento movimentam os contaminantes pela bacia atingida.

“A poeira vai passando de um lugar a outro. Algumas pessoas respondem de forma mais intensa, outros não percebem agora, mas podem ter, anos depois, consequências da contaminação pelo ar”, diz.

A Renova divulgou relatório de outra empresa, a New Fields, que diz que “algumas informações e dados coletados [pela Ambios] foram mal interpretados”, o que refletiu nas conclusões do estudo. Para a empresa, o único contaminante que requer estudos complementares é o cádmio.

A fundação afirma que, de acordo com relatório divulgado em dezembro do ano passado, não há metais decorrentes da barragem do Fundão que representem risco toxicológico à saúde humana.

“O rejeito contém essencialmente elementos do solo (rico em ferro, manganês e alumínio), sílica (areia) e água. O sedimento foi caracterizado como não perigoso em todas as amostras, segundo critérios da Norma Brasileira de Classificação de Resíduos Sólidos”, diz a Renova.

No monitoramento independente sobre as ações de reparação ao desastre, conduzido pela empresa Ramboll para o MPF (Ministério Público Federal), estudos epidemiológico e toxicológico e planos de ação em saúde foram caracterizados como em nível crítico em avaliação de agosto de 2020. Apenas 2 de 45 municípios mapeados são considerados parcialmente atendidos.

A Ramboll diz que as bases mínimas dos programas não foram cumpridas pela Renova e que avalia que são poucas as ações de apoio à saúde dos atingidos realizadas até aqui. A maioria dos municípios têm tido apenas ações de monitoramento da água para consumo humanos.

“As empresas, todavia, apesar dos estudos já realizados, sustentam que é necessário demonstrar o nexo de causalidade entre o desastre e a situação de contaminação por metais pesados, o que mostra uma atuação da Fundação Renova como um instrumento de limitação da responsabilidade civil de Vale, BHP e Samarco”, diz o procurador do MPF-MG, Edmundo Dias.

Ele diz ainda que a fundação e as empresas têm atuação desrespeitosa aos direitos humanos por resistirem em adotar medidas de prevenção para fortalecer o SUS e impedir novos danos à saúde.

Apesar de a Renova garantir que a água pode ser consumida após passar por tratamento convencional em sistemas municipais de abastecimento, a defensora pública estadual de Minas Gerais, Carolina Morishita, diz que a questão da água ainda não está completamente solucionada em muitos territórios e tem ajudado a aprofundar desigualdades sociais. Há locais nos quais quem pode paga por água mineral, e quem não pode fica sem.

“Quando você não tem certeza se a água que faz a comida dos seus filhos pode ser consumida, você não tem tranquilidade. A saúde mental das pessoas atingidas é mais uma vez violada”, diz ela.

O impacto à saúde mental é relatado por boa parte dos atingidos. “Antes, a gente era paciente. Hoje é só nervosismo. Em casa, isso prejudica demais”, diz Expedito Silva, morador de Bento Rodrigues.

No território Krenak, próximo à divisa com o Espírito Santo, o rompimento causou uma ruptura entre os indígenas e o rio Uatu, considerado por eles um ancestral. A água segue sendo entregue por caminhões-pipa.

Wakrewá Krenak, 29, conta que sua filha mais velha, de nove anos, conseguiu conhecer um pouco do rio antes do rompimento. Já o filho que nasceu depois do desastre e outro que ainda está em seu ventre não tiveram essa chance.

“Não tem dinheiro que pague a tristeza do meu povo, o que a minha avó sofreu. Meu tio ancião pediu no leito de morte que levasse a ele um bok, um peixe do rio Uatu, mas a gente não pode dar”, diz.

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