Estados têm máscara racionada, atraso de salário e déficit de equipe no combate à Covid-19

Falta de respiradores, EPIs e medicamentos usados em UTI também são queixas frequentes em várias regiões

Manaus , Rio de Janeiro , Recife e Belo Horizonte

Com taxas altas de ocupação das UTIs para a Covid-19, estados enfrentam impacto em equipe e insumos na rede de saúde. Há relatos de falta de máscaras, de respiradores e de medicamentos de UTI. Sem número suficiente de profissionais, funcionários têm a jornada de trabalho estendida e outros estão com salários atrasados.

No Pará, os principais problemas relatados são de atraso de salários, falta de equipamentos de alta complexidade, como respiradores, que ainda não estão em número ideal, e a escassez de EPIs (equipamentos de proteção individual) específicos, como as máscaras N95 e macacões de proteção.

"Máscara N95 é uma por semana”, disse o anestesiologista Wilson Machado, do Sindmed-PA (Sindicato dos Médicos do Pará). O ideal, segundo ele, é que EPIs fossem fornecidos no momento em que os profissionais necessitassem. “Na teoria [a máscara N95] deveria durar uma semana, mas na prática isso não se confirma, ainda mais usando a mesma máscara o dia inteiro, todos os dias, num hospital lotado, com 34°C, como faz em Belém”.

O governo do Pará disse que “está em dia com o repasse de recursos junto às OSs (Organizações Sociais de Saúde) contratadas para gerir os hospitais regionais e que o pagamento dos profissionais é de responsabilidade das OSs, assim como o fornecimento de EPIs e outros materiais”.​

No Rio de Janeiro, parte dos profissionais de saúde do município iniciaram o mês de dezembro sem receber o salário de novembro, que atrasou e só começou a ser pago no dia 10. Segundo o Cremerj (conselho regional de medicina), a falta de insumos ainda é pontual e não está crítica.

O sindicato de médicos diz, porém, que há uma preocupação com relação à falta de medicamentos para intubação. Os estoques são baixos e de difícil aquisição no mercado, situação agravada pela falta de tempo hábil para licitações nessa época do ano e pelo grande aumento da demanda.

Na UPA (unidade de pronto-atendimento) de Botafogo, na zona sul carioca, funcionários relatam falta de ventiladores mecânicos. "Só tem dois, escolhemos a dedo quem vai. Tem muita gente já com critérios para intubar que estamos postergando com máscaras de oxigênio", diz uma médica, que pediu anonimato.

Com o cansaço enfrentado neste segundo semestre de pandemia, há muitos afastamentos de profissionais. Em Pernambuco, as licenças sem reposição de equipe comprometem o atendimento.

O Cisam, que integra o complexo hospitalar da UPE (Universidade de Pernambuco), suspendeu desde a última sexta-feira (11) atendimentos de casos não emergenciais e cirurgias eletivas.

“A decisão se deve à carência de profissionais de saúde que se afastaram do serviço na unidade por causa da Covid-19. O número de afastamento de profissionais nesta semana foi maior do que a capacidade de remanejamento”, diz a nota divulgada pela unidade de saúde.

A reserva técnica atual, segundo a UPE, é insuficiente para suprir a necessidade de 38 enfermeiros e 39 técnicos para recompor as escalas. A instituição diz que recebeu aval para contratação imediata da quantidade necessária de profissionais e que o atendimento seria retomado nesta semana.

Na maioria dos estados, a principal reclamação é em torno da falta de profissionais para atuar na linha de frente da pandemia, como em Mato Grosso do Sul e Santa Catarina.

“Um pronto-socorro que necessitava de três médicos, hoje tem que operar com o dobro, o mesmo acontece com os intensivistas, que tiveram que aumentar consideravelmente sua carga horária", disse Marcelo Santana, do sindicato dos médicos sul-matogrossense.

Para o presidente do Sindicato dos Médicos de Santa Catarina, Cyro Soncini, o temor ocorre com o novo pico de casos de coronavírus no estado. “Insumos têm, leitos têm, leitos de UTI estão num ponto de muita ocupação, mas ainda têm. Recursos humanos é a nossa dificuldade momentânea.”

O governo sul-matogrossense informou que tem aberto sistematicamente vagas para a área de saúde, mas que não controla falta de pessoal em hospitais que estão sob gestão municipal, por exemplo. De fevereiro a dezembro, foram 95 profissionais contratados pelo estado --60 deles só no último mês. Procurado, o governo catarinense não se manifestou.

No Amapá, o maior problema é a falta de médicos, principalmente os com experiência com UTIs respiratórias. Mas também faltam equipamentos de alta complexidade, como ventiladores mecânicos, e a ausência de leitos de UTI nos municípios do interior sobrecarrega o sistema de saúde da capital, Macapá.

“Aumentou muito o número de leitos de UTI respiratória, mas o número de profissionais preparados para atender nesses locais ainda é muito baixo”, relatou o presidente do CRM-AP (Conselho Regional de Medicina do Amapá), o cardiologista Eduardo Monteiro. O governo do Amapá foi procurado, mas não se manifestou.

No Amazonas, os maiores desafios ao enfrentamento da Covid-19 são a ausência de leitos de UTI e de médicos nos 61 municípios do interior, o que aumenta a sobrecarga sobre as unidades de saúde da capital.

Segundo o presidente do sindicato dos médicos, Mário Vianna, há falta de medicamentos específicos para pacientes internados nas UTIs para tratar a Covid-19, como a noradrenalina (ou norepinefrina, usada para manter o nível de pressão arterial dos pacientes em quadro de choque ou hipotensão), o fentanil (usado na sedação de pacientes entubados) e antibióticos de segunda e terceira geração.

O governo do Amazonas informou que colocou em operação, em novembro, um plano de contingência, ampliando leitos exclusivos da Covid-19. O número de respiradores disponíveis também aumentou de 720 para 780.

O desabastecimento de EPIs, insumos e medicamentos foi negado pelo governo do Amazonas que informou que recentemente adquiriu 140 mil ampolas de norepinefrina, já tendo recebido 42 mil delas. Diz ainda que tem feito contratos temporários de equipe para atender a demanda.

Também no Acre, a reclamação é de falta de médicos, principalmente no interior. O déficit leva muitos profissionais a cumprirem até três plantões seguidos e acumularem atividades em diferentes unidades de saúde e até mesmo diferentes municípios, segundo o presidente do Sindicato dos Médicos do Acre, Guilherme Pulici. "Alguns ficam até três, cinco anos sem conseguir tirar férias por falta de quem os substitua".​

No último dia 2 de dezembro, a Polícia Federal realizou uma operação no município de Cruzeiro do Sul, no Acre, para investigar supostas fraudes nos controles de ponto e acúmulos de salários por servidores da saúde sem a devida prestação do serviço.

Durante a operação, o diretor de uma unidade de saúde foi afastado e os bens de sete médicos foram bloqueados temporariamente A investigação está em curso. A PF não informou os nomes dos suspeitos.

No Espírito Santo, também há sobrecarga das equipes de saúde. “Com a sobrecarga, o trabalho passa a ser insalubre. O médico trabalha em vários hospitais, a exposição é maior e o ambiente é cada vez mais saturado e insalubre”, diz o presidente do Sindicato dos Médicos capixaba, Otto Baptista. “[O rodízio] é o tempo de se restabelecer do estresse, melhorar o estado emocional. A gente vê com muita preocupação [este cenário]”.

No Paraná, a principal dificuldade é com a falta de leitos, principalmente na região metropolitana de Curitiba. Em um intervalo de dez dias, entre 1º e 10 de dezembro, sete idosos que moravam num mesmo asilo, em Piraquara, na grande Curitiba, morreram enquanto aguardavam vagas de tratamento intensivo. Todos tinham mais de 80 anos e comorbidades.

O governador Ratinho Jr. (PSD) afirmou que, desde março, o estado dobrou o número de UTIs, mas que, ainda sim, estão sendo abertos mais leitos para atender a demanda.

Em Minas, o governo de Romeu Zema (Novo) diz que há estoque suficiente de insumos para atender a demanda e que entregou até agora 44 milhões de itens de EPI, contendo máscaras, luvas, aventais protetores, entre outros.

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